Rita Lee: porra-louca, maconheira e doidona?

por Redação

Não é bem assim. Leia trechos inéditos da autobiografia da cantora: ”apenas encontrei um barato maior”

Quem melhor que a gente pra contar de nós mesmos? É isso que faz Rita Lee, e de forma corajosa e muito honesta, em Rita Lee - Uma autobiografia, lançada este mês pela Globo Livros. Aos 68 anos, a cantora mais emblemática do rock brasileiro recorda uma vida de altos e baixos, polêmicas e grandes momentos em mais de cinco décadas de carreira.

Sem deixar de lado o sarcasmo e o humor ácido só seus, ela vai da infância na Vila Mariana, bairro de sua terra natal São Paulo, "Dizem que eu era feliz e sabia..., viajava na modernidade das cinco mulheres geniais que me cercavam: Chesa, minha iluminada mãe; Balú, minha fada madrinha; Carú, minha bela irmã adotiva italiana; Mary Lee e Virgínia Lee, minhas duas hilárias manas de sangue. Esse harém desvairado estava sob o comando de Charles, meu pai..."; passando por Mutantes; os três filhos; o marido, Roberto de Carvalho, drogas, amigos inesquecíveis; chegando na aposentaria dos palcos, "antes que meu corpo desmoronasse de vez". 

Separamos aqui alguns trechos do livro, que é inteiro imperdível.  

“Enquanto isso, sigo sendo uma septuagenária bem‑vivida, bem‑experimentada, bem‑amada, careta, feliz e... bonitinha.”
Rita Lee

A Lôka
"Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica, entre outras virtudes. Confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante. Se um belo dia você me encontrar pelo caminho, não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo. Se o passado me crucifica, o futuro já me dará beijinhos.
Enquanto isso, sigo sendo uma septuagenária bem ‑vivida, bem‑experimentada, bem‑amada, careta, feliz e... bonitinha. Lucky, lucky me free again*. Tempo para curtir minha casa no mato, para pintar, cuidar da horta, paparicar meus filhos, acompanhar minha neta crescer, lamber meus bichinhos, brincar de dona de casa, escrever historinhas, deixar os cabelos brancos, assistir novela, reler livros de crimes que já esqueci quem eram os culpados, ler biografias de celebridades com mais de setenta anos, descolar adoção para bichos abandonados, acompanhar a política planetária, faxinar gavetas, aprender a cozinhar, namorar Roberto e, se ainda me sobrar um tempinho, compor umas musiquinhas."

*Trecho da canção Free again, de Barbra Streisand. Em tradução livre, "Sorte, sorte minha, estou livre novamente". 

Flagra
"Compusemos 'Cor‑de‑rosa choque' por encomenda. A Globo ia estrear um programa diário, o TV Mulher, com o trio Marília Gabriela, Clodovil e Marta Suplicy comandando a mesa, só faltava a música de abertura, algo que expressasse o universo feminino com conhecimento de causa, o definitivo hino das fêmeas planetárias com sotaque brazuquês. Sendo assim, usei e abusei de palavras‑chaves como Eva, menstruação, sexto sentido, gata borralheira, dondoca, sexo frágil, culminando com o refrão‑ameaça: 'Não provoque, é cor‑de‑rosa choque'. Claro que a censura implicou com 'mulher é bicho esquisito, todo mês sangra'. Eu lá diante da mulher-tailleurzinho-cinza-soviético, defendendo a tese: 'Sabe quando a senhora antes de menstruar sente uma esquisitice hormonal e meio que dá uma pirada? Então, é isso que eu quis dizer'. Na época ainda não existia a sigla TPM para explicar melhor."

Férias
"Mergulhados na estrada, Rob e eu perdemos algumas gracinhas dos meninos tipo primeiro dentinho, primeiro passinho, primeiro 'mamã‑papá'. Doía no coração. Quando Beto estava com cinco anos, Juca com três e Tui com um, tentamos carregá‑los numa turnê junto com Balú. Misturar filhos à loucura que rolava em shows não era lá muito saudável, se é que me entendem. Para compensar nossa ausência física enquanto estavam em aula, os destinos de nós cinco nas férias eram sagrados: São Paulo‑Manaus, Manaus‑Miami, Miami‑Caribe. Primeiro mostrar a eles o Brasil belo e selvagem, depois um rolê nas magias da Disney e, por fim, o paraíso das praias caribenhas de mar azulzinho e areias brancas."

“Éramos crème de la crème para voyeurs auditivos, com os sugestivos 'me vira de ponta cabeça, me faz de gato e sapato'”
Rita Lee

On the Road
"O casal de coelhos R & R continuava firme e forte. A graça era transar em locais inusitados, de banheiros de avião a praias desertas, de banheiras de espuma a escadas de incêndio, de elevadores de serviço a camarins de shows. Com essa bagagem erótico‑musical, partimos para um novo disco, o Lança perfume, a consagração total das nossas parcerias, cada vez mais autobiográficas. Éramos crème de la crème para voyeurs auditivos, com os sugestivos 'me vira de ponta cabeça, me faz de gato e sapato, me deixa de quatro no ato, me enche de amor...', 'Misto-quente, sanduíche de gente, empapuçados de amor...' e 'Me deixar levar por um beijo eterno, mais quente que o inferno'. E assim caminhava a paixonite sem pudores de dois famintos diante de pratos cheios de sedução, mergulhados na gula da paixão."

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