Lá em casa
Lá da Venda reúne clima de armazém, artesanatos escolhidos a dedo e comidinhas de verdade
Por Flora Paul
em 18 de dezembro de 2009
Seja para fazer compras neste fim de ano, comer uma comidinha gostosa ou apenas se deliciar com suas memórias, uma ótima opção é a Lá da Venda, em uma das ladeiras da Vila Madalena. A Venda é um sonho antigo de Heloísa Bacellar, autora dos livros Cozinhando para Amigos e Entre Panelas e Tigelas, se preparando para lançar seu terceiro, Chocolate todo Dia, e uma das fundadores do Atelier Gourmand. “As pessoas sempre me perguntavam se um dia eu abriria um restaurante. E eu respondia ‘Ah, só um restaurante eu não quero’”, contou ao site da Tpm. “Eu queria uma coisa um pouco mais ampla.”
Na infância, sempre que andava a cavalo com o irmão Ricardo pelas redondezas da fazenda da família, em São Luís do Paraitinga, simpatizava com as vendas da região. “Tinha muitas vendas legais. A gente sempre parava para tomar tubaína. E era quente, porque não tinha nem geladeira, essas coisas, mas eu amava aquelas vendas. O Ricardo sempre falava que um dia eu ia ter uma venda.” Em dezembro do ano passado, Heloísa idealizou o seu não restaurante. “Nos amarzéns de antigamente vendia-se tudo de que a pessoa precisava no dia a dia; a bacia, o salame, o lençol, o brinquedo. Queríamos ter esse leques de produtos tradicionais, mas de um jeito mais bacana.” E começou a viajar pelo Brasil atrás de quem pudesse abastecer a loja.
Começou, é claro, por São Luís do Paraitinga, quando pediu para três pessoas avisarem pela região que Heloísa procurava quem fizesse tricô, crochê, costurasse… em pouco tempo, 63 mulheres começaram a ajudar a dar um toque especial aos itens da Lá da Venda. “Eram pessoas que tinham capacidade mas que nunca tinham tido oportunidade de que isso saísse da casa delas. Propomos uma forma de trabalho com elas. É superbacana, porque tem mulheres que nunca receberam um centavo por seu trabalho, e daí de repente ela borda uma toalha e ganha R$ 50. A duas horas e pouco de São Paulo, algumas nunca tinham nem visto uma nota de R$ 50. E elas estão se fortalecendo na família, na sociedade, desenvolvendo a autoestima.” A produção do Lá da Venda escolhe bons tecidos e linhas, seleciona desenhos e envia kits de costura para cada participante, incluindo oficinas para aprimorar a técnica de cada uma. “Elas fazem coisas maravilhosas.”

“Viramos o Brasil todo atrás de criadores bacanas, foi um ano de muito trabalho, viramos as coisas de cabeça para baixo, mas foi muito gostoso.” Nas viagens, captou para a Venda, com a ajuda de sua equipe, itens que fogem do artesanato tradicional. Uma comunidade de um quilombo no Pará faz as pulseiras e tigelas com casca de castanha-do-pará (pulseira R$ 35, tigelas de R$ 35 a R$ 55). No Rio Grande do Sul, uma comunidade faz cestas com palha de trigo, “um trabalho muito refinado, com microtrancinhas, que ficam com a cor dourada do trigo” (R$ 110). Uma metalúrgica no interior do Paraíba funde as panelas de ágata em cores como roxo e vermelho. São apenas alguns do 850 itens que você encontra na Lá da Venda, como bolsas, artigos de papelaria, facas, copos, bacias… “O que não é feito por nós, como toca de banho, escova de cabelo, não poderia deixar de ter em uma venda”, explica Helô.
Como não poderia faltar em um lugar feito por Heloísa, a Lá da Venda também tem comidinhas. “É comida que tem gosto de comida, que dá vontade de comer mais. Temos pão de queijo certificado da serra da Canastra; um polvilho artesanal que quando é feito tem de secar ao sol; bolos sem cara de confeitaria, simples, com cara de casa. É tudo muito especial, zero de conservantes, aromatizantes. Óbvio que com isso o bolo sem tranqueirada dura menos tempo, mas é porque ele é de verdade.” Uma fatia de goiabada custa R$ 9. Para acompanhar, uma garrafa de tubaína custa R$ 4.
Heloísa, como na previsão do irmão na infância, agora tem sua venda. “Na hora de dar um nome, eu queria que fosse uma coisa simples: “”De onde que é esse prato legal?’. ‘Ah ele é Lá da Venda.’ Eu acho que a palavra venda é uma coisa interessante, porque hoje em dia tinha se perdido um pouco. De armazéns, mercearias, você até houve falar, mas de venda é raro”. E, apesar de nova – a loja abriu em 30 de novembro – a dona já faz planos. “Nossa ideia é ter sempre coisas bacanas e diferentes, porque nossas peças são únicas. Nosso maior plano é trazer sempre coisas novas e, na parte de comida, sempre coisas gostosas.”
Vai lá:
Lá da Venda
R. Harmonia, 161, Vila Madalena, São Paulo
de segunda a sábado das 10h às 19h
domingo das 10h às 17
Tel: (11) 3037-7702
www.ladavenda.com.br
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