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por Natacha Cortêz

O ator argentino, que está no elenco de A Menina Sem Qualidades, diz que adora trabalhar no Brasil e dispara: ’Tem atores que mistificam a atuação’

“Ele é um dos maiores atores com que já pude trabalhar. Senti pânico de felicidade ao vê-lo contracenando com Bianca”. A declaração é de Felipe Hirsch, diretor de A Menina Sem Qualidades, sobre o argentino Javier Drolas, 41, que faz parte do elenco da minissérie. De forma inesperada, o ator arrancou suspiros de toda a produção com sua atuação e, ao lado da atriz Bianca Comparato, se revelou uma das grandes surpresas da nova atração da MTV Brasil.

Na primeira série de dramaturgia produzida pela emissora, Javier interpreta Tristán, um professor de espanhol de um colégio particular de Ensino médio em São Paulo, marcado pela ditadura militar argentina e por um passado no qual foi preso político. Na trama, seu personagem vive um jogo de chantagem e sedução criado por Ana, vivida por Bianca, e Alex, interpretado por Rodrigo Pandolfo, dois adolescentes pós-nilistas, descrentes e manipuladores, dispostos a testar os limites das regras sociais.

A Menina Sem Qualidades é uma adaptação do livro homônimo escrito pela alemã Juli Zeh em 2009, e trata de maneira muito direta, de sexo, violência psicológica, suicídio e outros temas que cercam uma adolescência crua e desprotegida, com juízos e padrões em constante transição.

Sobre a escolha de Javier, Felipe conta que era importante que o ator fosse argentino - uma vez que o diretor precisava de um casal estrangeiro para os papéis de Tristán e Bianca - e quando procurava por um ainda não conhecia em nada o trabalho de Javier. “Inês Efron (atriz argentina que também está na minissérie, e interpreta Bianca, mulher de Tristán), comentou sobre ele e então assisti Medianeras. Logo me interessei pelo seu trabalho. Mas quando o vi atuando em A Menina Sem Qualidades, ele me tirou a respiração. Foi uma surpresa muito feliz”, disse. Bianca Comparato, que protagonizou cenas fortes ao lado do argentino, conta que aprendeu muito trabalhando com ele, principalmente pela falta de esforço aparente com a qual ele interpreta. “Ele mostra força através de sutilezas, ao mesmo tempo, é calmo, sem deslumbramentos. As cenas que fizemos juntos foram extremamente reais. Eu senti cada emoção que a minha personagem passou, de medo a tesão. Mesmo, foi incrível.”

 

"Tem atores que mistificam a atuação. Tive um professor que dizia que a atuação era parecida com uma brincadeira de crianças ou com a loucura. No caso da primeira, é pela facilidade que elas têm de acreditar no que criam. Já o louco, crê na sua própria loucura. Atuar é um território no meio dessas 2 coisas"


Na Argentina, Javier é um ator de teatro que a princípio se rendeu à atuação por pura diversão. Formado em Artes Plásticas, foi estear aos 27 nos palcos, e se manteve fiel a ele durante grande parte de sua carreira. Em 2011, protagonizou no cinema Medianeras, produção argentina que relaciona a arquitetura da cidade de Buenos Aires com dois personagens imersos em relações virtuais e neuroses pós-modernas. O filme trouxe grande destaque ao ator e o levou dos palcos para projetos maiores na TV. Na época, o longa recebeu os prêmios de melhor filme estrangeiro e melhor diretor no Festival de Cinema de Gramado.

Na noite de lançamento da série, que aconteceu ontem, 20 de maio, em São Paulo, a Tpm conversou com ele. Falamos sobre carreira, o trabalho em A Menina Sem Qualidades, e sobre o Brasil – assunto que Javier gosta e entende bem.

Tpm. Felipe Hirsch , o diretor de A Menina sem qualidades disse que você é de longe o melhor ator com ele já trabalhou. Como aconteceu o convite pra fazer a minissérie? E como foi trabalhar em uma produção brasileira?

Javier. Foi a Alessandra, uma menina da produção que me contatou. Ela me contou mais ou menos a sinopse - o roteiro até então não estava escrito - , aí tive uma entrevista com o Felipe pelo Skype, e ele me pareceu muito engraçado, e muito humano, isso me interessou. Já tinha ouvido falar da fama e credibilidade que ele tinha no Brasil, e me surpreendi com a simplicidade dele. Porque muitas vezes por trás desses títulos, e da fama, existem pessoas muito prepotentes e que se aproveitam do poder que têm, e o Felipe está muito longe disso. Ele é uma pessoa que tem uma qualidade humana incrível. Todo dia aprendia coisas novas com ele e com o elenco. O Felipe tem uma forma de dirigir que permite a improvisação e a liberdade. Isso pra mim é muito instigante, como trabalhei muito improvisando no teatro, adoro. Parece que tem um frescor.

Então o trabalho em A Menina Sem Qualidades foi parecido com o que você costuma fazer no teatro. Sim, foi parecido com o teatro. Muito por culpa do Felipe mesmo. Pra um ator, saber que o diretor está empolgado com o seu jeito de atuar só ajuda no ritmo. Conversávamos muito da cena que seria filmada e rapidamente nos entendiamos, houve sintonia.

Antes de ser ator, você se formou em Artes Plásticas. Como surgiu a vontade de atuar? Quando eu tinha 22 anos, uma amiga minha começou a falar pra mim sobre interpretação. Mas só com 27 anos, em Buenos Aires, fui fazer a primeira peça de teatro. Primeiro comecei por diversão e aí gostei de estar naquele cenário e a reação das pessoas foi um alimento pra mim. Na época, estreei fazendo humor, e a emoção do público me movia. E foi dessa sensação que gostei muito.

 

"O que me comove é um puro prazer egoísta, porque estou convencido de que não haja nenhum mistério muito grande por trás da atuação - pelo menos no meu caso"


O que mais te comove na profissão?
O que me comove é um puro prazer egoísta, porque estou convencido de que não haja nenhum mistério muito grande por trás da atuação - pelo menos no meu caso. Porque tem atores que mistificam a atuação. Eu tive um professor que dizia que a atuação era parecida com uma brincadeira de crianças ou com a loucura. No caso da brincadeira de crianças, é na facilidade que elas têm de acreditar no que criam alí. Já o louco, crê na sua própria loucura. Então atuar é um território no meio dessas 2 coisas. No meu caso é mais uma brincadeira. Mas, né, tem gente que enlouquece. Pra mim também tem a ver com intuição. Não sou alguém que estudou muito pra atuar. Eu fui sempre sentindo tudo. Sentindo a resposta da plateia no teatro, sentindo a emoção de fazer...

Martin, de Medianeras, e Tristán são personagens tímidos e introvertidos, mas ao mesmo tempo muito distantes um do outro. O que eles têm comum com você? Com qual deles mais se identifica? O Martin é mais parecido comigo. O Tristán vive em um extremo, vive em um precipício. Martin é mais um neurótico da cidade com problemas que na verdade não muito graves, ele está apenas perdido em sua própria cabeça, em seu interior - com problemas fabricados por si mesmo. No caso do Tristán, teve um passado que o marcou, ele foi preso político na época da ditadura. Acho que ele teve uma vida muito dura quando foi preso. Acredito que ele tenha uma tristeza consigo, que a carregue. Sua mãe se suicidou porque acreditou que ele estava morto. Ele vive completamente em um extremo. Me identifico pouco com o Tristán e foi isso o empolgante de interpretá-lo porque senão você só segue fazendo que é cômodo.

Uma vez declarou que Buenos Aires e São Paulo são muito parecidas pela melancolia. Ainda acha isso? Gosta dessa melancolia? Sim, não saberia outra palavra pra caracterizar as duas cidades se não melancolia. Em São Paulo e em Buenos Aires há lugares em que se pode ir a pé tranquilamente e lugares que são muito perigosos; lugares em que não se vê o sol pela quantidade de prédios, e lugares de área verde. Acho que esses contrastes constroem esse sentimento. E também acho que existe uma visão mais europeizada em São Paulo do que no resto do Brasil, assim como em Buenos Aires. Mas não sei, sinto que estamos relacionados, ligados mesmo, por causa da estrutura e arquitetura de nossas cidades. Por causa da limpeza e da sujeira, do barulho e do silêncio.

 

"Em São Paulo e em Buenos Aires há lugares em que se pode ir a pé tranquilamente, e lugares que são muito perigosos; lugares em que não se vê o sol pela quantidade de prédios e lugares de área verde. Acho que esses contrastes constroem esse sentimento [melancolia]"


Das novidades da TV, cinema e teatro, o que você mais gosta de ver? E entre elas, no quê, ou com quem, mais gostaria de trabalhar? Veja, hoje não tenho carro nem carteira de motorista, tenho internet, mas quase não vejo televisão. Quando vejo televisão sinto que não me sobra muito tempo, acho que a televisão me tira tempo e fico sem poder fazer outras coisas. Então confesso que não presto atenção em TV. Já o teatro, adoro e me enriquece observar. Uma outra fonte minha de inspiração é assistir pessoas e seus cotidianos; quando vou comprar madeira ou comprar parafusos, presto atenção em como vive quem está me vendendo eles. Não sei se só vendo arte  se adquire conhecimento. Acho que você pode ter diversas fontes. Mas, respondendo sua pergunta: eu adoraria fazer mais cinema agora. Em qualquer lugar. 

Você já esteve mais de dez vezes no Brasil. Gostaria de trabalhar mais aqui? Talvez passar um tempo. Sim, eu adoraria. Sou fã do Brasil. Me vejo vivendo no Rio de Janeiro. Não conheço muito o Nordeste, nem o Mato Grosso, mas o litoral do Paraná até a Bahia já conheci. Acho importante conhecer da geografia de outros lugares, principalmente de um país tão próximo.

 

"Uma fonte de inspiração pra mim é assistir pessoas e seus cotidianos; quando vou comprar madeira ou comprar parafusos, presto atenção em como vive quem está vendendo. Não sei se só vendo arte se adquire conhecimento"


Tristán foi um personagem difícil? Sim, foi meu maior desafio até agora, e me consumiu de preocupação. Porque quando fiz Martin, já tinha feito o curta metragem de Medianeras, e no longa sabia o que tinha que fazer.  Mas nesse caso o que passava com o personagem era tão extremo, tão dramático, e eu que acostumado com comédias, fiquei realmente apreensivo. Houve cenas difíceis mesmo, de tensão, e de eu pensar se daria conta delas. 

Você e Bianca contracenaram cenas fortes, com sexo, violência e nudez. Essas foram cenas de tensão? A gente fez várias cenas de sexo, e não tenho vergonha de ficar nu, não tenho problema com isso. Encontrei com a Bianca no primeiro dia de filmagem, e ela me disse “fique à vontade, não tenho problemas em fazer essas cenas”,  respondi que eu também não tinha. Mas notava-se, eu estava preocupado com ela e ela, comigo. Depois, acho que isso foi um pouco inconsciente na verdade, quando vi as cenas fiquei pensando “foi isso mesmo?! Fizemos isso?”. Senti um certo constrangimento, mas ao mesmo tempo satisfação. Mas no momento não, no momento de filmar me senti tranquilo. Felipe falava muito da entrega dos atores, e acho que todos os atores se entregaram.

Sentiu diferença em trabalhar aqui e trabalhar em Buenos Aires? Ah, sim. Em Buenos Aires tem muito disso de nome, prestígio e junto vem prepotência. Os atores não se rendem tanto porque sempre tem um idiota comandando tudo. Um cara metódico, que não respeita seu envolvimento com o papel. Então você vai, faz seu trabalho, volta pra casa e ninguém faz nada de coração.

Então seria uma ideia deixar Buenos Aires pelo Rio ou São Paulo? Ah, eu amo Buenos Aires. Vocês não?

Aqui, o teaser de A Menina Sem Qualidades: 

Vai lá: A Menina Sem Qualidades
Quando? Estreia dia 27 de maio. Segunda a quinta, às 23h - 12 episódios. Reprises: segunda a quinta, às 00h30 e às 22h30
Onde? MTV Brasil

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