Tpm

por Redação
Tpm #67

Testemunha ativa de 22 casamentos no mesmo dia, refleti sobre minha própria vida e sobre as convenções dos relacionamentos

 
Numa manhã ensolarada de sábado, daquelas que dão uma única trégua à chuva e ao frio, fui ma­drinha de um casamento comunitário no Par­­que do Trote. Como padrinho, o ilustríssimo pre­fei­to da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab. Uma hon­­ra dupla, pois, além de admirar o meu “par” pela gen­­tileza e disciplina, eu entrava num dos momentos mais importantes da vida de muitos casais.

Conhecido como Hipódromo da Vila Guilherme, esse parque marcou a geração paulistana nas décadas de 50 e 70, quando sediava as corridas de trote, numa es­pécie de cavalgada com “charretinhas”. Hoje se transformou no primeiro parque acessível da cidade de São Paulo. Há dois anos, fui madrinha de outro casamento co­munitário no mesmo parque, com o então prefeito Jo­­sé Serra. Mas daquela vez presenciamos a união de ape­nas dois casais. Desta, foram 22 enlaces.

O primeiro casal ultrapassava os 70 anos. Quando o padre pediu as alianças, o senhorzinho fa­lou: “Num tem, não!”. A esposa, num ato cinema­tográfico de “Ro­liúde nordestina”, meteu a mão no bolso do paletó do noivo e sacou o par de alianças dizendo com firmeza: “Tá ruim, hein, que eu ia esquecer dos anéis”. Quando o segundo casal foi inquirido se era uma ação de livre e espontânea vontade, o homem falou “sim” num vo­lume tão discreto, que provocou na noiva uma ne­cessidade de gritar o seu “sim”, arrancando risos da platéia.

Todos demonstravam estarem com os nervos à flor da pele, mas depois do beijo matrimonial vinham nos cumprimentar com sorriso de alegria e satisfação. E eu entrei na viagem rapidamente me deixando ser ma­drinha e emitir providências de amor e paz. Além de acompanhar cada cerimônia e beijar as noivas, as­si­nei todas as certidões de casamento. Esse mo­mento sem dúvida ficou registrado no imaginário dos casais e familiares, pois a concentração no ritual era interrompida para me observar escrever com a boca. Teve um marido (já havia falado “sim” e trocado as alianças) que parou de ouvir a juíza, me olhou assinando e exclamou: “Nossa, com a boca?”. E, na se­qüên­cia, já foi esticando o braço para me cumpri­men­­tar. Naturalmente, achou que aquela atitude não pas­sava de um estilo excêntrico. Parecia jamais ter con­cebido, por trás daquela assinatura, a falta de mo­vi­mento nos braços. E digo naturalmente porque tam­bém sinto assim! Esse homem chegou ao altar pe­din­do para acelerar a cerimônia, pois precisava de uma cachaça para cortar o nervosismo. Segurava no colo o fi­lho de meses com a cabeça completamente pendu­ra­da para o lado. Aquilo me deu tanta aflição que fi­quei chamando a atenção para a posição da cabeça do be­bê. Não me deram a mínima.

Amor pra todos os gostos

Toda noiva ganhava uma lembrancinha do parque, que era um casal de bonequinhos noivos ao lado de um cavalo, tudo de plástico. Uma mulher, vestida fi­elmente a caráter, deu o presente dela para mim. Ti­nha casal muito jovem, idoso, noiva grávida, filhos e apenas uma moça tinha jeito de virgem. Alguns ti­nham semblante tão sofrido que pareciam ter sido obrigados a casar.

Naquele dia meu relacionamento amoroso andava tão mal que por várias vezes questionei a atitude daqueles casais. Nem na adolescência tive o sonho do véu e grinalda. Esse desejo nunca fez parte da minha vida. Não é que eu não acredite no amor. Ao contrário, tenho como verdadeiro que existem inúmeras fórmulas de amor e de felicidade. Mas acredito que existe anistia para desejos fora da ordem e que não precisamos de ninguém para nos completar, pois devemos fazer isso sós. Aí sim estaremos aptos a ter uma boa companhia nupcial!
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