por Giulia Garcia

Fotógrafa baiana que alisava o cabelo e tentava clarear a pele, entendeu a força da estética negra, subverteu preconceitos e transformou tudo em arte

O ato revolucionário de Helen Salomão é fotografar. Corpos reais, sem produções, são empoderados pelas lentes da baiana. “Tento buscar a partir do meu olhar a poesia no corpo do outro e o que ele tem a oferecer. Quando vou fazer um ensaio, faço com que o outro fale. Cada um é protagonista da sua própria história e isso traz representatividade, empoderamento”, diz.    

Nascida na periferia de Salvador, Helen sonhava em lutar com outras armas que não as lentes de uma câmera fotográfica. A meta de tornar-se advogada foi o primeiro passo em direção a sua resistência. Como jovem aprendiz - ainda no ensino médio - trabalhou dentro do Tribunal de Justiça. Percebeu que a prática era diferente do que ela entendia por justiça.

Filha de mãe negra e gorda, viu os obstáculos do racismo e da gordofobia na família, mas não os sentia na pele, mais clara. Sem tomar sol,  usando maquiagens de tons mais claros que sua pele e alisando o cabelo, buscava se padronizar. Foi naquele espaço que percebeu não ser branca. Mas a prisão estética era cara demais pra ser sustentada.

Foi durante seu processo de transição capilar que Helen comprou uma câmera e começou a descobrir a fotografia. A arte se mostrou um novo caminho de resistência. Com a oportunidade de cursar um pré-vestibular gratuito, escolheu prestar design. Não acreditava que a arte autoral e as câmeras fossem para ela. “Eu sou uma mulher preta de periferia. A fotografia não foi pensada pra mim. Percebi principalmente quando descobri que no processo de revelação o negro era apagado. Só saíam os dentes e os olhos”, explica.

O curso não trouxe a aprovação na faculdade, mas abriu portas e reflexões para além dos livros. Helen tomou consciência de sua negritude e entendeu a força de sua estética: “O conhecimento foi a porta pra eu começar a refletir sobre essas coisas. Comecei a perceber que a minha estética era política também”, diz.

Um curso de artes e tecnologia a consolidou como artista, dando fundamentos e visibilidade para suas produções. “A Oi Kabum era uma instituição que, para além de técnica, discutia sobre o nosso posicionamento, sobre o que a gente pensava”, explica. Helen passou a usar a arte como forma de denúncia aos padrões. Na poesia e na fotografia encontrou espaço para contar  o que viveu e viu. Suas lentes se voltaram para aqueles que eram invisibilizados. 

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Gorda Preta foi o projeto que fez com que as pessoas conhecessem Helen Salomão. Inspirada em sua mãe, a fotógrafa decidiu mostrar a diversidade dos corpos gordos. Com Um preto por dia e 100 mulheres negras trouxe a diversidade dos tons de pele negros em foco. “Para algumas pessoas, ser uma mulher gorda é sinal de que ela come pra caralho, que é descuidada. Ser preta é porque não foi privilegiada com a pele mais clara”, diz.

“Quando vou fotografar as meninas, busco um ângulo e cores para mostrar que essa mulher tem poder e que ela ligou o foda-se pra você que não consegue enxergar que ela é negra ou aceitar o corpo dela”, explica. Para a fotógrafa, o empoderamento estético vai além da geração tombamento. Percebeu em mulheres mais velhas, como sua avó, uma força além das palavras de militância.

Em sua mãe, viu o impacto de seu trabalho artístico. A trancista, que foi a primeira a dizer que a filha era branca por seu tom de pele mais claro, mudou suas opiniões. Entendeu a luta - que também era sua, inclusive por seu trabalho, que era tão arte e tão empoderador quanto o de sua filha. “O ato de revolucionar está perto de você, muito perto. No seu vizinho, na sua mãe. Não adianta querer revolucionar pro mundo se os seus ainda estão em processos doentes”, explica a fotógrafa.  “Sempre temos privilégios em relação a outras pessoas. Então o que eu faço com os meus? Com esse espaço de fala conquistado? Sou veículo para que outras pessoas falem e apareçam.”

Créditos

Imagem principal: Helen Salomão / Divulgação

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