por Lia Hama
Tpm #161

Um homem másculo. E sensível. Juliano Cazarré é um ator com ares de galã que escreve poesia, chora ao assistir o noticiário e – acreditem – adora discutir a relação

Leia também as Páginas Negras da Trip com Juliano Cazarré.

Na casa onde mora no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio do Janeiro, Juliano Cazarré é quem cozinha e cuida dos filhos Vicente, 5 anos, e Inácio, 3. Nascido em Pelotas (RS), o ator de 35 anos faz questão de dedicar instantes do seu dia para observar uma flor que brotou no jardim ou um pica-pau que pousou por ali. “Gosto das coisas singelas”, explica. Assistir ao noticiário de TV muitas vezes o deixa com lágrimas nos olhos. Se levarmos em conta as velhas premissas de feminino e masculino, a letra de Pepeu Gomes e Baby Consuelo de 1983 cai como uma luva para Juliano: “Ser um homem feminino não fere meu lado masculino. Se Deus é menina e menino. Sou masculino e feminino”.

Em casa, é sua mulher, a estilista Leticia, com quem está há seis anos, que dá instruções ao pedreiro, vai à loja de material de construção, liga para cobrar a empresa de mudança. “Leticia é mais objetiva e direta do que eu, ela tem uma maneira racional de lidar com os problemas. Eu me emociono muito fácil, fico chateado com qualquer coisa e vivo carente. Ela me pergunta: ‘Mas por que eu preciso dizer a toda hora que te amo? Não estou aqui, com você, todos os dias?.”

Juliano gosta de atenção. O corpo grande e musculoso, conquistado à base de muita natação, surf e malhação, o rosto quadrado e a barba cerrada escondem um moço sensível e emotivo. Formado em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), cidade para onde se mudou quando pequeno, o ator gaúcho é um artista de várias facetas, incluindo a de poeta. Juliano lançou, há quatro anos, Pelas janelas (ed. Dublinense), um livro de poesias com prefácio do colega Wagner Moura e referências explícitas a autores como João Cabral de Melo Neto e Jorge Luis Borges. A literatura sempre foi referência em casa. Seu pai, Lourenço Cazarré, é escritor de literatura infantojuvenil, tem mais de 30 livros publicados e foi premiado com o Jabuti.

Cheiro, gosto, tato
Juliano começou a carreira no teatro e no palco é o protagonista da peça Adubo – ou a sutil arte de escoar pelo ralo, do diretor uruguaio Hugo Rodas. A trama, que propõe uma reflexão sobre a morte, completou dez anos em cartaz. Atualmente o ator está na novela das 9, A regra do jogo, como o funkeiro MC Merlô. Seu personagem vive sem camisa em horário nobre, exibindo as tatuagens (já são 13) e rebolando ao lado das dançarinas Alisson (Letícia Lima) e Ninfa (Roberta Rodrigues) no fictício Morro da Macaca. A sensualidade, explica, faz parte de sua personalidade. “Tenho uma maneira de me relacionar com o mundo que é sensual. Acho que passo isso para os meus personagens. Gosto das coisas que têm cheiro, gosto e textura. Adoro ver gente bonita andando na rua, tanto homens como mulheres. Não tenho problema nenhum em admirar um cara sarado e falar: ‘Caraca, olha a panturrilha daquele maluco!’.”

Amora Mautner, diretora-geral de A regra do jogo que trabalhou com Juliano em Avenida Brasil, se derrete em elogios: “Ele é um grande ator: instintivo, com conhecimento técnico, carisma absoluto e uma inteligência cênica rara. Sou muito fã dele, se depender de mim ele estará em qualquer projeto meu”, declarou Amora, que também é diretora de núcleo da TV Globo.

Juliano está nas telas dos cinemas como o protagonista de Boi neon, filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, premiado nos festivais de Veneza, Toronto e do Rio em 2015. Seu personagem, Iremar, embaralha as noções de gênero. “Boi Neon brinca o tempo inteiro com essa questão. Meu personagem é um vaqueiro viril do Nordeste que gosta de costurar roupas femininas. O diretor foi muito feliz em captar essa questão contemporânea: entre o masculino e o feminino existem infinitas possibilidades. E a identidade de gênero não tem a ver com a orientação sexual. Um homem pode ser feminino gostando de mulher, assim como uma mulher pode ser masculina gostando de homem.”

Gabriel Mascaro conta que Juliano quase desistiu do papel. “Por trás desse ator monstruoso tem uma pessoa frágil, com inseguranças pessoais. Com tudo pronto para começar as filmagens, Juliano me perguntou se eu queria desfazer o convite. Disse que estava na dúvida se o personagem era mesmo para ele. Mas eu sempre soube que ele tinha o espírito e o corpo necessários para encarnar o vaqueiro Iremar”.

Pau, o tabu
Desde 2012, quando Juliano estourou como Adauto em Avenida Brasil, Tpm o convida para um ensaio. Desta vez ele aceitou. As fotos foram feitas na casa do ator por seu amigo de infância, o fotógrafo Diego Bresani, e com produção de sua mulher. “É um ensaio honesto e sincero. Me senti totalmente à vontade.”

Diego foi o autor de outro ensaio que causou furor na internet há cinco anos, ao mostrar Juliano de terno, com o pinto pra fora. “O Diego já vinha fotografando a classe artística de Brasília, sempre com humor e ousadia. Eu quis participar e abordar essa questão do tabu em torno do pênis. Existe essa ideia de que o pau é uma coisa feia: mole é horrível, duro é pornográfico. Mas é apenas uma parte do corpo masculino. É natural e dá muito prazer. Então por que todo esse tabu em torno dele?”, questiona. O sensacionalismo em torno das fotos assustou o ator. “Foi na época da minha primeira novela, Insensato coração, eu não tinha ideia da repercussão que causaria. Começou a sair em todo lugar, me procuravam para dar entrevistas, diziam que as fotos vazaram. Não vazou nada, a gente que publicou no site do Diego!”

Fora das telas, Juliano é um cara politizado, daqueles que assistem à TV Câmara para acompanhar os últimos desdobramentos dos processos de impeachment da presidente Dilma e do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “Demorou pro Cunha sair! Não tem a menor condição de esse cara continuar no cargo. Em qualquer país sério, ele já estaria fora.”

Juliano observa com interesse os movimentos de empoderamento feminino, como as campanhas #agoraquesãoelas, #meuamigosecreto e #foracunha. “A gente vive num mundo machista, então as mulheres estão cobertas de razão ao lutar por direitos iguais. Os homens vão ter que começar a se observar e a mudar de atitude. Eu tenho uma mulher forte em casa. A gente tem embates em que ela me mostra como muitas vezes eu me amparo num pensamento antigo e machista. Aí eu tenho que retroceder. É difícil para o homem mudar, mas é assim que tem que ser.”

Quando terminar a novela em março, o ator pretende tirar férias para surfar. “Quero ir à Costa Rica, um lugar cheio de reservas naturais. Ali quebra onda tanto do lado do oceano Atlântico como do Pacífico, é um paraíso.” Seu sonho é um dia trabalhar com Luiz Fernando Carvalho, diretor do filme Lavoura arcaica (2001), da novela Meu pedacinho de chão (2014) e da minissérie Hoje é dia de Maria (2005), entre outros. “Lamentei que a novela dele, Velho Chico, começa logo depois da minha, o que me impossibilita de participar”, diz. “Não que eu tenha recebido convite, nem sei se o Luiz Fernando sabe que eu existo”, completa de forma singela. E já está na hora de ganhar o papel principal de uma novela? “Essa é a minha quarta novela das 9. Acho que já está na hora de esse convite chegar, né?”, declara sem falsa modéstia.

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