Fernanda Montenegro

por Nina Lemos
Tpm #115

A atriz rejeita os rótulos. Aqui, ela fala sobre envelhecimento, maternidade, aborto e, claro, liberdade

Fernanda Montenegro pode não parecer, mas é uma mulher normal. O fato de ser a grande dama do teatro brasileiro (termo que acha “uma merda”) e a maior atriz do Brasil, nos concede o direito de pensar isso. Porém, essa senhora de 82 anos, que reestreou o monólogo Viver sem tempos mortos, dirigido por Felipe Hirsch, um ano depois do lançamento em São Paulo, cumpre uma rigorosa agenda de entrevistas. Como se fosse uma atriz estreante.

No dia anterior ao encontro com a reportagem da Tpm, num hotel no Itaim, ela havia ficado até o início da madrugada conversando com jornalistas sobre a peça em que interpreta uma de suas inspirações: a escritora, filósofa e feminista francesa Simone de Beauvoir, em texto baseado em correspondências dela com o marido, o também filósofo Jean-Paul Sartre.

Fernanda não estava lá muito bem- humorada: “Eu já falei tudo o que tinha para falar a você”, diz à repórter no fim daquela uma hora de conversa. Mas, depois, solta: “Foi um prazer te rever, querida”. 
O momento de desabafo, saco cheio e cansaço prova mesmo que é uma mulher normal, apesar de sua biografia esplendorosa, suas frases sábias e do fato de ainda se permitir aventuras aos 82 anos – como, por exemplo, interpretar uma prostituta da Lapa no curta-metragem A dama do Estácio, do diretor estreante Eduardo Ades.

Profissional

Embora emende um trabalho no outro, não aceita ser chamada de operária-padrão. “Isso soa demagógico. Faço o que tem que ser feito. E, já que tenho que fazer, que seja da melhor maneira.” Que isso não seja confundido com sabedoria, porque ela também acha chato ser considerada sábia ou otimista: “Não sou nenhuma Poliana”.

O que ela quer mesmo é que o público veja sua peça. Sabe que a plateia faz parte do jogo do teatro. No palco, Fernanda prende a atenção do espectador por 60 minutos sozinha, sentada em uma cadeira, a cara quase lavada. Fala da facilidade com que Sartre satisfazia as mulheres com a língua e com os dedos, narra a morte do filósofo e discorre sobre a velhice. Simone de Beauvoir está presa dentro de um corpo velho, mas diz que se sente a mesma pessoa. O mesmo acontece com Fernanda, que diariamente repete para si mesma: “Como que pode eu já ter 80 anos?”.

Em mais de 60 de carreira, entre outras façanhas, concorreu ao Oscar por sua atuação em Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e se tornou conhecida no meio artístico brasileiro por ser uma trabalhadora incansável, uma mulher simples, nada afeita a estrelismos. Mãe da atriz Fernanda Torres, com quem tem uma relação muito próxima, e do cineasta Claudio Torres, com o ator e diretor Fernando Torres, morto em 2008, formou um dos casais mais longevos e unidos de que se tem notícia. Seus olhos ainda se enchem de lágrimas quando fala da falta do companheiro e da sua nova realidade de viúva.

Apesar do cansaço daquela quarta-feira que antecedia a reestreia da peça, discursou sobre ser mãe (“não existe mãe não culpada”), o fato de morar sozinha pela primeira vez na vida “e não por escolha” e sobre a diferença entre atriz que leva a sério seu ofício e ser um rostinho bonito na televisão. Ela não “doura a pílula”, deixa claro que envelhecer não é assim tão bacana e que a vida é dura. Com vocês, Fernanda Montenegro, uma mulher realista.

Tpm. Há dois dias você está dando entrevistas para divulgar a peça e fez até uma coletiva. Como tem paciência para participar de um processo tão cansativo?
Fernanda Montenegro. Você tem que vender a sua arte, ela é uma coisa valorosa. Além de trabalhar por meses se preparando, é preciso mostrar. O teatro não é um quarto fechado, você precisa do outro. E, para isso, você tem que contar para as pessoas que você está na cidade. Seja ela São Paulo ou uma cidade pequena. Aí há duas opções: ou você faz com mau humor, e aquilo pesa terrivelmente, ou entende que faz parte do processo e faz da melhor maneira possível. É uma dependência mútua. Nenhum jornalista estava lá à toa.

Você tem fama de ser muito disciplinada no trabalho e já foi chamada de operária da arte, sempre disposta aos maiores sacrifícios. 
Operária parece uma demagogia, tipo: “Ah, a operária”. Mas é um ofício. E, se você leva esse ofício a sério, entra todos os dias no palco, seja encenando uma comédia leve ou uma tragédia grega. Você tem que se exibir inteiro, tem que estar em carne viva. Porque a pessoa saiu de casa para te ver, pagou, pegou uma cidade de trânsito difícil, você tem que dar o seu melhor.

Percebe que a profissão do ator hoje está muito glamorizada, como se fosse um passaporte para sair em revistas, ser famoso?
Isso é o mundo das celebrities, que não tem nada a ver com ser ator. Hoje, por incrível que pareça, existem cursos para atores de televisão! Eu fico observando e imagino que lá a pessoa aprende o naturalismo da TV. Digo naturalismo sem querer ofender os índios, claro [risos].

Você acha que as pessoas querem aparecer na TV apenas pela fama?
Isso é da nossa época. As pessoas começam lá num programa juvenil, saem do Big Brother, aí vão melhorando. Algumas com o tempo se aprimoram e viram bons atores de televisão. Existem tantas possibilidades de atuação hoje... e, se existem, é porque tem mercado para isso. A indústria da imagem requer reposição de peças, sempre digo isso. Claro que os cursos de teatro mesmo formam atores com consistência, em programas que foram cumpridos por quatro ou cinco anos.

 

"Hoje existem cursos para atores de televisão! Imagino que lá a pessoa aprende o naturalismo da TV. Digo naturalismo da TV, sem querer ofender os índios, claro [risos]"

 

Mas existe uma fixação com a TV, não? 
Se o cara ou a menina estão na rua, são bonitos, e alguém pergunta: “Quer ser ator de televisão?”, claro que a pessoa responde que quer. E a família também incentiva. Quando eu era criança, toda menina queria ser professora. Hoje ninguém quer ser professor porque pagam muito mal, não são respeitados. Mas o que dá glória imediata é você, desde os 14 anos, parar de comer e virar modelo. Existe um mercado para isso. Não estou sendo preconceituosa. Toda maneira de amar vale a pena. E tem também os jovens atores maravilhosos, que se agrupam, que fazem projetos. E, quando chegam à televisão, você percebe que são atores bem formados. Temos uma boa tropa jovem nos palcos. Com responsabilidade cênica, que encara aquilo como projeto de vida. E, dentro dos meios eletrônicos, tem uma turma que está tentando melhorar, chegar ao seu momento de glória. Os tempos vão passando. Uns deles são cuspidos, outros se aprimoram, mas muitos deles não querem chegar perto de um palco.

O que seria um momento de glória? 
Como diria [o escritor Anton] Tchecov, não existe momento de glória, existe perseverança. O teatro é inglório. Todo dia você repete aquele processo e todo dia corre o risco de fracassar. Será que se foi bom hoje vai ser bom amanhã? Isso depende de muita coisa. Muitas vezes você vê uma pessoa falar: “Vi um espetáculo maravilhoso”, você vai ver e não acha grandes coisas. É que, independente da vontade do elenco, a mágica não aconteceu naquele dia. Não é todo dia que é maravilhoso.

Você reestreou em São Paulo o monólogo Viver sem tempos mortos, baseado na obra e na vida de Simone de Beauvoir. É um projeto pessoal? 
Não que seja pessoal, mas é muito especial. Comecei a ler a obra da Simone com 19 anos. Ela e Sartre ajudaram a mudar o mundo. Esse projeto me veio através do Sergio Britto, meu grande irmão teatral, uma pessoa com quem convivo desde 1948, que faz parte da minha família escolhida. Ele não pôde fazer por problemas de saúde, mas fiz sozinha até em homenagem a ele. O Sartre está ali o tempo todo.

Uma das questões principais da peça é a liberdade. Você é livre? 
O Sartre e a Simone estão o tempo todo falando da verdade e da liberdade de cada um. Não sei se cheguei lá ainda. A gente está sempre lutando para chegar na nossa liberdade. E existem também as mentiras piedosas. Tem um momento marcante da peça. Os dois tinham um pacto de sempre contar a verdade um para o outro, se um dia aparecesse um câncer, uma doença horrível – e tudo isso aconteceu com Sartre –, nada seria escondido. Mas ela não contou para ele. A pessoa da plateia pode pensar: “Ah, melhor não contar mesmo”. Mas imagina! Eles tinham um pacto. Para eles, silenciar era uma realidade trágica. Para o resto dos mortais não. Mas acho que ela deve ter ficado a vida inteira pensando: “Meu Deus, por que eu não contei essa verdade, por que tomei essa decisão?”.

Que influência a Simone de Beauvoir teve na sua vida? 
A Simone de Beauvoir mudou o mundo. Ela foi uma pensadora que revolucionou tudo. E seus livros de memórias também são maravilhosos. Em A cerimônia de adeus, nos últimos dos volumes, em que narra a morte do Sartre e seu envelhecimento, ela conta todas as coisas horrorosas da decrepitude, detalhes da doença, e muita gente criticou. Mas eles pensavam desta forma, que se devia mostrar a verdade, sempre, por mais que doesse. E, quando a mãe dela morreu, ela se debruçou sobre o tema da velhice e fez um ensaio maravilhoso contando o que a humanidade faz com a sua própria velhice.

E o que a humanidade faz com a sua própria velhice? 
Esquece. Finge que não está ali. Colocam os velhos no asilo, acham que nunca vão morrer. Cria-se um desrespeito contra aquele que não pode mais investir para o sistema capitalista ou socialista. É como se fosse descartável. Aí, deixam de lado.

 

A Simone de Beauvoir foi uma das feministas mais famosas do mundo. Você acha que hoje, com uma mulher presidente e outras conquistas, avançamos bastante?
Avançamos sim. Não só nós, mas os homens também. Eles estão começando a entender as coisas. Ainda se mata muito por amor, se aprisiona por amor... Mas as leis que estão sendo usadas estão mostrando esse fenômeno, punindo. E, fora isso, hoje os homens femininos são aceitos. Eles sempre existiram, claro. Mas agora existe uma consciência maior de que eles podem cuidar da casa, por exemplo.

Você percebe que as coisas são mais fáceis para a sua filha do que foram para você? 
A minha filha é mais liberta que eu. E eu fui mais liberta que a minha mãe. Mas algumas coisas eu ainda guardo. O ser humano tem prazer em agradar o outro. Então, você não deve deixar de dar uma oferenda para o ser amado, de cuidar. Isso pode parecer antigo dentro dessa nova visão do feminino, mas tem também uma contrapartida: você não está dando sem receber. Nesse ponto, a minha geração foi pioneira. Foi a primeira a sair de casa, a trabalhar, a viver do que gostava. Minha mãe, aos 80 e poucos anos, falou: “Eu gostaria de ter sido livre”. Olha que loucura, ela teve essa consciência e conseguiu falar isso! Ela via a liberdade dos filhos, os netos casando, descasando, e pensou na própria vida. E ela teve um casamento longo com o meu pai, de quase 70 anos. Aliás, a família toda é casadoura. Com um ou com muitos homens, cada vez que casamos, ficamos com aquela pessoa bastante tempo.

Você tinha dois filhos pequenos ao mesmo tempo em que estava no teatro, na televisão. Como dava conta da jornada dupla? 
Olha, minha filha, cada um tem um sistema de coexistir. Se eu te disser que não me 
lembro como isso aconteceu... Mas aconteceu, né? [Risos.] Sempre tem uma mãe que ajuda, uma sogra. Sempre fomos atores. Então a nossa rotina familiar teve que se adaptar a isso, como acontece com qualquer um. Se você é um homem do mar, você tem que sair com o navio e fica aquela mulher ali, tomando conta da prole. Se a mulher tem que viajar, ela tem empregada, ou a chamada “mãe coletiva”, que cuida de todo mundo daquela comunidade. Vai se vivendo, compreende? Mas acho que no Brasil ainda faltam creches, que poderiam desanuviar um pouco. Mas que seja uma boa creche. Senão é melhor deixar com a mãe, com uma tia.

Sentia-se culpada quando ia trabalhar e deixava seus filhos pequenos? 
Culpa eu sempre tive. Graças a Deus [risos]. Toda mãe tem culpa. Depois de Freud, então [risos]... Ele sempre coloca a culpa na mãe, depois vem para o pai. E qualquer revista dessas femininas, que a gente lê em consultórios médicos, tem verdadeiros compêndios sobre a culpabilidade feminina, de como as mulheres sentem culpa, de como lidam com isso. É que a gente tem culpa mesmo.

Hoje, vendo seus filhos bem formados, se sente mais tranquila? 
Aliviei muito depois que vi que eles vieram para o mesmo meio de trabalho que o meu. Pensei: “Se tivesse sido um pavor, uma coisa que deturpou completamente a personalidade deles, eles não teriam vindo para o mesmo meio”. Então, se errei, errei numa margem com possibilidade de recuperação.

 

''Estou preocupada sempre. Uma mãe vive preocupada. Quando eles estão bem, penso: 'Agora está tudo bem, mas e depois?'''

 

Você é muito próxima dos seus filhos, não? 
Temos um núcleo familiar muito pequeno, muito unido e muito interdependente, embora sem invasão. Respeitamos o outro. Mas ficamos muito juntos.

Ainda se preocupa com eles? 
Estou preocupada sempre. Uma mãe vive preocupada. Quando eles estão bem, penso: “Agora está tudo bem, mas e depois?”. Existe uma calma. Mas é uma calma em atenção.

E você tem essa mesma relação com seus netos? 
Como avó eu sirvo de ouvido, dou palpites, não sou invasora. Mas a responsabilidade é dos pais. Então, já chega filtrado para você. Quando tenho tempo fico com eles, mas não consigo muito, porque sou uma mulher muito ocupada.

Você consegue ficar sem fazer nada? 
Não.

 

Há quanto tempo não tira férias? 
Eu tiro férias viajando com as peças. Quando não tenho nada para fazer, arrumo um livro, arrumo gaveta. Não sou histérica, não sou fanática. Não faço terapia ocupacional em estado doentio, não. Mas é da minha natureza estar ocupada.

Você filmou este ano um curta-metragem em que interpreta uma prostituta da Lapa (A dama do Estácio, de Eduardo Ades). Como escolheu esse trabalho? 
O rapaz chegou, muito jovem – era o primeiro curta dele. Ele me procurou e disse que tinha um roteiro em memória ao filme A falecida, do Leon Hirszman, que fiz 46 anos atrás. Chamou também os atores Joel Barcelos e Nelson Xavier, que estavam em A falecida. Foi muito gostoso de fazer.

E como foi interpretar uma prostituta aos 82 anos? 
Eu faço prostituta, geralmente. Já fiz a Jacutinga, a dona do puteiro, em uma novela maravilhosa do Benedito Ruy Barbosa [Renascer, 1993]. Fiz também uma cafetina nobre em O dono do mundo [Gilberto Braga 1991/92]. É interessante porque essas putonas velhas costumam ser mulheres muito maternais. São pessoas duras, que exploram, mas também cuidam. Lembro que a personagem da novela do Gilberto dizia: “Vocês nunca aceitem dinheiro. Aceitem viagem, presentes. Prostituta de nível não pega em dinheiro”. Isso não parece uma mãe dando conselho? [Risos.]

Às vezes, se surpreende e pensa: “Já tenho 80”? 
Penso todos os dias. O tempo todo. Não quero ser jovem e não me acho jovem, claro que não. Mas me sinto como um ser humano ativo. Esta palavra, “velha”, bem, deveriam inventar outra porque ela já vem contaminada de coisas como a decadência, a finitude. Os velhos são produtivos, apesar de terem uma sociedade que só cultua o novo. Existem velhos que produzem e muito. Uma pessoa de 80 anos dizer que se sente jovem é mentira. Se você é velho, você tem menos tempo de vida.

Na peça, há um momento do texto em que Simone de Beauvoir diz que está presa em um corpo velho, mas que, no fundo, é a mesma pessoa. Você sente isso? 
Claro. Você se olha no espelho, você está cheia de rugas, seu cabelo está branco. Dependendo da profissão, você tem que pintar o cabelo – eu não posso fazer muito personagem com cabelo branco. Mas, claro, por dentro sou a mesma pessoa. É isso mesmo que a Simone disse.

Como é o seu dia a dia? Mora sozinha? 
Moro. Até às 7 horas [da noite], um secretário me acompanha. Ele trabalha comigo há 20 anos, mas quando vai embora, fico sozinha.

E você tem gostado de viver sozinha? 
Sabe por que gosto? Porque não saberia viver com outra pessoa que não fosse o meu companheiro que se foi [com a voz embargada]. E não acho legal morar com filho. Ainda mais que, com o tempo, a gente vai criando as nossas manias. Tenho pensado muito nisso.

Em quê? 
Nessas coisas todas. Sempre vivi cercada de pessoas, da minha família. Depois me uni a um homem e passei a viver com ele. Criei meus filhos, foram agrupamentos. Agora, pela primeira vez na minha vida, não estou na minha casa agrupada. E se eu sair da casa onde moro hoje vou morar em um lugar que a minha solidão buscou. Seria o primeiro espaço criado por mim sozinha. Mas estou muito bem na minha casa.

Tem muitas mulheres que renascem quando ficam viúvas e passam a ficar até mais animadas, não é? 
Tem gente que fala: “Estou viúva, agora ninguém manda em mim [risos]. Ninguém vai perguntar aonde eu vou”. Mas você pode ter alguém que pergunte sem cobrança. Pergunta porque quer saber, é seu companheiro, normal. Não pergunta como um policial. Quem se vê uma viúva livre geralmente viveu com homens que eram cães de guarda.

Fazer essa peça, que fala, entre outras coisas, sobre o momento em que Simone ficou viúva de Sartre, ajudou a lidar com o processo de luto?
Essa peça funcionou como uma revisão desses anos todos que vivi. Dessa grande jogada que foi, logo 
depois da Primeira Guerra, a revisão existencial que a filosofia provocou. E depois saiu de moda, porque tudo sai de moda. Mas é impressionante porque os jovens, depois da guerra, achavam que o mundo tinha se acabado, mas que poderiam construir um mundo novo. Mas deu errado. Sem Simone e Sartre, não haveria Maio de 68. Sem eles, não haveria contracultura.

E como você viveu a contracultura? 
Nessa época era uma outra visão da droga, desse “paz e amor”. Isso se transformou nos dias de hoje em uma criminalidade, em uma deterioração trágica. Acabou o paz e amor.

E como a ditadura militar a atingiu? 
Os militares foram ferozes, mas não em cima do comportamental. Algumas pessoas sofreram também pelo comportamento libertário. Mas os que foram mais violentamente abocanhados pelo golpe militar foram os que tinham o verbo, a capacidade intelectual, a voz para pensar diferente do status quo. Todos passaram por um processo. No meu caso, tivemos peças e mais peças proibidas. Fomos ameaçados de bomba em São Paulo. E também de levar tiro no palco. Uma vez estávamos na casa do [diretor de teatro] Celso Nunes e um tiro atravessou a janela. Ele é um grande amigo que nos acolheu em São Paulo. Hoje acho que foi bom estar na casa dele porque senão ia parecer que estávamos inventando para virar os grandes mártires da repressão política [risos].

Você é a favor da legalização do aborto?
Eu não sei te dizer. Tenho a crença de que a vida existe desde o início. Do contrário, ela vai existir porque a ciência decide. Se eles agora estão até tentando destruir a lei da relatividade... Então, acredito que a vida está lá. Como esteve naquela proteína primeira da criação do mundo. A vida vai existir por decreto? Decreta-se se a vida existe depois da sexta semana? Cada país vai decidir quando começa a vida? Me faz pensar, a vida começar por decreto.

"Quem se vê uma viúva livre geralmente viveu com homens que eram cães de guarda"

 

Você tem religião?
Tenho formação católica. Talvez a minha opinião esteja aí nessa primeira formação que os meus antepassados me deram. Mas, claro, durante a vida você vai reavaliando a sua religião e vendo com o que concorda e qual é a medida do pecado e do não pecado. Na infância primeira você vai naquele misticismo todo, acredita em um Deus com barba branca, sentado com um camisolão. Depois você muda. Mas alguns pontos são fantásticos. “Não matarás.” “Amar ao outro como a si mesmo.” Isso é maravilhoso, é lindo. Você pode se amar, desde que você ame ao outro na mesma medida.

O que acha de ser chamada de “a grande dama do teatro”? 
Acho uma merda. Uma merda. E sempre me perguntam isso. E eu sempre dou a mesma resposta. Mas não consigo me livrar disso. Acho ridículo. É como se me tirassem de uma pessoa e me transformassem em uma personagem. Isso é uma bobagem imensa.

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