por Joice Berth

Joice Berth, pesquisadora do feminismo negro, questões raciais e direito à cidade, escreve sobre o livro ”O que é lugar de fala?”, de Djamila Ribeiro

"O falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. Pensamos lugar de fala como refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social" - Djamila Ribeiro, em O que é lugar de fala

A internet é uma revolução nos meios de comunicação e no modo como a sociedade se enxerga e se relaciona. Dentro desse universo, o diálogo que se abriu nas redes sociais popularizou pautas importantes e levou a lugares onde jamais estiveram, pois eram restritas a determinados meios intelectuais elitizados que controlavam o potencial transformador que a informação carrega. Isso é histórico, a hierarquização de pessoas em uma sociedade passa pela sanha de afunilar acessos e selecionar quem vai receber a informação, com o comprometimento de usá-la de maneira que mantenha as estruturas sociais excludentes e opressoras.

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A web destampou essa “panela”. Mesmo que ainda não tenha garantido o acesso para a totalidade da população, garantiu, pelo menos, a exposição dessas pautas convenientemente esquecidas pela sociedade.

A parte boa é que a pluralidade de vozes eliminou de maneira contundente a história única da qual Chimamanda Ngozie Adichie muito bem adverte como prática de permanência e propagação de estereótipos.

A parte ruim é que a velocidade com que as informações são expostas dificulta o aprofundamento necessário para entender conceitos complexos e, a seriedade das discussões esbarra na superficialidade inerente ao virtual, já que tudo é muito rápido, múltiplo e facilmente distorcido.

Dessa percepção nasceu a necessidade de explicações didáticas que instrumentalizem quem já entendeu que o momento atual pede diálogo embasado, pois as velhas estruturas dão sinais irreversíveis de desgastes e precisam do ciclo bem aplicado de desconstrução de padrões sociais arcaicos e a reconstrução sobre bases mais justas, igualitárias e diversas.

“Não podemos mais seguir de braços cruzados enquanto muitas pessoas são afetadas diretamente pela discriminação racial”

A Coleção Feminismos Plurais, oportunamente inaugurada com o volume O que é lugar de fala, de autoria da organizadora do projeto, a Mestre em Filosofia Política e voz das mais assertivas e confiáveis dessa geração de intelectuais negras ativistas, Djamila Ribeiro, cai como uma luva ao elucidar um conceito tão importante quanto distorcido, uma vez que confronta a hegemonia discursiva, pautando a (re)ordenação histórica das narrativas a partir do locus social como elemento fundamental de veracidade dos problemas e existências, que antes eram contadas apenas pela ótica do elemento causante e mantenedor das desigualdades que precisamos erradicar: o topo da pirâmide social ou a pessoa branca (em especial o homem) cis heteronormativo e elitizado.

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista”

Ao traçar um mergulho pelo pensamento indispensável de intelectuais negras e/ou negligenciadas que estiveram do lado de fora do grupo intelectual dominante, Djamila Ribeiro costura seu brilhante raciocínio na potencialização e renovação dessas vozes, com os devidos ajustes cronológicos, mas, sem perder a essência das reflexões que são extremamente valiosas porque são também fomentadas pela precisão que só o empírico pode somar ao intelecto.

Créditos

Imagem principal: Gabo Morales/TRËMA

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