por Redação
Tpm #128

Três mulheres contam como foi ficar nua na frente de um homem pela primeira vez

Aos poucos

Por Ivana Arruda Leite

A gente não fica nua de uma vez na frente de um homem. Pelo menos eu não fiquei. A coisa foi acontecendo aos poucos. Aos 8 anos, um primo pediu para eu tirar a calcinha pra ele ver minha “xexeca”. “Só se você me emprestar sua caixa de lápis de cor”, respondi, farejando ali uma rara oportunidade de botar as mãos naquela caixa com mais de cem lápis que o pai dele tinha trazido dos EUA. Só de cinza, devia ter uns 50 tons. Saímos os dois contentes com a negociação. Eu me diverti com centenas de lápis e ele, com um só. Mas éramos duas crianças. Anos mais tarde mostrei os seios pela primeira vez para um cara. O mesmo que me deu o primeiro beijo de língua. Os seios eram pequeninos e gorduchos, como ditava a moda do verão de 70, e foram aprovadíssimos. Ele ainda teve a delicadeza de dizer que minhas pintas pareciam um colar de estrelas no meu peito. Mas este também não seguiu adiante. O umbigo era o limite. Quem me viu nua por inteiro pela primeira vez foi meu noivo, que me amava e me achou linda de morrer. Mas também não teve sexo.

As mocinhas católicas daquela época (entre as quais eu me incluía) podiam se exibir nuas e brincar à vontade no banco traseiro dos carros nas quebradas do Ibirapuera ou no escurinho de um drive-in, mas transar pra valer só depois do casamento. Casei virgem com o homem que me viu nua pela primeira vez. Ele era lindo de morrer e fazia eu me sentir uma mulher que o merecia. Como sempre me senti muito feia, minha experiência com a nudez só me deu alegrias. Eu era muito mais bonita sem roupa do que com ela (segredo revelado a não tão poucos assim). Claro que hoje o postulado caducou. Aos 61 anos ninguém me emprestaria uma supercaixa de lápis de cor para me ver pelada. Em compensação, já não me sinto tão feia quando estou vestida. 

Relação conturbada

Por Maria Ribeiro

Tinha 17 anos e 9 meses, e não 18, como diziam minhas amigas. Já estava na faculdade, havia lido Dom Casmurro e fazia teatro com garotas hippies que se cumprimentavam com beijo na boca e não depilavam embaixo do braço. Tudo em mim recusava a adolescência, e o fato de nunca ter ficado nua diante de um homem nu era um dado trágico e humilhante da minha curta biografia naquele ano de 1993.

Era preciso acabar logo com isso, mais ou menos como faço hoje com as festas de fim de ano. Sem romance ou delongas. Um problema a ser resolvido, como consertar os dentes ou aprender inglês.

Mas o destino surpreende numa terça- feira às duas da tarde, e uma carona com o irmão de uma amiga jogou por terra meu projeto frio e calculista de início de vida sexual. E assim, apaixonada por um rapaz comunista que dirigia um Lada vermelho, minha história ficou comum que só: namoramos, fomos felizes, sofremos depois. Mas a questão da virgindade – não sei por que implico com essa palavra, talvez por conta da pobre menina do leilão – estava resolvida, e da forma mais bonita que há. Dei com amor.

Acontece que, em meio à poesia que as paixões proporcionam ao mais vil dos homens, há os detalhes técnicos. E, embora o primeiro namoro seja Carnaval na Bahia, ficar pelada nunca foi o meu forte.

A puberdade me transformou de garota magrela em adolescente roliça em três piscadas, sem dar chance ao meu pobre cérebro pacmaníaco de absorver tamanha revolução. E assim, usando sutiãs 46 e ainda brincando com o salão da Barbie, passei quatro verões em casa rezando pra ninguém comemorar aniversário na piscina do clube.

Meu calvário durou até os 16 anos, quando descobri que cirurgia plástica não beneficiava somente mulheres candidatas a sapo, mas também mudava a vida de quem esconde uma orelha de abano, um peito desproporcional, uma cicatriz no rosto. A faca me deixou em paz pra ir à praia e namorar, usar regata e jogar vôlei, e até pra gostar de alguém...

Mas a verdade é que mesmo hoje, 20 anos depois, ainda convivo com uma curiosa e incômoda consciência do meu corpo nu. Na praia, na hora do parto, atuando e até no chuveiro: sou um ser que encontrou a plenitude na calça jeans. Mesmo quando fiz fotos pra Trip – e as fiz por prazer, além de me vingar de todos os garotos que me desprezavam no ensino médio – havia uma ansiedade remanescente do começo da minha feminilidade que talvez não vá embora nunca.

Mas que pode ser amaciada com a luz e os drinques certos, alguma terapia e, principalmente, com a intimidade. Com alguém que saiba que dentro de uma mulher de 37 pode morar uma insegura garota de 15, e que isso nao é mau, porque há um desconforto que pode ser bonito e te acompanhar.

E viva Carolina Dieckmann, que, mesmo sem querer, ficou pelada de graça e por amor. Sua nudez foi quase cristã: deu um baile na Playboy, fez a festa do Brasil inteiro e mostrou o casamento infalível da bunda com a cara de sono.

Eu me apaixonei.

Noite de estreia

Por Luciana Pessanha

Eu já tinha feito muitas coisas, mas nuinha em pelo, na frente de um cara, nunca tinha ficado. Ele era mais velho, um gênio e meu professor de teatro. Um Homem. Nos meus sonhos, para que prestasse atenção em mim, precisava sobrar só nós dois no ensaio, cair um temporal épico, um blecaute...

Mas foi bem mais fácil. Ou não.

Fui fazer uma peça infantil. Meu papel era de uma vitamina, com figurino de rumbeira amarelo. Um belo dia, quase enfartei ao vê-lo na terceira fila. No camarim, me convidou pra ver a peça dele, naquela noite.

Junto com o ingresso, recebi um bilhete, em que ele dizia que faria o espetáculo pra mim. E fez mesmo, olhando nos meus olhos. Então, quando me chamou pra ir à casa dele, respondi, bem Mulherão: “Sim”.

Li num livro oriental que, quando uma mulher se despe para um homem, deve ter a consciência de que existe uma deusa dentro dela. Despir-se para alguém é o oposto da banalidade. Ou deveria ser. Menina que era, pouco letrada e metida a descolada, fiquei como pagãzinha mesmo, e não lembro se fui eu ou ele quem tirou a minha roupa. Os fatos que se seguiram foram tão mais dramáticos que me fizeram esquecer de todo o resto.

O Homem estava lá, como nos meus sonhos, e eu bancando o Mulherão. Só que não havia jeito de ele conseguir entrar em mim.

– Você tá nervosa? – perguntou.

– Não – respondi, tentando sustentar o Mulherão. Até que, de tanta dor, tive que pedir a ele para parar.

– Mas por quê?

– Porque eu sou virgem.

– O quê??? – ele deu um pulo – Como você não me avisa uma coisa dessas???

– Porque isso é problema meu.

Na semana seguinte, na noite de Anonovo, lá estava eu, numa casa de praia, nua, diante dele. Dessa vez, consciente do que estava acontecendo, o Homem preparou tudo com pompa, circunstância e a delicadeza que o momento pedia.

Anos depois, descobri que tinha protagonizado uma espécie de Beleza roubada tupiniquim. Como no filme de Bertolucci,
todos os hóspedes da casa sabiam o que estava para acontecer. O nosso roteiro só era um pouco mais intrincado, já que, de certo modo, eu também estava tirando a virgindade dele.

Antes de mim, o Homem tinha sido apaixonado por um cara bem mais velho, sofrido feito um cachorro e decretado o fim da sua vida sexual. A volta ao reino dos vivos, depois de longo recolhimento, estava sendo comigo.

A coragem de se despir do personagem e me contar o quanto aquele momento significava pra ele, o meu primeiro Homem não teve. Talvez por achar que não fosse problema meu. Ou por acreditar que uma première era mais importante do que uma reestreia. Virou todos os holofotes pra mim, contente em ser autor de uma cena inesquecível.

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