Eu moro em uma ONG
As pessoas me perguntam como a Graziela, que tem só 4 aninhos, reage a todas essas informações. Ela reage do jeito mais bonito de todos, com compaixão.
“Mummy Lea” com Madre Teresa
Por Elka Andrello
em 19 de julho de 2010
Procurar um lugar para morar é sempre exaustivo. Imagine achar um ap para morar num lugar onde você mal consegue se comunicar com as pessoas com uma pequerrucha de 4 anos a tiracolo! Para deixar a tarefa ainda mais agradável, procurar uma casa em Kathmandu no Nepal, onde a coleta de lixo é precária, as ruas não tem nomes, são mais ou menos asfaltadas, sem calçada, as motos circulam em trilhas apertadas junto com pessoas e vacas, e todo mundo gospe muito e assoa o nariz no chão. Drama!! No meio desse caos, eu consegui achar uma guesthouse que a minha amiga Ju indicou. Uma fofura, com jardim, visinhos gringos estudantes de shedras que ouvem jazz e tomam vinho, e vista para o Shechen Monastery, monastério fundado pelo super mestre budista Dilgo Khyentse Rinpoche. E o mais legal, a guesthouse pertence a ONG Rokpa e todo o dinheiro arrecadado vai para um orfanato em Kathmandu. Tem um gostinho especial pagar um aluguel que vai para ex- crianças de rua.

A Rokpa foi fundada há 25 anos pelo lama e médico de medicina tibetana Dr. Akong Tulku Rinpoche, e pela suíça Lea Wyler. Dr. Akong Rinpoche é um dos muitos refugiados do Tibete durante a horrível e violenta invasão chinesa em 1959. A fuga dele foi trágica, começou com um grupo de 300 tibetanos que após passarem por terríveis dificuldades terminou na Índia com apenas 13 sobreviventes!!! Rinpoche fez o voto de ajudar pessoas que vivem em condições de dificuldades extremas como: fome, doença, medo e angústia mental. Junto ao polêmico Chögyam Trungpa Rinpoche, famoso por ser apreciador de bebidas e mulheres e lógico um grande mestre budista, criou a primeira escola de budismo tibetano do ocidente, na Escócia em 1967. Entre seus vários projetos sociais, Dr. Akong Rinpoche criou um método de psicoterapia, a Tara Rokpa Therapy, baseado nos ensinamentos budistas com foco nas dificuldades psicológicas dos ocidentais, cá para nós, beeem diferentes dos dramas orientais. E eu hoje sou visinha do Dr. Akong Rinpoche, onde estou sentada escrevendo esse texto, fica a porta de comunicação para a casa dele que não tem tranca.

A Lea Wyler também tem uma história bem bacana. Ela é filha do Felix Salton, o autor do Bambi, nasceu em Zurique onde foi uma atriz bem famosa. Largou os palcos para cuidar da mãe doente terminal, entrou em crise e veio para a Índia e Nepal onde fez uma peregrinação com o Dr. Akong Rinpoche. Daí surgiu a ONG Rokpa que luta contra a fome e pobreza das crianças. Ela é conhecida por aqui como “Mummy Lea”. Junto com o Rinpoche, está envolvida em mais de 120 projetos na Ásia, Europa e Africa. O que eu acho bem legal da proposta da Rokpa é que eles escolheram ajudar menos pessoas mas são comprometidos em ajudar a longo prazo, durante todo o desenvolvimento da criança até virar um adulto capaz de se cuidar sozinho e com a consciência de ajudar os outros. Como bem disse o Rinpoche: “A Rokpa tem uma ação neutra, tentamos ser éticos e dar ouvidos às pessoas, é mais eficiente deixar as pessoas nos dizerem o que elas precisam. Juntos nós podemos fazer o nosso melhor para reduzir o sofrimento. É assim que damos às nossas vidas um significado mais profundo.”

Essas são algumas histórias contadas pelas crianças Rokpa. Eu que tenho uma filha de 4 anos, acho incrível ver como seres tão pequenininhos e indefesos conseguem sobreviver a tantas dificuldades.



As pessoas me perguntam como a Graziela, que tem só 4 aninhos, reage a todas essas informações. Ela reage do jeito mais bonito de todos, com compaixão. E eu dou ainda mais valor a vida e a filha que eu tenho.



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