Logo Trip

Eu adoro ficar menstruada!

Mara Gabrilli em carta aberta para uma amiga revela sua fascinação por essa feminilidade

Eu adoro ficar menstruada!

em 12 de maio de 2001

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Querida Ana Paula*,
   
Quando o Fred me procurou pedindo que eu colaborasse escrevendo para a Tpm, eu já sabia que havia o seu toque sugestivo. Você sempre gostou do que escrevo. Fiquei muito preocupada por não saber como iria fazer isso. Os meus textos sofreram grandes alterações na passagem da escrita à mão para a máquina até o computador. Minha mão escrevia na velocidade dos meus pensamentos. Como eu não era rápida para digitar, os textos foram se incrementando de boa forma – e de censura também. Depois que sofri o acidente e perdi os movimentos dos braços, comecei a digitar com a boca por meio de uma vareta. A dificuldade e a lentidão derrubaram a beleza estética dos escritos e ainda tolheram minha liberdade de explodir no papel. Ana Paula, meus textos ficaram medíocres e não gostei disso. Fui parando de escrever. Tentei ditar para alguém e piorou: mais gente proibindo. Perdi o tesão de escrever.

O convite do Fred deixou minha criatividade cheia de ruídos…O nome da revista já havia tocado fundo, travando um compromisso nas minhas entranhas. Fiquei me sentindo obrigada a achar um jeito de me deleitar em alguma página desta Tpm, revelando meu poderoso segredo visceral:

 

EU ADORO FICAR MENSTRUADA!

Desde menina me fascina a feminilidade de sentir meus seios intumescidos, doloridos! A anunciação “daqueles dias” vem vermelha, vibrante, com uma vulnerabilidade tão castigante que me apaixono até por personagens encontrados na minha memória remota.

Gosto de sentir o sangue escorrer quente nas coxas. Fico tomada de desejo, com um tesão incontrolável e uma estranha tristeza que sorri. Nunca pude ter um namorado que não gostasse do meu sangue… Eu viro um bicho, de lábios mais carnudos, pele quente e arrepiada.

“Ficar de Chico” é encanar que está todo mundo olhando sua calça que manchou.

A primeira promessa que fiz a Deus foi pedir a menstruação. Fiquei um ano sem tomar sorvete! Na verdade, pedi peitos e bunda. E Ele me deu tudo isso e ainda um ciclo de 22 dias que não desregulou nem quando quebrei o pescoço. Foi um presente de mulher que nunca me deixou. Porém, como todo sujeito apaixonado sofre de inquietação, eu me sinto levada pelo medo de um perigo, talvez uma queda, ou o frio de uma perda, reflexo do desprendimento da parede do útero, que faz sangrar e dói… Dói na existência e na barriga. A cólica é a dor de ser mulher!

Às vezes sangro e me sinto um “algo” do além usando a vestimenta de carne, perambulando desvairada e sem porquê numa Terra para outros. Mas tem períodos que nada sou senão matéria mesquinha e errante no cativeiro da generosidade. Como se eu fosse uma mulher que veio ao mundo de corpo e alma – mas sem a alma. E isso nada tem de profundo; é o mesmo que ir a uma boutique fazer compras e ficar tão ensimesmada a ponto de esquecer a alma no provador. Nunca gostei de roupas vermelhas, mas quando começo a pensar em calcinha vermelha, t-shirt, tênis, comer morango, gelatina de frutas selvagens e chiclete de canela, sei que o sangue está por vir. Em certa ocasião que estava bem afetada, comprei uma jaquetinha de couro vermelha. Não posso nem olhar aquilo no armário, pois é horrível. Mas, quando estou completamente louca, é nela que me envolvo.

Ficar menstruada é não estar bem. E quanto a isso, tudo bem! Essa frase é o maior viver “apesar de” que temos, e quase a maior força de felicidade disponível. Digo “quase”, pois nada na mulher é maior do que a força da concepção e dos afetos derivados.

TPM para mim é mistério e paradoxo… é desconhecer o conteúdo emocional do próximo mês. Isso é muito atraente, assim como a dimensão que o amor, a aflição, o medo e a coragem assumem nos diferentes momentos do ciclo da mulher. Eu me sinto transfigurar diante do espelho e da vida… TPM é o enigma de acordar com ou sem barriga, emergindo do inferno de Dante ou descendo das regiões do éter!

Mulheres, o belo da TPM está na qualidade da nossa impressão, nos dando a coragem ou não de raciocinar fora daquilo que há milênios rege nossa jornada coletiva.

Ana Paula, queria te contar que escrevi essa revelação pessoal com um dedo e uma pessoa levando o meu braço às teclas. Diferentemente do que eu afirmara acima, não senti nenhuma censura, e ainda fiz questão de escrever durante a minha própria TPM. Espero que goste!

Com carinho,
Mara Gabrilli


* é diretora de projetos especiais da Editora Trip; Fred Melo Paiva foi diretor de redação da Tpm. 

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon