por Juliana Vilas
Tpm #158

Miá Mello chegou sem querer na dramaturgia. Em 12 anos passou de publicitária que fazia aula de teatro a atriz queridinha de grandes comédias nacionais

Cinema Paradiso. Foi esse, um clássico da metalinguagem dirigido pelo italiano Giuseppe Tornatore e lançado em 1988, que acendeu a chama. “Lembro muito desse dia. Fomos todos ao cinema: eu, minhas irmãs e meus pais. A gente se emocionou muito. Minha mãe até vomitou de tanto chorar. Essa foi a primeira vez que o cinema me despertou algo especial”, diz a atriz Miá Mello. Mas ganhar as telas não estava nem minimamente nos planos. Ela se formou em publicidade e começou a trabalhar em agências. Aos 22 anos, era feliz, mas descobriu que poderia ser bem mais quando começou um curso de teatro. Não era plano B, e ela confessa que nem era um sonho de infância. Era só um hobby para desopilar da rotina agitada. Em seu sonho mais distante não se imaginava protagonista de Meu passado me condena – só o primeiro filme arrecadou quase R$ 35 milhões e ficou em segundo lugar na lista dos brasileiros mais assistidos de 2013. E a saga ainda engloba um segundo filme, uma peça e um seriado. Tudo em parceria com o ator Fábio Porchat. Há 12 anos, quando entrou descompromissada no teatro, Miá era apenas a típica caçula de uma família de classe média paulistana.

Nasceu Marília, mas virou Miá poucas horas depois. Quando chegou da maternidade, a irmã Alessandra, que a esperava em casa, alardeou: “Miá chegou!”. E o apelido vingou. Viveu parte da infância na Aclimação, parte na Saúde, e depois a família mudou para o Morumbi. Até a adolescência, passava o verão na Praia Grande, litoral sul. Mais velha, virou rata de praia em Camburi, no litoral norte de São Paulo. Usava Pakalolo nos anos 90. Quando fala da família ou lembra da infância, escancara orgulho, satisfação e saudades. “Ter uma família legal é muita sorte. Meus pais são meus pilares. Ela é socióloga, zen, ayurveda, linda, ele é zero machista, determinado, ousado. Minhas irmãs são incríveis, somos bem amigas. Pena que não moramos mais na mesma cidade. Sinto muita falta.”

Há cerca de dois anos, Miá mudou-se de São Paulo para o Rio. Os pais, que hoje moram na Bahia, fazem questão de ir às pré-estreias da filha. E choram de emoção. “Na estreia de Meu passado… 1, eu não vi nada do filme, só chorei de emoção o tempo todo. Depois, revi outras 26 vezes!”, conta Marcileni Penariol Melo, 63, a mãe, rindo sempre e denunciando a origem do estilo animadíssimo de Miá. A tecnologia ajuda a amenizar a distância. A mãe agora tem WhatsApp. “Mas eu disse: só não chama de zapzap, nunca, você está proibida”, decretou a superconectada Miá, que parece desligar o celular somente durante as gravações.

Heavy user assumida, admite sentir cul-pa quando a filha chama sua atenção por estar morando no smartphone. “Fico meio mal porque ela não pode usar, então fica chateada, reclama. Não sou mãe culpada, mas nisso queria melhorar.” Nina tem 6 anos e é filha do primeiro casamento de Miá, que durou cinco anos. O excesso de cautela do ex-marido em relação à internet, quem sabe, tenha deixado Miá mais cuidadosa quando se trata de tecnologia e privacidade. “O pai da Nina não posta nada sobre ela, nem deixa a gente postar, ele nem tem perfil nas redes. Tem a ver com a profissão, ele não pode se expor por segurança”, explica Miá. O ex é jornalista investigativo. Apesar do tempo que passa no celular, Miá nunca teve Tinder, nem curte sexting. Isso porque, no quesito privacidade na tecnologia (e só nele), o atual marido pensa quase do mesmo modo que o ex.

“Até poderia trocar sacanagens pela internet e tal, teria cuidado para não vazar... Mas nunca rolou, sei lá. Nunca pintou clima, nem deu vontade. Converso muuuuito, mas são ideias, histórias, reflexões.” Logo que se envolveu com o atual 
marido – Lucas Melo, 28, diretor de TV –, Miá viajou pela América Latina e ficou um mês longe. Como ainda não tinham transado, a conversa constante via Skype e WhatsApp enveredou por outros caminhos, digamos, pré-eróticos. Mas a coisa só pegou fogo quando ela voltou. “Na boa, tem que ser ao vivo, vai?”

Copo meio cheio

Miá é daquelas que não economiza sorriso, e faz questão de levar a vida com leveza e otimismo, mesmo quando parece impossível. A personagem Alegria, que ela dublou na versão brasileira do longa de animação Divertidamente, não poderia ser mais adequada. Mas todos os dias? Não é possível. Onde estão os fatos menos sorridentes? Lucas, o marido, tenta explicar. “Ela usa o bom humor para tudo, não tem tempo ruim. Parece que tem, sei lá, uma luz que a acompanha. Sempre de bom astral, fala com todo mundo na rua. Miá tem uma genialidade social”, derrete-se. Seu parceiro de cena, Fábio Porchat, reforça essa imagem alto-astral: “No fim de toda peça, quando a cortina fecha, nos abraçamos sorrindo e felizes por estarmos ali”, diz. Pra ele as características mais marcantes da colega são “o fato de ela estar sempre de bem com a vida e como consegue ser uma supermãe”.

Esse jeito de levar a vida, aparentemente, é de família. Enquanto a mãe dava entrevista para a Tpm por telefone, o pai e a irmã Alessandra, ao lado, participaram da conversa, lembrando de fatos engraçados da história de Miá. Só coisa boa. Só gargalhada. Fica claro: a aparente estabilidade e o peculiar alto-astral da família justificam a good vibe do planeta Miá. Nas palavras dela mesma: “Sou aquela do copo meio cheio, sabe? Não costumo julgar ninguém, e tento não ter culpa cristã”. Há uma certa facilidade em esquecer eventos ruins e fatos negativos que, entretanto, beira o exagero, segundo ela. “Muitas vezes deleto de tal forma que acabo perdendo algum recado, uma lição importante que aquilo poderia me ensinar. E, se bobear, anulo tanto as memórias doloridas que corro o risco de cometer o mesmo erro depois.”

Mas alguma coisa há de tirar essa mulher do sério. Sim, e a lista começa com gente que não se responsabiliza nem se compromete o suficiente. “Esses tipos que não peitam as próprias decisões e sempre acham um porém, uma justificativa externa para lamentar o que não saiu como planejado. Não sei lidar com pessoas assim, é um terror.” Em segundo lugar está o velho fiu-fiu. “Nossa, me deixa louca, já voltei várias vezes para tirar satisfação. Só que você pede para repetir e eles abaixam o olhar. Covardes. E aí tem aquele povo que sugere: ‘ah, vá, que mulher não gosta?’, ou ‘mas quem sai com um short desse quer ser paquerada’. Gente, as mulheres odeiam isso, não é óbvio? Isso não é paquera, é agressão. Parem”, protesta. E o terceiro item que tira o sorriso do rosto de Miá é a famosa conversa de taxista. “Não tenho mais paciência para papo muito conservador.”

''gente, as mulheres odeiam fiu-fiu, não é óbvio? isso não é paquera, é agressão. me deixa louca''

Miá se considera feminista. Sonha com a igualdade entre os gêneros, mas sabe que ainda estamos longe de decretar o fim da luta. Considera o Tinder um avanço cultural, algo que oferece uma perspectiva nova às mulheres: a permissão de admitir, sem culpa e sem ser chamada de “piranha”, que só está interessada em sexo e nada mais. E critica o Legislativo, onde as questões de liberdade caminham a passos curtos. “O aborto é uma das questões mais urgentes hoje. Estamos falando de liberdade, é bem sério. Como ainda é ilegal? Ah, então, em nome da fé e de dogmas, mulheres morrem? As religiões não têm nada a ver com isso, são escolhas com as quais nós devemos arcar.” O pai, Odilon Melo, 74, conta como era em casa. “Sempre fui liberal, nunca falei de culpa, pecado, nem menti: sexo é bom, deixa a gente mais bonito. Aí aproveitava para falar sobre critérios e responsabilidades. Não é porque faz bem à saúde que vai sair transando de qualquer jeito também, né? E acho que minhas três filhas são bem resolvidas com isso”, avalia.

Sagrada tolerância

Casadeira, Miá garante que, agora, finalmente encontrou “o homem da vida toda”. É… Finalmente porque, sim, a atriz achou que o primeiro casamento duraria até a morte. Mas você acredita mesmo no “juntos para sempre”? “Não sei, mas queria que fosse. A separação foi complicada, dolorida. Achei que nunca mais ia beijar na boca. Como paquerar com filha pequena? Mas de repente reparei melhor no Lucas, com quem já tinha trabalhado sem nenhuma palpitação, e ele brilhou.” Miá é só elogios ao companheiro. “Foi tudo bem gradual. Namoramos um tempo em São Paulo. Depois mudamos para o Rio, em casas separadas, e só neste ano passamos a morar juntos, então não tivemos choques”, lembra ele. Na área de talentos domésticos, Miá conta que acaba de superar um velho desafio: cozinhar. “Não sabia nem fritar ovo. Mas o “Superchef” [quadro do programa da Ana Maria Braga, na TV Globo] foi um divisor de águas, agora faço até massa em casa. Não é tão difícil, acredita?”, comemora. Recentemente fez um superjantar para uma amiga, com polvo à galega de prato principal e suflê de goiaba na sobremesa.

Quando não está em frente às câmeras, entretanto, Miá vê séries. Adorou Narcos, sobre o traficante colombiano Pablo Escobar. “Tenho ódio de quem fala mal do sotaque de Wagner Moura na série! Penso: pô, o cara não falava nada de espanhol, se matricula numa faculdade da Colômbia, aprende, faz cenas de altíssimo teor dramático e aí vem o puto sentadão no sofá, que fala espanhol intermediário de currículo e reclama? Não, né?”, dispara a atriz. No vácuo da série, Miá emendou a leitura do livro Pablo Escobar, meu pai – As histórias que não deveríamos saber, escrito pelo filho dele, Juan Pablito — que hoje assina Sebastian Marroquín. “Percebo que discutir a questão das drogas sem miopia e falar sobre descriminalização acabaria com esse círculo criminoso. Não sei se liberar todas seria bom, mas a maconha demorou, né? Está tão óbvio que essa questão não é de saúde, é de política.”

''Percebo que discutir a questão das drogas sem miopia e falar sobre descriminalização acabaria com esse círculo criminoso''

Se para muita gente 2015 virou sinônimo de crise, para Miá não tem nada disso. Este parece ser o ano dela. Desfruta de uma fase ímpar da carreira, cheia de propostas, convites e projetos. Em outubro, começa a gravar o longa Um namorado pra minha mulher, com Ingrid Guimarães. Dois outros filmes estão prestes a sair do forno, provavelmente no primeiro semestre de 2016: Amor em Sampa, em que Miá canta, dança e representa, e Depois de você, do diretor Marcus Ligock.

Miá se enrola com datas, planilhas de Excel e administração das finanças, que agora andam mais generosas do que nunca. A irmã do meio, que fez administração, é quem cuida da vida financeira da atriz. “É a pessoa em quem mais confio. E ela é muito competente, sempre foi. E ainda era atleta, competiu muito, então tem essa coisa da disciplina rígida; é ótima a nossa parceria.” Além de bancos, Miá também evita a academia. “Faço treinamento funcional, dei uma parada agora mas vou voltar”, promete. Para desestressar, reserva alguns momentos sagrados, em que ouve música e medita enquanto faz alguma coisa trivial, como desarrumar as malas. Gosta de jazz, soul, pop, MPB e até cantava num grupo de rap há alguns anos. Só não curte rock. “Pronto, falei. Podem me julgar. As pessoas acham heresia dizer isso”, comenta às gargalhadas. Vasculhando no Spotify, ela mostra a playlist do momento. Two Door Cinema Club e Beirut. Indie. Rock, Miá. “Rock? Não, indie é rock? Não! Ok, então gosto”, rende-se, rindo muito.

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