O prazer pela maconha

por Manuela Aquino

A sexóloga Ashley Manta ensina, por meio de workshops, como a Cannabis pode ajudar a aumentar o tesão e facilitar o orgasmo

Quando falamos de sexo e Cannabis —  sim, as duas coisas juntas —, Ashley Manta, 34 anos, é uma voz a ser ouvida. Formada em filosofia e com experiência de 12 anos no tema, a sexóloga americana criou, em 2014, o CannaSexual, projeto em que ensina, por meio de workshops, diversos usos da maconha para aumentar o prazer sexual. Segundo Ashley, suas oficinas não são sobre “ficar doida e se jogar na cama”, mas conhecer o próprio corpo e novas descobertas no campo da sexualidade. 

Embora a americana aborde o tema com leveza, ela própria tem uma história carregada de traumas: foi vítima de abuso sexual e estupro. Ahsley, que viveu os episódios em diferentes épocas, sofreu estresse pós-traumático mais velha, o que refletiu em suas relações sexuais —  ela não conseguia mais sentir prazer, apenas dor.

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Ao se mudar para a Califórnia, cansada dos tratamentos tradicionais, teve acesso ao uso medicinal da cannabis, o que foi um marco na vida dela. Descobriu também óleos e bombas de banho que relaxam antes e durante a transa, e decidiu pesquisar o tema mais a fundo. À Tpm, Ashley, que já palestrou em eventos no South by Southwest e participa das principais feiras de cannabis medicinal, fala mais sobre o projeto:

Tpm. Como você descobriu que cannabis e sexo rendiam uma boa combinação?
Ashley Manta. Quando me mudei da Pensilvânia para a Califórnia, em 2013, e tive acesso à maconha para uso medicinal. Comecei, então, a perceber que havia um grande potencial na erva para ajudar as pessoas sexualmente. A Cannabis me auxiliou com minhas próprias questões e, quando comecei a estudar e a compartilhar minhas vivências, descobri que muitas pessoas tiveram experiências semelhantes às minhas.

Você foi vítima de violência sexual e, hoje, diz que a maconha te trouxe felicidade no sexo. Como foi essa mudança? Sou uma sobrevivente de múltiplos traumas sexuais: na infância, na adolescência e na faculdade. Não gosto de dar detalhes, mas fui abusada quando pequena e estuprada quando mais velha. Depois disso, fui diagnosticada com estresse pós-traumático. Comecei, então, a ter dor durante a penetração, não conseguia relaxar. Experimentei pomadas anestésicas indicadas pelo ginecologista, mas não funcionou para mim. Então, fui buscar alternativas por conta própria. Passei a usar um óleo sexual com THC para penetração, que me tirou o desconforto. A cannabis medicinal me permitiu gerenciar sintomas como dor e ansiedade.  

Quais foram suas descobertas mais interessantes? Foi um processo que começou com o uso de óleos e bombas de banho [esferas efervescentes] de cannabis. A massagem com o óleo na vulva proporciona um relaxamento para a penetração. O banho também ajuda a relaxar o corpo todo. Isso me ajudou a não sentir mais dor durante o sexo. Conhecer meu namorado também foi fundamental, faz toda diferença estar com uma pessoa que me respeita, me dá autoconfiança e amor. No começo, quando eu tinha dor, ele parava na hora, e conversávamos muito, sempre. Então, é um conjunto de fatores. Mas, para quem sente dor quando transa, peço para que se trate com algum profissional da saúde, seja ginecologista ou psicólogo. Cannabis é uma ferramenta que ajuda no processo, não a solução para a dor no sexo, por exemplo. Também é importante dizer que não se trata de fumar e pular na cama e, sim, sentir como a maconha pode te ajudar, entender seus efeitos e escolher o melhor jeito de usá-la.

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Como surgiu o CannaSexual? Comecei a dar palestras e oficinas relacionadas a sexo, primeiro para prevenção da violência sexual, em seguida, para a confiança corporal. Sempre abordei assuntos como autoconhecimento, masturbação, uso de lubrificantes, sex toys e dirty talk. Em 2014, passei a falar sobre minha experiência de maconha e sexo com mais prazer e surgiu o projeto. Nos workshops que dou para mulheres e homens, começo sempre com uma introdução à anatomia, baseada no prazer, e dou uma visão geral sobre comunicação na cama e consentimento. Depois, falo da cannabis, métodos de consumo e melhores práticas. Essas oficinas são presenciais, mas também dou o treinamento via Skype, em inglês, para casais ou individualmente.

Qual é a diferença entre o sexo com e sem cannabis? Varia de pessoa para pessoa, e também depende de como a maconha é consumida, o quanto, qual tipo. Em termos gerais, estudos têm sugerido que o uso de cannabis pode levar a maior excitação, possibilidade maior de orgasmo, aumento da lubrificação, redução de dor e de ansiedade. Na minha experiência, a cannabis aumenta as sensações que te levam ao orgasmo, te deixa mais conectada ao parceiro. É como se o caminho para o orgasmo se tornasse mais acessível. 

Na sua opinião, além da cannabis, o que pode ajudar nessa busca pelo prazer, já que nem todo mundo curte fumar maconha ou pode não se interessar pelos produtos? A cannabis é apenas uma ferramenta em uma caixa enorme, que guarda muitas formas de prazer. Todas nós precisamos conhecer nossos próprios corpos, sermos capazes de dizer o que queremos e defendermos nossas necessidades, independentemente de consumir maconha ou usar os produtos. Masturbação, por exemplo, é crucial para saber como você sente prazer e poder falar isso para o seu parceiro. Brinquedos sexuais também são legais. Sempre uso vibrador para me masturbar. Tem quem goste de dildos, grampos nos mamilos, plugs anais... Encorajo as pessoas a explorarem, experimentarem e descobrirem o que tem mais a ver com elas.

 

Créditos

Imagem principal: Heitor Loureiro

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