Maria Casadevall, uma mulher (para sempre) em construção
Ela fala pelos cotovelos e gesticula cada frase. Não há assunto proibido nem olhar preocupado no relógio
Créditos: Mariana Maltoni
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São Paulo. Tenho uma relação de cumplicidade com a cidade, mais com o centro, na verdade. Todas as minhas raízes estão no centro, e o caminho que fui tomando também [ela nasceu e cresceu na rua Maria Antônia]. Descobri o teatro na Roosevelt, o cinema na Augusta. São Paulo te aceita melhor, aceita o que é estranho. Existe entre mim e a cidade uma relação de alter ego.
Atriz. A profissão de atriz foi se estabelecendo na minha vida, eu não a escolhi. Ela foi tão avassaladora que me tomou. Ser atriz foi menos “você decide” e mais “você se dá conta”.
Superpoder. Se eu pudesse, inventava uma pílula pra ficar invisível. E ia observar as pessoas sem ser notada, saber das coisas mais íntimas e das coisas mais bobas. O encantamento pelo cotidiano sempre foi algo meu.
Escrever. Não faço para os outros, faço pra mim. Encaro como sobrevivência. Escrevo por necessidade e sou completamente amadora.

Teatro ou TV? Teatro, foi onde eu me entendi. Mas é importante dizer que é possível fazer coisas muito legais na TV.
Fracasso e frustração. São palavras proibidas na sociedade em que vivemos. Mas não ignoro esses sentimentos. Podemos encontrar neles aprendizados tão importantes quanto na alegria extrema. Você só consegue experimentar o êxtase se já tiver passado pelo fundo do poço.
Monogamia. Não acredito enquanto regra. Na verdade, não acredito em nada que seja forçado. Se estou exclusivamente com alguém é porque quero.
Fama. Se eu pudesse ser atriz e não ser reconhecida nas ruas, seria o mundo ideal. Alguns encontros com fãs, os de olho no olho, são verdadeiras trocas e só esses me interessam. Não me interessa ser essa pessoa pública da selfie.
Lugar de mulher. Essa coisa de desempenhar um papel me incomoda desde criança. Toda catalogação me irrita. Vou na contramão de tudo que se espera de uma mulher. Odeio shopping, odeio salto alto, odeio falar ao telefone, não planejo casamento. Tenho um lado masculino, e gosto dele.
Descriminalização do aborto. Absolutamente a favor. Nunca fiz um, mas faria se precisasse.
Maternidade. Um dia, quem sabe. Mas não é uma vocação, no sentido de que não cresci pensando nisso.
Casamento. Acabei de terminar um. Sempre tive relacionamentos longos. Relações efêmeras não são pra mim.
Poliamor. Se existir amor, por que não?
O que tira o sono. Ideias. Tenho muitas, fico pensando em tudo que ainda posso fazer.
Se não fosse atriz. Acho que não saberia fazer mais nada da vida.
Em dez anos. Não tenho a menor ideia de onde estarei e não estou preocupada
em saber.
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