por Daniel Lisboa

Recém-publicada no Brasil, a desenhista norte-americana Heather Benjamin vai do grotesco ao lírico

Heather Benjamin nunca sofreu abuso sexual. Tampouco está à procura de sexo bizarro ou é uma entusiasta do sexo violento. Apresentar assim uma artista pode soar bem estranho, mas o trabalho desta desenhista norte-americana é tão impactante para quem acaba de conhecê-lo que especular sobre a pessoa por trás dele é um impulso quase automático.

Moradora do bairro do Brooklyn, em Nova York, Heather vem se tornando conhecida no mundo dos quadrinhos alternativos pelos seus desenhos carregados de sexo explícito, sangue e lágrimas. O grotesco, no entanto, não exatamente domina a obra da artista. Os traços por vezes delicados de sua obra, o enquadramento das cenas e a profusão de detalhes bizarros, macabros e aparentemente fora de contexto tornam seu trabalho impermeável a qualquer interpretação apressada.

Responsável pela publicação de Heather no Brasil, Rachel Gontijo sentiu-se atraída justamente por essa multiplicidade. “Achei o trabalho dela extraordinário, aqueles corpos chorando, transando, gozando. Tudo ao mesmo tempo. E dentro daquela dor toda, daquela vulnerabilidade, do grotesco, dos fluidos, da decomposição e dos órgãos genitais, encontrei uma leveza extraordinária e morri de rir. É sério, não conseguia parar de rir”, confessa Rachel.  “A verdade é que as pessoas têm muito medo do corpo, muito medo da própria sexualidade. Mas a Heather não, ela transita entre o grotesco e o delicado como poucos artistas que conheço.”

Rachel conheceu a obra de Heather em 2010. Ficou impressionada com o que viu na zine “Sad People Sex”, produzida pela artista, e começou a se comunicar com ela. Três anos depois, o resultado é o livro Exorcise Book, coletânea de 64 desenhos inéditos lançada nos EUA no dia 5 de julho e prevista para sair no Brasil no dia 13. Isso foi possível porque Rachel é, junto com sua sócia Stephanie Sauer, responsável pela A Bolha, pequena editora carioca que vem publicando escritores, cartunistas e artistas gráficos que, pelo experimentalismo e excentricidade de suas obras, têm pouquíssimo espaço no mercado editorial brasileiro (situação que já levou o cartunista Allan Sieber a chamá-lo de “jecalândia”). 

Foi caminhando pelo High Line (parque novaiorquino construído sobre uma antiga via férrea elevada e espécie de antítese do Minhocão paulistano) que Heather esclareceu de onde veio seu gosto por desenhar sexo com violência. “Eu não passei por nenhum trauma ou coisa do tipo. O que eu tive foram dificuldades com a vida sexual e afetiva pelas quais toda adolescente passa”, diz a artista, hoje com 23 anos. “Foi uma época difícil, fiquei meio travada e comecei a canalizar o que sentia para os meus desenhos.”

A autoria feminina ajuda a chamar mais atenção para o trabalho de Heather. Criados por um homem, talvez seus desenhos fossem recebidos com mais naturalidade. “Em entrevistas e conversas, é comum que alguém tente tirar de mim a confissão de que sofri abuso sexual ou alguma coisa assim”, diz a desenhista. Ela tem noção de que seu trabalho, além de admiração, eventualmente desperta também ojeriza. Mas não parece se importar com isso. “Eu realmente acho que são as pessoas que ficam muito incomodadas com o meu trabalho que têm algo a esconder sobre suas sexualidades. Afinal, são apenas desenhos; se eles te atingiram de alguma maneira, talvez você esteja precisando resolver alguma coisa consigo mesmo.”

Vai lá: O Exorcise Book já está disponível na loja virtual da A Bolha Editora www.abolhaeditora.com.br // Tumblr da artista http://mnvxzpytr.tumblr.com

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