por Sara Stopazzolli
Tpm #123

Oi oi oi! O ator que interpreta o Lúcio de Avenida Brasil é um doce na vida real

Revelação na pele do esperto Lúcio de Avenida Brasil, Emiliano D’Avila conquista espaço na TV, não gosta de estar solteiro e avisa: “a gente está na vida para se arriscar”

“Eu tô doce hoje, não é possível!”, comenta Emiliano D’Avila enquanto é rodeado por um par de abelhas. Depois, revolve o fundo do baú das aulas de biologia e solta: “Sabia que a abelha morre depois de picar? O ferrão é conectado com o coração. É uma mordida suicida!”. Sim, ao contrário de Lúcio, seu personagem em Avenida Brasil, Emiliano sempre foi um aluno aplicado. E é até hoje. Para compor o tipo desajustado e tão distante da sua realidade, o ator correu atrás. Por conta própria, procurou uma fonoaudióloga para trocar seu sotaque baiano pelo de carioca do subúrbio e chegou até a estudar uma tese de mestrado sobre verbetes do crime. Aprendeu, por exemplo, que “braço” quer dizer “parceiro”, e usou a informação na cena em que ficou de conchavo com um barraqueiro de praia enquanto tentava se dar bem em cima de uma coroa. Para imprimir a malandragem no corpo, caiu de cabeça nas aulas de charme e adorou explorar seu lado dançarino. Fã do programa de TV So you think you can dance (reality show de dançarinos), ele até pensa em um dia se dedicar ao balé clássico.

O empenho deu certo. Lúcio, que surgiu na novela lá pela quarta semana, vem ganhando cada vez mais espaço na trama. E Emiliano não passa mais incólume, seja na vida real ou na virtual. O ator de 26 anos já perdeu as contas dos puxões de orelha que recebe na rua, de senhorinhas revoltadas com o comportamento do filho desnaturado de Janaína, empregada da família Tufão. No Facebook, única rede social que tem um perfil verdadeiro do ator, são cerca de 50 pedidos de amizade por dia – todos aceitos –, muitas declarações elogiosas ao seu trabalho e até pedidos de casamento. Ele até cogitava transformar seu perfil quase lotado em fan page e fazer outra conta só para quem conhece de verdade. “Adoro esse reconhecimento porque é sinal de que tenho feito um bom trabalho. Assédio mesmo eu sinto em eventos onde apareço como o ator da novela, o que é quase um personagem”, conta, com sotaque de lugar nenhum (ah, essa fonoaudióloga!). Mas bastou ele se desfazer dos óculos Ray-Ban e do chapéu de palha que tem usado para domar os cabelos e começar a prova de roupas para o ensaio que, aos poucos, suas origens foram se revelando. Além de as palavras ganharem musicalidade, ele mostrou que, como bom baiano, tem horror a calça justa, camiseta baby look e qualquer coisa colada no corpo – com exceção da sunga.

 

“Essa loucura pelo sucesso é uma coisa muito do Rio e é bem diferente do que era meu mundo de teatro em Salvador”

 

Nascido e criado em Salvador, Emiliano se formou em artes cênicas pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), em 2007, e logo fez sucesso nos palcos da cidade como um garoto de programa na peça underground Shopping and fucking, do inglês Mark Ravenhill. No ano seguinte, disputou com 3 mil candidatos uma vaga no espetáculo Clandestinos, que mostrava perrengues de atores em busca da realização profissional. Foi aprovado para o papel do baiano Pedro Bala e se mudou para o Rio de Janeiro. João Falcão, o diretor, conta que a simpatia e o carisma do ator chamaram sua atenção logo de cara. “Depois vi o quanto ele é aplicado, disponível e completamente desinibido. Acabamos amigos. Ele é muito divertido, alto-astral e sempre surpreende com alguma piada. Digo que ele é cheio de graça. Uma pessoa que eu não gostaria de perder de vista”, finaliza. O espetáculo virou série de TV e Emiliano estreou na Globo em 2010. Dali pulou direto para o horário nobre, na novela de maior sucesso dos últimos tempos. “Nunca tive aquele desespero para brilhar. Fui fazendo meu teatro, buscando minha formação. Essa loucura pelo sucesso é uma coisa muito do Rio e é bem diferente do que era meu mundo de teatro em Salvador. Mas que bom que fui abarcado e as coisas foram se encaixando. Além de talento e trabalho, acho que tive muita sorte também”, comemora.

Emiliano mora sozinho, a uma quadra da praia de Ipanema. Quinzenalmente recebe a visita da mãe, que ministra um curso sobre psicologia junguiana na cidade. Na mesma manhã ensolarada em que o ensaio foi feito, em um hotel-pousada de Santa Teresa, ela desembarcava na cidade. Pela primeira vez, não trazia para o filho único os congelados made in Bahia pela cozinheira da família. Mais um reflexo do sucesso de Lúcio. “Agora vou ao Projac quase todos os dias e tenho comido por lá mesmo”, conta ele, que se diz bom de garfo e péssimo de cozinha. Com a nova rotina, ele só consegue ir à academia – coisa que costumava fazer quase diariamente há oito anos – três vezes por semana. E ultimamente tem malhado só o tronco por conta de uma contusão nos joelhos. Uma lástima, segundo ele, que está deixando sua perna muito fina. “Meu corpo demorou para se desenvolver. Sempre tive um biotipo mais para o magro e cheguei a ter uma pancinha aos 13 anos porque comia muita besteira. Hoje, tenho a alimentação bem saudável e se me esbaldo num dia no outro eu seguro a onda”, conta.

 

“O meu 'se dar bem' é o contrário do de Lúcio. É viver do que se gosta de fazer e com uma pessoa que se ama ao lado”

 

O sucesso com as meninas demorou a acontecer. No colegial, tinha vontade de namorar, mas não lhe davam oportunidade. “Só tive minha primeira namorada quando entrei para a faculdade, com 17 anos. Ela era oito anos mais velha e ficamos juntos por quatro anos”, conta ele. Depois de um breve intervalo, veio outro relacionamento de quase quatro anos que acabou recentemente. Emiliano não gosta de falar de suas ex e pede que a reportagem nem cite o nome delas, em sinal de respeito. Agora está solteiro, embora goste mais da vida quando está acompanhado. “O meu ‘se dar bem’ é o contrário do de Lúcio. É viver do que se gosta de fazer e com uma pessoa que se ama ao lado. O momento mais feliz da minha vida foi quando viajei pelo país com a peça Clandestinos. Estava fazendo o que gosto, sendo reconhecido, conhecendo outras cidades e ao lado da mulher por quem estava apaixonado. Foi uma realização completa. Como se fosse um sonho”, relata ele, que também afirma não ser ciumento e gostar de dar e receber liberdade. “O que vale para um vale para o outro”, explica o ator, que não compactua com nenhuma espécie de machismo. “Não julgo uma garota pegadora. Se o homem pode ser por que a mulher não pode? E, se ela deixar o cara inseguro, qual o problema? O que é segurança? Existe alguma coisa segura? A gente está na vida para arriscar!”, finaliza. E fica, então, comprovado: as abelhas têm faro. Ele não só está: ele é um doce.

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