por Elisa Lucinda

Elisa Lucinda: ”Proponho mais coerência, menos violência, menos falsos moralistas, menos hipócritas. O Ano Novo se aproxima e tudo nos convoca à repaginação”

A educação do adulto não acaba nunca. No aprender da caminhada, estou sempre compartilhando através de poemas, crônicas, artigos, poesias e prosas as coisas que aprendo no exercício do viver. E aí também me sinto, ao compartilhar os saberes, aluna e professora. Somos todos. Alunos de minhas aulas não são obrigados a me ouvir, são voluntários. Vem quem quer. É gente que entende que, de alguma maneira, pode aprender com o que penso ou provoco.

Assim acontece comigo em relação a outros arautos, e creio que  seja assim com todos. Há pessoas com as quais uma tarde ao lado pode equivaler a um semestre numa faculdade. Eu poderia citar muitas dessas, mas o mestre Antônio Pitanga é o primeiro que me vem à mente agora. Estar em seu convívio é confirmar a infinitude da aprendizagem. Sempre me dá aula de Brasil e de vida.

E tem mais: como a vida é escola, nela, a aula pode vir de uma experiência dolorosa, de uma sobrevivência, de um encontro, da boca de uma criança, de uma pessoa menos informada do que nós, de um velhinho do século passado, de um livro, uma novela, um programa, um teatro, uma dança, uma escultura, um quadro, uma música. Podemos observar como as artes ocupam um lugar educador, um lugar de ensino, embora informal.

Escrever, para mim, ocupa muito esse lugar. Parece um dever de casa da vida que faço. Uma reflexão sobre as matérias, sobre as disciplinas da vida. Se meu pensamento é fruto do impacto entre a minha existência e a realidade, escrevê-lo torna concreta a narrativa, lhe dá uma substância menos dispersa, menos névoa, menos etérea. Tenho procurado estar mais atenta, cada vez mais, ao que digo — e tenho me lançado nessa tarefa sem que seja a custo de perder minha alegria, o bom humor, a piada. Só estou cansada é de um velho humor que só bate em quem já apanha, debocha das periferias, dos gays, dos pretos, dos pobres, dos travestis, das pessoas trans, anões, gordos etc...

O que estou é levando muito a sério o meu papel de atriz social. Somos todos atores sociais. Há pouco tempo, por exemplo, me dei conta da ignorância dos racistas. Como o conceito racista não engendra uma teoria defensável. Quem o sente, costuma omiti-lo, e, de uma certa forma, é vítima de tal mesquinharia subjetiva ou teórica, que, muitas vezes sem perceber, decidirá sua prática dentro da vida. De posse dessa informação, tenho atuado no meu cotidiano no sentido de promover um certo (não se assustem) “terrorismo” simbólico por onde passo, uma coisa que de alguma maneira só necessite dos fantasmas do próprio interlocutor para provocar a reflexão e para aterrorizá-lo no sentido de fazer com que repare o absurdo do que normatizamos, ou para expor uma contradição grave.

“O que o homem branco chama de ingênuo, bronco, é o pensamento não capitalista do índio. O que chama de bobo, é a sua dignidade”

Certo dia estava fazendo uma oferenda para Oxóssi, um orixá ecológico, o senhor das matas, conhecedor das trilhas. Era de tarde, uma rua calma numa ladeira na zona nobre do Rio de Janeiro. O sol de primavera fazia o seu serviço entre as copas e eu, no meio daquela tarde ensolarada, colocava frutas no pé de carambola como parte do ritual. Era só isso que eu tinha que fazer. Quando, de repente, enquanto eu cantava baixinho — “Oxóssi filho de Yemanjá, divindade do clã de Ogum...” — passa um carro. O motorista diminuiu a velocidade para me observar. Não satisfeito, interrompeu o rumo de seu destino naquele momento, manobrou de modo a colocar o seu rosto diretamente na direção da oferenda e de mim. Parou ali. Não olhei para ele, que estacionara do outro lado da rua e apoiava o queixo no braço que repousava na janela aberta do carro, de onde me lançava o seu ostensivo olhar. Quem me trouxe essas informações foi a visão periférica. Não olhei em nenhum momento diretamente para ele. Percebi. Sua energia não era discreta. Queria me intimidar? Quem seria? Eu nunca teria coragem de fazer isso com religião nenhuma; já passei em frente a vários cultos, conheço muitas manifestações de fé e não me ponho diante delas para desrespeitá-las. Acho até bonito alguns ritos, mesmo não acreditando naquele modo.

Não sei se pensei isso na hora, só sei que comecei a cantar e a bater palmas, e a rodar em volta das frutas. “Corre macumba, pegar curioso, corre macumba, pegar curioso...”, ao que o homem disparou, partindo em retirada, com pressa, como se fugisse do invisível. E era o que ele fazia. Corria de seus fantasmas, corria de viver entre macumbeiros de armário, ou seja, aqueles que vão à umbanda, ao candomblé, fazem ritual para salvar a vida, o emprego de algum filho ou marido, ou um casamento, e depois, nos clubes, nos grandes salões sob os chapéus suntuosos das corridas nos jóqueis, declaram publicamente, entre os amigos de champanhe e caviar, a sua fé nos santos oficiais católicos. É mentira.

O que fiz naquela tarde foi uma brincadeira apenas. Não estava no script, inventei na hora a musiquinha da macumba que pegava curioso. Coisa de criança. Ri muito sozinha depois, descendo a ladeira. Que bobo. Que ignorante. Como posso ajudá-lo? 
Acho que todos temos que tomar um banho da nova velha história brasileira, Nossos heróis são tortos. O que realmente fez Duque de Caxias? Qual foi o crime de Tiradentes? O que foi o primeiro império brasileiro? O que aconteceu para que a Princesa Isabel se visse obrigada a assinar a abolição da escravatura? Quem habitava os quilombos?

Mora um grande equívoco na base de nossa história. Em minha utopia, deveria ter sido assim o nosso começo: “Olá, somos portugueses. Como é que se anda nessas terras? O que é que podemos plantar e colher? Que tal juntarmos nossas habilidades e o vosso conhecimento do território, e que tal governarmos juntos?”. A pretensiosa dominação branca, no entanto, caiu matando nos donos da casa. Não entendeu nada. Nem teve tempo de perceber que o escambo para o índio é mais um álibi, uma oportunidade para uma relação de amizade, do que o material trocado. Por isso que, para o indígena, trocar um espelho por uma barra de ouro não parecia um mau negócio. O que o homem branco chama de ingênuo, de bronco, é o pensamento não capitalista do índio. O que se convencionou chamar de bobo, é a sua dignidade. O que chama de insolência, é a sua liberdade, sua dificuldade em entender alguma coisa que não seja um trabalho do coletivo para o coletivo.

“O conceito racista é uma teoria indefensável, quem o sente costuma omiti-lo”

Com os negros, repetiu-se a mesma pretensiosa e estreita visão do dominador em nos considerar povos primitivos e achar que não haveria o que aprender com a gente. Deu no que deu: a mesma dominação prescindiu de preciosos ensinamentos que, hoje, poderiam proteger nossa natureza, e segue matando índios e negros.

Quem não percebeu? Precisamos admitir que deu errado. Se vivemos numa sociedade em que o adulto diz para uma criança não andar com outra porque ela é negra, numa sociedade em que a mãe diz pro filho que o amiguinho dele tem cabelo ruim, em que pais dizem para os filhos não se misturarem às outras crianças porque elas são pobres, é porque vivemos numa sociedade onde se corrompe sistematicamente a infância. Isso é violência.

O Deus dessas pessoas está sabendo disso? Ensinar racismo, classicismo, fere o estatuto da criança e do adolescente. Deu errado. Portanto, famílias brasileiras que se amontoam em volta das mesas natalinas recheadas com as guloseimas da festejada data, não se iludam. Pois, se houver um racista entre estes, estará traindo Jesus, o menininho sagrado, base firme dos preceitos católicos e que nasceu nesse dia, numa pobre manjedoura, segundo reza a catequese. Mas, quem festeja, gosta de pobre?  Quem festeja, exclui gays e lésbicas? Se quem festeja expulsou de casa o filho travesti ou a filha trans, o que exatamente comemora em volta do presépio?

Me chama muito a atenção a existência de gente que se diz caridosa, mas escraviza a babá de seus filhos, seus empregados são humilhados antes e depois da Missa do Galo. Confia-se demais no perdão de Deus. Abusa-se demais do pecado e não lhes parece que os preconceitos estão incluídos nos pecados capitais nos quais tanto e tantos acreditam. Quando alguém diz ou pensa assim: “Ah, isso é coisa de Paraíba” devia saber que a frase o põe automaticamente anticristão e mais próximo do inferno do que do céu que almeja. Quem lhe disse que somos melhores que os paraibanos? Em quê?

Essas coisas que digo aqui são as que venho aprendendo com a professora vida. 
Religiões são repletas de simbologias que legitimam nosso modo de evoluir. No entanto, há ateus mais corretos, mais altruístas, mais tolerantes do que muito crente por aí. Então, proponho a todos nós mais coerência, menos violência, menos falsos moralistas, menos hipócritas, pois, enquanto não saírem do armário as reais identidades dos anônimos fregueses daqueles e daquelas que se prostituem nas esquinas do Brasil, enquanto não saírem do armário esses que passam em carrões protegidos por vidros fumês que adoram uma sacanagem por debaixo do pano, ninguém pode atirar pedra em ninguém. 

O Ano Novo se aproxima e tudo nos convoca à repaginação. Ou fazemos isto ou o nosso tempo nos massacrará e seremos definitivamente reprovados na escola da vida. Um novo ano pede novos homens e novas mulheres. De tudo que venho aprendendo, o amor, o mais político dos sentimentos, me parece se confirmar como a grande chave da história.

 

*Elisa Lucinda, noite quente de verão, 2017.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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