Guru: use com moderação

por Fernando Luna
Tpm #163

Afinal, o guru sabe mesmo o que diz ou apenas parece saber? A situação que ele descreve é igualzinha, sem tirar nem pôr, a essa que você vive? Impossível descobrir até ser tarde demais

Quando o primeiro hominídeo decidiu dar um follow e seguir pelas savanas os passos de um outro hominídeo que lhe parecia mais esperto, a humanidade inventou o guru – tema desta edição. De lá para cá, essa figura cresceu 
e se multiplicou.

Basta uma espiada no topo da lista dos mais vendidos (a dos livros, não a da Odebrecht) para encontrar os influenciadores contemporâneos pontificando sobre praticamente tudo.

Quer saber como garantir seu futuro sem depender dos outros? Tem. Como enfrentar a ansiedade, o mal do século? Ou como colocar ordem na sua casa e na sua vida? Tem também. Como enriquecer mudando seus conceitos sobre dinheiro e adotando os hábitos das pessoas bem-sucedidas? Como fazer sua vida ideal sair do papel ou como obter ótimos acordos em suas relações pessoais e profissionais? Tranquilo.

Sem falar na mais fundamental das lições: como fazer amigos e influenciar pessoas. Não foi coincidência Dave Carnegie publicar esse best-seller ainda no rescaldo da Crise de 1929. Tempos difíceis são o habitat natural dos gurus.

Se o caos reina, a barata voa e ninguém tem a mais remota ideia do que vem pela frente, a voz do guru fala mais alto. Por isso hoje tem praticamente um guru para cada problema.

Nesta transformação brutal do mundo, da mudança climática à revolução digital, sobra assunto para guru da esquerda, guru da direita, guru digital, guru de negócios, guru espiritual, guru material, guru de educação, guru do sexo e até guru de vida saudável (você pode substituir a Bela Gil pelo padre Marcelo Rossi e seu novo livro sobre alimentação, mas depois não reclama).

Todos distribuindo palpites, certezas e fórmulas para passar sua vida a limpo e arrumar cada gaveta do mundo. No meio da confusão, um conselho bem lapidado faz as vezes de boia de salvação. Só que não. Ou, pelo menos, não necessariamente. Afinal, o guru sabe mesmo o que diz ou apenas parece saber? A situação que ele descreve é igualzinha, sem tirar nem pôr, a essa que você vive? Impossível descobrir até ser tarde demais.

Por isso, vale manter uma reserva de ceticismo, cultivar a dúvida e, quem sabe, até decidir continuar ignorante por conta própria.

Fernando Luna, diretor editorial

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