por Ligia Burle

O diário de Ligia, esposa do big rider Carlos Burle, em uma viagem pela Ilha de Páscoa

Vou começar falando do “Mana”. “Te Pitu Te Henua”, ou “o umbigo do mundo”, como a Ilha é conhecida. Em Rapa Nui tem pouco mais de 5.700 mil residentes fixos, um mar de um azul profundo e uma natureza colorida, verde e florida, que emana uma energia muito boa, o que os locais chamam de “Mana”, mas que eu poderia chamar de “paz”. A ida até a Ilha de Páscoa é longa…são 3h30 do Rio de Janeiro até Santiago e mais 5h30 de Santiago até a Ilha. Todos os dias às13h chega o único avião da Lan Chile vindo do continente.

Ilha de Páscoa recebeu esse nome, porque foi em 5 de abril de 1722, um domingo de Páscoa, que o navegador holandês Roggenveen descobriu Rapa Nui, enquanto seguia para o Tahiti. A Ilha tem 163km2 e em poucas horas se consegue dar a volta na ilha pelas estradas asfaltadas que ligam à pequena (e única cidade de) Hangaroa e os principais localidades turísticas da Ilha: os 15 Moais, o vulcão Ranu Raraku, de onde eram extraídas as pedras das estátuas, o Vulcao Ranu Kau e a praia de areia branca de Anakena. Para nós, os surfistas, o resto das praias ou point breaks são acessados por trilhas entre pastos,  pedras e (ops!) Moais…

Viemos meu filho, Reno Kai de 4 anos, meu marido, Carlos Burle e eu, com 8 pranchas de surfe, uma de SUP inflável, 1 mala só com roupas de borracha e coletes de tow in, 1 sled e uma mala de roupas. Some-se a tudo isso fraldas e brinquedos do RK. Quando achei que isso tudo era muito, encontramos a família do Alemão de Maresias, Renata, Renê, com 4 anos e Samuel com apenas 8 meses! Aqui na Ilha também estão Silvio Mancusi, Bia, seu filhinho Benjamin e a equipe de filmagem do seu programa! Verdadeira farra brasileira!

Graças a Deus, as ondas e aos nossos amigos surfistas nativos, Wilo, Renê, Uti e papo, a expedição de surfe foi muito bem sucedida. Burle e Alemão conseguiram pegar bons mares de até 15 pés, vento terral e sol! 

Além de surfe, fizemos mergulhos (aqui é um dos melhores lugares do mundo para mergulho, pois a visibilidade na água chega a 60m, graças `a pouca presença de planctons e afluentes), passeios de bike e trekkings. A ilha é um imenso gramado com sítios históricos por todos os lados…tem que se tomar cuidado para não “pisar” em nenhum “Moai” caido no chão, ou numa pedra que tenha um “petroglifo”, inscrição ou desenho ancestral. Os nativos estão sempre de olho nos turistas e dizem que , quem é pego “danificando” os monumentos é banido para sempre do país. Não duvidamos e tomamos sempre muito cuidado, inclusive com as crianças.

Fatos: Água. Infelizmente a água que sai da torneira não é tratada e temos que viver comprando garrafas e garrafas de água….um desperdício aflitivo…. Cada garrafa com 1,5l custa US$ 4, ou R$ 10. Por 2 vezes contratei a recepcionista da pousada, a chilena de 20 anos Nilce, para cuidar do Reno Kai, enquanto surfava…ao todo surfei 4 vezes em 10 dias…dado que o mar por vezes estava muito grande, por vezes muito vento e que não tinha babá, foi uma media boa em 10 dias… Ela cobrou US$ 15 por hora, $ 8,500 pesos. Já tinha ouvido falar que na ilha falta opções de vestuário, maquiagem, tudo que as mulheres gostam de comprar…e que todas “adoram” comprar roupas das turistas!, então  perguntei se ela não preferiria ficar com minha roupa de borracha (velha, que minha irmã comprou na Austrália a 10 anos atrás) e ela aceitou na hora! 

18/05, domingo:

Atrasados, com frio de 5o C, atravessamos a rua correndo com toda essa bagagem e encima da hora, conseguimos fazer o embarque. Cachorrão, nosso amigo e filmmaker, os Assunção, já estavam todos a nossa espera. Chegando no aeroporto uma calorosa recepção…amigos Rapa Nuis nos esperavam com “leis” , aqueles colares de flores coloridas e muito “Mana”.

Nos dividimos em várias caminhonetes 4x4 e partimos para a nossas acomodações. Alemão e sua família ficaram numa casa bem confortável e nós numa pousada, aonde ainda encontramos o Silvinho, Bia e Ben (Mancusi), que gravavam para seus programa.

Almoçamos na beira da praia, num conjunto de 3 trailers, na frente do campo de futebol, onde se vende de tudo e se encontra todo mundo. Ceviches, empanadas e sucos naturais. O clima é de festa e o swell já encostava nos gráficos e nas previsões. Amanhã tem onda. O negócio foi dormir cedo para guardar energias.

19/05, segunda:

Vinapu, ou Papatangaroa (Pedra do Rei do Mar) é uma onda tubular de direita, que quebra encima de uma bancada rasa de pedra, ao sul da ilha. Foi neste lugar que Burle, Alemão e seus amigos Rapa Nuis, Renê, Wilo e Uti foram surfar na primeira queda da temporada. Dizem que o difícil aqui é um bom vento terral para segurar a parede. Neste dia tinha um vento bom e 8” de ondas perfeitas, azul da cor marinho profundo com turquesa, nas áreas mais rasas…lindo de morrer.

Temos 2 jet skis e muita disposição de todos para rebocar os surfistas brasileiros, todos querem ver e aprender com eles. Chegamos ontem e já somos conhecidos na Ilha toda como os “tablistas brasileños”. Só espero que deixemos uma boa impressão. 

Para nós, mulheres e crianças, nos restou um banho de mar maravilhoso na piscina natural de pedras ao lado do porto de Hanga Roa. O clima está maravilhoso, entre 15o e 25oC durante o dia. Visitamos o “mercado de artesanias”, onde se encontram moais de todos os tipos e jeitos: em camisetas, brincos, imã de geladeira, brinquedos.

20/05, terca:

Surfe em Papatangaroa/ Vinapu. 8’ a 10’ pés com vento terral e altas imagens. Acordei na fissura e fui surfar….mar com muito vento maral…mas valeu pelo esforço. A onda mais fácil que tem na ilha é ao lado do porto, na praia de Te Hanga Rio Rio. Esquerdas mais rápidas e direitas mais moleza, que quebram entre pedras. O fundo é raso na entrada e saída e tem que se tomar cuidado com ouriços (sempre).

Fomos todos passear pela Ilha com Pic Nic de Empanadas e frutas. Passamos por Vinapu, os 15 moais (Moais quer dizer "estátua" em polinésio Rapa Nui e estas, as mais imponentes da Ilha, estão de costas para uma linda baía, olhando para o vulcão Ranu Raraku. Reza a lenda que elas datam de 1.200 e que foram muito destruídas por guerras tribais e terremotos desde então. Em 1960 foram novamente colocadas no lugar por uma junto arqueológica japonesa e chilena. 

Depois fomos ao Ranu Raraku, o vulcão que determinou de vez a vida e a cultura desta ilha. Suas rochas, sólidas e resistente, foram a base da construção das estátuas, hoje patrimonio da humanidade. Diz a história que há 1.000 anos atrás, Rapa Nui tinha várias aldeias, e cada aldeia tinha seus espiritos protetores, a quem os Moais eram dedicados. Todos vinham esculpi-las aqui, depois percorriam distancias superiores `a 20km com as mesmas, para colocá-las em seus “Hau”, ou altares de pedras. O passeio é todo feito `a pé e tem que se entrar no parque Nacional, pagando um ingresso de US$ 60, que dá livre acesso `a todos os sítios arqueológicos. É um museu gigante a céu aberto. Realmente o carro é muito necessário….bicicletas, para os mais aventureiros. 

21/05,quarta :

Hoje acordamos cedo, tomamos nosso café reforçado (banana da terra cozidas, ovos, nozes, salada de frutas, "nescafé"….) e fomos checar as ondas em Vinapu. Chegando lá, mesmo contra as previsões, o mar estava lindo, perfeito…Cachorrão pulou na água (a principio para procurar a camera Go Pro , que perderam no dia anterior) e eu fiquei filmando o Burle pela primeira vez do cliff. Reno Kai ficou brincando de escavações, encontrou ossos, muitos bichos embaixo das pedras….Levamos empanadas, sucos, frutas e mais uma vez fizemos um "grand epic" nic. Nadamos também nas piscininhas naturais, que se formavam entre as pedras. Um tempo depois, outros surfistas se juntaram `a nós. Alemão, seus amigos, de SUP. Wilo destruiu sua prancha nas pedras. Jantar no Te Moana para comemorar.

22/05, quinta:

Gabriel, nosso cinegrafista chegou hoje para completar o time! Eu e Reno Kai fomos passear pela cidade, compramos lembrancinhas na casa de artesanias, visitamos um studio de Tattoo, porque estou pensando em me "estampar" com uma e compramos empanadas (lógico) para o almoço. 

23/05, sexta:

Passamos o dia em Mataveri filmando. 2 jets, remade e tow-in o dia todo. Tinha até 15 pés de ondas fortes, rápidas, de esquerda, com vento terral, que dificultava muito a entrada na onda. As criancas ficaram no parquinho brincando. A ilha deve ter 1000 criancas e uns 5 parquinhos ao ar livre…todos lindos, de madeira. Jantar no restaurante do Rene, Te Moana para comemorar! 

24/05, sábado:

Dia sem onda, para explorar a cidade. Fomos `a igreja, visitamos lojinhas interessantes, como a da alemã, Petra, que vive a 16 anos na ilha e fabrica seus proprios sabonetes e oleos de massagem e terapeuticos, além de vender chocolates caseiros e produtos da Weleda. Fizemos um almocinho na casa da Renata. Abobrinha, tilapias, arroz e lentilha.Ninguém aguenta mais empanadas hehehe.^^~-_-

A tarde surfe com os maridos. Acertamos em cheio. Sábado `a tarde com ondas, é o maior crowd da semana, 15 body boarders locais simplesmente dominavam o pico! Sobravam poucas ondas…estava lindo, mas sofrido.^^~-_-! Acabou que pegamos uma ou duas boas.

Jantar no Te Moana novamente!

25/05, domingo:

Dia de sol, relax e surfe nas marolas. Muito sol, calor e ondas menores! Foi maravilhoso! Peguei mais esquerdas, que direitas. O Alemão ficou de “babá”, mas depois teve seu momento de curtição também. Almoçamos empanadas (e o que mais?!) na praia e fomos passear. Por do sol no Ranu Kau, o vulcao ao sul da Ilha. Lindo.

26/05, segunda:

Acordamos as  6h30 para ver o nascer do sol no Ranu Kau desta vez. Tiramos muitas fotos, filmes….voltamos para o café da manhã. Aluguei uma bike e fui pedalando até Anakena (18km). A única praia de areia branca da ilha, localizada numa linda baia com Moais a vigiando (claro!). 

27/05, terça:

Nosso ultimo dia! Reunimos todos na pousada e partimos para a casa do Tuma (Tuma Heke Duran Veri Veri), ganhador por 16 anos do triatlon Rapa Nui, o “Tau’a Rapa Nui”modalidade esportiva que reúne 3 atividades tradicionais da ilha: 

- Vaka Ama: canoagem em pequenas embarações de “totora”, espécie de “taboa”, extraída das várzeas do lago pluvial do vulcão Ranu Raraku;

- Natação em Pora: “prancha” de “totora”;

- Aka Venga: corrida com 2 pencas de bananas nos ombros.

Tuma nos recebeu em sua casa, nos mostrou seus troféus, fotos dos campeonatos, de sua família e amigos. Na garagem, várias Vaka Amas e Poras. Tuma ensina as crianças `a fabricar estas embaracações tradicionais e tem muito orgulho de sua cultura. Fala com carinho do trabalho que dá para construi-las. Entre colher e secar as totoras, esticá-las e prendê-las com cordas no formato de uma “banana gigante” , leva-se um mês. O tempo de uso de cada uma chega a 4 anos. Tuma fabrica também seus próprios remos, de madeira esculpida.

Pegamos a Vaka ama e a Pora, colocamos no rack do carro e partimos para o lago do Ranu Raraku. Lá os mais corajosos se aventuraram num passeio pelo lago, experimentando os diferentes equipamentos. A água do lago é congelante e muito escura… uma bela experiencia! Com uma extrema conexão com a natureza, Tuma ainda nos presenteou com uma prece na sua língua natal, que deixou todos emocionados. 

Ao chegarmos em casa, cansados e felizes, Wilo e René tinham ido pescar e nos presentearam com uma refeição típica: peixes assados na brasa sobre folhas de bananeira. Como não poderia faltar numa festa Rapa Nui, cerveja (Escudo), violão e canções típicas.

E assim, comemorando a amizade sem fronteiras, comemos e agradecemos juntos por esses 10 dias maravilhosos no umbigo do mundo!

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