por Rosane Svartman

Diretora e roteirista falam sobre a pesquisa para o seu novo filme, ’Desenrola’

Como foi a sua primeira vez? É possível que ao ler essa pergunta você seja rapidamente transportado para um outro lugar, com uma outra pessoa, num dia qualquer do passado. Imagine então quantos lugares, pessoas e dias diferentes a gente visitou enquanto fazíamos a pesquisa para o filme Desenrola, em cartaz em todo o país a partir do dia 14 de janeiro.

“As meninas hoje beijam aos 11, transam aos 12 e engravidam aos 13. Tudo acontece muito mais rápido do que antigamente.” Era algo assim que a gente esperava “descobrir”, levadas pelo senso comum de que as garotas hoje são muito mais avançadinhas do que nós, “na nossa época”, jamais sonhamos em ser. E, sim: elas são mais descoladas, analisadas, práticas, num certo sentido, e certamente se vestem bem melhor do que as suas equivalentes da década de 80. Por outro lado, são como nós éramos.

Fora do senso

Certo, na década de 80 não era comum uma garota ficar com dezenas, sim dezenas, de carinhas numa festa. Nem dava tempo, talvez os beijos fossem mais lentos, ou então era só a música.

É certo também que temos um mundo menos machista, mas nosso censo mostrou que morreu a “galinha” e nasceu a “fácil”; o garanhão de então é o “pegador” de hoje. Tudo bem que já se usa também “pegadora”, mas parece que a versão feminina ainda é meio pejorativa no mundo abaixo dos 18. Será que trocamos 6 por meia dúzia?

Depois de centenas de entrevistas entre Rio/São Paulo, a sensação é que a tal preocupação com a primeira vez continua lá, ou aqui. E ouvimos os mesmos: “Será que é o cara certo?”, “Será que tá na hora?”, “Será que vai ser especial?”, “O que ele vai achar de mim?”. 

Antes de começar a pesquisa com os adolescentes, entrevistamos também pessoas de várias gerações. Misturamos a seguir algumas falas. Será que dá para perceber a diferença de geração?

“Doeu, doeu absurdo.”
“Tava rolando e de repente... pop! Eu não era mais virgem.”
“Ficava naquele vai não vai e aquilo me estressava, um dia eu empurrei e foi! Assim mesmo.”
“Eu não pensei direito, se eu tivesse pensado melhor não rolava, entendeu?”
“Eu lembro do interfone tocando, da minha cabeça batendo assim na mesa de centro. Foi lindo.”

Sim, tem gente beijando aos 11, transando aos 12, mas é a exceção. A ideia do filme "Desenrola" é falar desse mundo todo que é a regra. E é inspirado em muita gente que acha que sua história não tem a menor importância, mas que quando volta àquele lugar, naquele dia, com aquela pessoa, acaba vendo que de alguma forma o comum sempre é singular. A Priscila, personagem do "Desenrola", é uma garota normal, tá na média, é assim, uma mistura de várias garotas normais de hoje, de ontem e da década de 80.

 

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