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por Ariane Abdallah
Tpm #91

Deixar filho em casa, faltar na academia, comer doce: culpa, a síndrome da mulher contemporânea

"O coração pesado, aquela sensação que dificulta a respiração. A culpa nos faz suspeirar mas o suspiro é apenas um alívio transitório. Se nos libertamos da culpa, sentimo-nos leves; mas leveza pode dar origem à leviandade, causa de nova culpa" (Moacyr Scliar, no livro Enigmas da Culpa)

 

Renata Tripoli trabalhava fora quando teve a filha. Culpa. Priscila malha só três vezes por semana. Culpa. Renata Corigliano de vez em quando perde a conta nas compras. Culpa. Regina é feliz apesar de o irmão ter morrido. Culpa. Tatiana estudou em colégio particular, mas colocou as filhas em escola pública. Culpa. Carolina vive do balé, embora seus pais tenham investido em sua formação intelectual. Culpa. Todas sentem falta de tempo para fazer mais coisas do que fazem – ou para fazer o que já fazem com a perfeição que gostariam. Culpa coletiva.

Você comeu demais ontem? Tem visto, pelo espelho, que o tempo passa também para sua pele? Não ligou para sua mãe? Seu filho está com febre? Se respondeu “sim” para alguma das alternativas provavelmente está se sentindo culpada neste momento. Como a maioria das mulheres. Se respondeu “não” para todas, também, já que estar em paz dá uma baita culpa.

Essa culpa por estar tranquila – seja se sentindo feliz consigo mesma, seja só tirando uma soneca num sábado à tarde – também aparece na top list feminina, como mostra uma pesquisa feita este ano pela Expedia (empresa especializada em viagens on-line). Nela, 40% das mulheres ouvidas, de diversos países, como Estados Unidos, Alemanha e Japão, sentem culpa ao tirar férias – em comparação a 29% dos homens, entre 9.349 pessoas entrevistadas.

“Mulher sente mais culpa que homem”, anuncia Mariana Schwartzmann, psicóloga da Unicamp. Ela conta que até para ir ao seu consultório e deixar o marido cuidando dos filhos já teve paciente que se culpou. Quando a reportagem da Tpm pergunta se já testemunhou o contrário, ela solta uma boa risada. Não à toa, a culpa é um dos ingredientes da depressão, doença que atinge duas mulheres para cada homem, segundo o Departamento de Psiquiatria da USP. E quando os homens se deprimem os sintomas são outros. “A tendência feminina é ficar com a autoestima baixa, culpada. Já o homem fica agressivo, culpa os outros”, esclarece Leila Tardivo, psicóloga da USP. Uma das origens dessa diferença é que as mulheres produzem mais estrógeno, hormônio vinculado às relações humanas, enquanto os homens produzem mais testosterona, hormônio ligado, entre outras coisas, à agressividade.

De onde vem?
Para esta matéria, a Tpm ouviu cerca de 30 pessoas, de ambos os sexos, e reuniu as seis mulheres que estão nas fotos para investigar os motivos e as maneiras de lidar com a recorrente sensação de que “poderíamos ter feito algo melhor”. Resultado: 100% da ala feminina disparava listinhas com itens que iam de deixar o namorado esperando enquanto terminava a conversa com a repórter até ter priorizado a carreira em vez dos filhos – esta última a principal culpa das mães na faixa dos 30 anos. “A mulher sai da maternidade com um bebê e um saquinho de culpa”, brinca a psicóloga Fátima Rato, da Unifesp.

 

Os homens precisavam de tempo para localizar a culpa em seus arquivos. E encontravam-na junto com “soluções” que os absolvia no julgamento interno. O advogado Benjamin Kulikowsky, de 30 anos, é objetivo no exemplo: “Eu me culpava por chegar tarde do trabalho. Então tive que fazer uma escolha: ou aceitava que não daria para ser de outro jeito ou organizava meu dia para chegar mais cedo”. Ficou com a primeira opção e encerrou o caso. Para uma mulher as coisas não são simples assim. Ela quer entender a origem, fica fissurada em saber o que desencadeou a sensação – enquanto o que interessa para o homem é resolver.

Penso, logo me culpo
Mas o que é a culpa? A resposta começa no cristianismo, que a chama de pecado e aponta a mulher como responsável por seu surgimento. Tá na Bíblia. “É através da Eva que a serpente induz o casal a comer o fruto proibido e, quando Deus anuncia que eles serão expulsos do Paraíso, diz que o homem vai ganhar o pão com o suor do rosto, e a mulher vai ter que dar à luz em meio à dor”, lembra o médico e escritor Moacyr Scliar, autor do livro Enigmas da Culpa. Para o sistema judiciário, culpa chama crime e é condenável. Para Freud, era psicologia, mas sempre relacionada à lei e à moral – portanto, assunto de homem até os anos 60, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho.

Já para a mulher contemporânea, a culpa é uma sombra que a persegue a cada tomada de decisão. O preço que pagamos pela suposta liberdade de escolher como viver a vida. Todas essas teorias e definições, porém, têm algo em comum: a culpa é um reflexo dos padrões sociais a que se pretende corresponder. E até hoje, grosso modo, a sociedade espera dos homens que tenham sucesso no trabalho; e das mulheres, que sejam boas mães.

Basta atualizar as listas com as demandas do século 21 para entender por que vivemos culpadas. De 20 anos pra cá, as mulheres foram premiadas com uma relação de cobranças tão numerosa quanto os comerciais de cosméticos, as modalidades de cirurgia plástica ou as revistas femininas que dão dicas para “apimentar a relação” e ficar jovem para sempre. A psicóloga Fátima Rato é especialista em adolescentes envolvidos com drogas e álcool e conta que, ao depararem com vícios dos filhos, as mulheres até hoje repetem o velho clichê: “Onde foi que eu errei?”, enquanto os pais mantêm um distanciamento: “O que está acontecendo com meu filho?”.

“O homem tem menos culpa porque acumula menos função”, defende a médica Priscila Huguet, que tem 34 anos e se culpa pela falta de tempo para fazer (mais) atividade física e passear (mais) com os cachorros. “Quero ver um cara administrar a rotina da empregada, das contas, da escola”, concorda a produtora Renata Tripoli, 39 anos. Ela abriu mão da carreira de publicitária para trabalhar em casa e ficar perto da filha, hoje com 8.

Renata fez uma opção porque faz parte da geração que já nasceu livre para casar, separar, ter filhos, ser independente. Ou nenhuma das alternativas anteriores. Tatiana Fonseca escolheu casar e ter a primeira das três filhas aos 21 anos. Hoje, se culpa porque, separada do marido, só se formou em gestão de RH aos 30. Priscila a consola por sofrer da culpa inversa: aos 34 anos, planeja congelar os óvulos para ter filhos mais pra frente, já que seu foco ainda é a medicina.

Justificativas à parte, há algum mérito em ficar se martirizando? Se não abrir o olho, a culpa vira uma zona de conforto, a serviço de manter uma situação, e não de resolvê-la. E a tendência feminina é se culpar sempre pelos mesmos motivos, um círculo vicioso que só tende a aumentar, uma vez que, em geral, a culpa não se baseia na realidade, mas em uma exigência externa de perfeição que, já sabemos, é impossível cumprir – e exaustivo tentar fazê-lo.

Sentiu uma culpinha surgir no fundo do seu peito ao ler esta reportagem? Então dá uma relaxada. Em vez de “ter que” ser uma supermãe, uma superprofissional, uma superfilha ou um protótipo de mulher maravilha, que tal ser simplesmente você e bancar fazer apenas o que te realiza de verdade? O clássico “e se eu tivesse feito de outro jeito?” é o motorzinho da culpa. O resto é desculpa.

 

Não é você, sou eu
Mulher se sente mesmo mais culpada que homem ou isso é um lugar-comum?

Por Ronaldo Bressane*

– Você não se comportou como uma boa menina?

– Sim. não fiz nada.

– Venha aqui, menina suja. Vou te dar uma lição!

– Não, por favor. Sim, sim!

[Gritos e murmúrios de prazer.]

“Você pode não saber por que bate, mas ela sabe por que apanha.” Essa frase de quinta e o diálogo de pornochanchada de sétima me vieram à cabeça quando pensei na culpa feminina. Clichezaços do cafajestismo brasileiro, estilhaços de uma moralidade que, na Tpm, parece mais ultrapassada que desculpa do Rubinho.

O machismo teria introjetado a culpa nas damas? Teriam as garotas desenvolvido novas expressões do peso na consciência? Culpa seria transmissível de mãe para filha? (Minhas tias judaico-cristãs provaram que sim, sadomasoquistamente vendo responsabilidade privada em desgraças coletivas, da inflação a Auschwitz.)

Resolvi experimentar a culpa: atrasaria a entrega deste texto. Escreveria com peso, imaginando as colegas da Tpm comendo a piz­za que o Paulo Lima amassou, sob as parcas luzes do fechamento. A cada frase digitada, sentiria os olhos de chicote da Renata Leão, a admoestar-me com críticas à minha falta de noção. Não rolou: o hábito de ser perdoado me fazia levitar os dedos no Mac.

Até os anos 60, os mitos de Eva e Pandora deduravam nas minas as minas dos males, eu conversava com minha namorada, filha de psicanalista. Ela lembrava: antes as mulheres se sentiam culpadas por desejar além de suas possibilidades; lhes era vedado sonhar. Hoje, mais que liberados como necessários os desejos, a mulher sentiria culpa por não atender às expectativas nela depositadas: mãe, gata, inteligente, gente fina, bem-sucedida e tesuda. Expectativas depositadas por quem? Homens, amigas, Freud, Facebook? Ou ela mesma?

Talvez as mulheres tenham de se mirar em nossos políticos, que jamais sentem culpa. O negócio é culpar a imprensa “nazista”. Desisto: ainda prefiro encarar uma moça transtornada com o Lancôme derretido da angústia a uma dama maquiada em óleo de peroba. Se deixarem de se sentir culpadas, que faremos com nossa submissa e covarde vocação para o consolo?

* Ronaldo Bressane, 39, é escritor, mas jura que a culpa é da mãe dele

 

Ouço vozes

 

Por Denise Gallo*

Era uma vez um dia livre. Vontade de ficar em casa, sem fazer nada. Mas talvez você devesse ir à academia se exercitar um pouco. Pensando bem, tantas exposicões legais e tão raro ter um dia livre. E sua avó, que você prometeu visitar? Mas, se for ficar em casa mesmo, vê se arruma aquelas gavetas! Para distrair suas vozes internas, você decide folhear uma revista. E a tortura prossegue…

A página, aberta aleatoriamente, diz assim: “transforme uma simples chuveirada em um ritual de beleza e bem-estar”. Mas por que uma simples chuveirada não pode ser uma simples chuveirada? Por que tudo tem que ser uma experiência maravilhosa, inesquecível? O que fazer com tanta expectativa? Na chuveirada e na vida? E, pior, o que fazer com essa verdade mentirosa que diz que tudo depende das suas escolhas? Do Mozart que, caso você escolha fazer seu bebê ouvir, o fará mais inteligente à soja que, caso você escolha comer, fará você viver mais. A perguntinha segue ressoando: será que você está fazendo a escolha certa?

A combinação do discurso da autonomia individual com ideais de vida sempre tão rigorosos pode ser muito boa para quem vende produtos, técnicas ou conselhos. Para quem está do lado de cá do balcão, é apenas um cercadinho travestido de liberdade, que gera falta e frustração. Você paga pela frustração de nunca chegar lá – até porque “lá” nunca estará no mesmo lugar – e ganha a culpa de brinde, ao duvidar das escolhas que fez.

Culpa, o pretinho básico
Curioso como a culpa tornou-se um lugar-comum nas representações do feminino contemporâneo. Falar da mulher, de uns tempos para cá, é quase sempre falar de múltiplos papéis e da culpa pela impossibilidade de exercê-los com perfeição. Na mídia e na publicidade, a culpa feminina é o tubinho preto, o must have. E funciona como o componente de sinceridade de um discurso que pretende ser mais verdadeiro. Que ganho pequenino. Sinceridade, mesmo, é dizer que a mulher sente tanta culpa simplesmente porque não é livre. Porque no picadeiro de mulheres malabaristas, trapezistas e equilibristas ainda não cabem outras escolhas ou reais imperfeições. A não ser por esta pequena, embora muito perturbadora, concessão: a culpa por não ser perfeita.

* Denise Gallo, 39, é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino: blog.umaauma.com.br. Seu e-mail: denise@umaauma.com.br

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Tpm+

De quem é a culpa?
O escritor e médico Moacyr Scliar virou uma espécie de especialista no tema ao escrever o livro Enigmas da Culpa. Investigou o significado da palavra culpa na história, na psicologia, na religião – e conclui: de fato, as mulheres têm mais intimidade com o assunto

Por Luara Calvi Anic

Tpm. Ao ler seu livro, pensei nas mulheres. A ala feminina parece que já nasce com culpa. Elas têm culpa de serem recatadas, promíscuas, de não estarem presentes no lar enquanto trabalham e, principalmente, sentem culpa de não ser boa mãe. Por que isso acontece?
Moacyr Scliar.  Segundo a tradição judaico-cristã é através da mulher que a serpente induz Adão e Eva a comerem do fruto proibido e, quando Deus anuncia que eles são expulsos do paraíso, diz que o homem vai ter que ganhar o pão com o suor do seu rosto, e a mulher vai ter que dar à luz em meio a dor. Ela ainda continua com essa estigma de ser a grande tentadora.

E você acha que as mulheres sentem mais culpa do que os homens?
Meu palpite é de que sim. Inclusive pelo fato de que a culpa é muitas vezes um recurso da natureza. Quer dizer, um pouco de culpa provavelmente ajuda a mulher a ser melhor mãe, a cuidar mais dos seus filhos.

Por que a mulher sente mais culpa que o homem?

Numa entrevista a J.L.Servan-Schreiber declarou a famosa escritora americana Susan Sontag: “Mulheres são educadas para serem masoquistas, para sofrer. Elas são condicionadas moral e psicologicamente para não usarem plenamente sua liberdade.”

A depressão pós-parto, por exemplo, tem a ver com culpa?
Toda depressão tem alguma coisa a ver com culpa. É uma auto-punição. Então considerando que muitas vezes esse nascimento não é desejado pela mãe, não é de se admirar que a culpa gerada por ele se transforme numa depressão.

Pedir desculpas também parece uma característica bem feminina. Elas pedem desculpas por não terem sugerido o restaurante que agradou a todos, porque a geladeira está vazia, pela falta de tempo.
Como a mulher está sempre aflita, no sentido que ela tem que contentar o homem, prover satisfação e bom-humor, não é de admirar que quando alguma coisa não dá certo, se sinta culpada e tenha que pedir desculpas.

Pensando em toda a liberdade que as mulheres conquistaram até agora, parece que, de algum modo, elas acabam continuando presas a uma culpa de ter que fazer tudo que se propõem a fazer hoje – e ainda da melhor forma. Assim, a culpa parece uma forma de prisão também.
Exatamente. É uma coisa que distorce, que restringe a sua liberdade. A maior parte da culpa que se sente não corresponde a uma razão específica. É uma coisa imaginária, uma fantasia.

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