Da parede tenho ouvido
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Sabe aquela expressão “ah, se essas paredes falassem!” Pois é, aqui em Nova York elas falam. Às vezes sussurram, gritam ou até espirram. Acredite, você despeja o seu salário e mais um pouco no aluguel de um apartamento, para viver rodeado por paredes de papelão. Para colocar um poster, basta enfiar tachinhas numa tacada só. Quem usa prego, corre o risco de invadir a casa do vizinho. Não sei como é viver em palafitas, mas a sensação deve ser parecida.
Mês passado minha vizinha de porta faleceu. Era uma senhora ultra simpática, sempre nos cumprimentávamos no corredor, no elevador, na portaria. E eu sempre olhava para ela e pensava: “será que ela é simpática demais a ponto de não reclamar da altura da minha música francesa, árabe, vietnamita?” Se bem que no meu prédio, construído há mais de cem anos, as paredes são de concreto. Não se escuta nada na casa alheia.
Ou quase nada. Lembro de um casal que vivia do outro lado. Ela israelense, ele chinês. Nunca dei nada por ele, um cara fraquinho, calminho, na dele. Designer gráfico. A gente se encontrava na laundry, ali, dobrando as roupas. Porém, contudo, todavia, depois da meia-noite ele devia fazer maravilhas: a israelense gritava e muito – e pior: nunca antes das três da manhã. Considerando que em muitos prédios da cidade o hobby dos mal amados é chamar a polícia para acabar com a festa alheia, aquele casal tinha sorte. A galera do meu andar é do bem e pró-amor. Mas a turma agradece se tudo rolar antes das três da manhã.
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