Com você na aula de ioga

por Milly Lacombe
Tpm #111

Domar seu temperamento inquieto não é tarefa para simples mortais

Você diz que quer ir comigo à aula de ioga. Fico radiante; faz meses que, sem sucesso, tento fazer você se interessar.

Até hoje, você sempre negou o convite alegando que não tem paciência para esse tipo de coisa, que não consegue ficar 5 minutos quieta, que não é flexível, que não quer sentir dor. Tento explicar que todos esses são motivos para fazer ioga, mas você sempre deu os ombros.

Nesse dia de lua cheia, animada, você coloca uma calça colada ao corpo, uma camiseta larga e eu, muito empolgada com o que vejo, digo que você está linda.

Em seguida, você pega o colchonete extra que comprei para essa improvável ocasião e se coloca diante da porta.

Nessa hora, entendo que levar você para a aula talvez não seja uma boa ideia. Suas roupas são de ioga, mas sua postura é de karate.

Juntas, vamos andando até o local da aula, que é bastante perto de casa. Ao entrar, você é saudada por todos como um astronauta que retorna à Terra, e então me lembro que a aula foi ideia de amigas suas e que, apesar disso, apenas eu acabei me juntando ao grupo.

Enquanto aceita os cumprimentos, faz algumas considerações a respeito da próxima hora: “Não vou fazer a série inteira, já aviso”, “meu pulso está doendo demais, vou pular algumas posturas”, “a gente vai fazer a aula aqui? Mas esse lugar é muito apertado...”.

A boa notícia é que estamos entre amigas que conhecem você há algum tempo e que, portanto, já estão familiarizadas com sua incontrolável e ingovernável sinceridade.

Sorrateiramente, dou alguns passos para o lado, coloco meu colchão no canto oposto da sala e peço aos céus que tudo corra bem.

Inspira, expira
A aula começa e você vai tentando, como pode, fazer as posturas. Geme aqui e ali, mas parece estar concentrada em seguir. Finalmente, me acalmo e encaixo a respiração – parece que será sem traumas.

Justamente nessa hora vejo você andando a esmo pela sala. O que teria acontecido? Percebo que você está indo tomar água, alheia a uma regra básica da prática: nada de água durante as posturas.

Afundo a cabeça e me entrego à posição em que estou, torcendo para que ninguém veja você indo beber água. Mas o professor é o primeiro a flagrar.

– Opa, opa. Aonde você tá indo?

Você faz cara de poucos amigos.

– Beber água, ué.

– Não, não. Nada de água ainda.

Você me encontra no fundo da sala e lança um olhar furioso, como se a culpada fosse eu. O problema do seu olhar é que ele é tão determinado e certeiro que imediatamente acredito que a culpada sou eu. Abaixo o tronco e encosto a cabeça no chão, movimento que jamais havia conseguido fazer antes.

– Nossa, não pode água? Que que é isso! Quantas regras! – diz você para quem quiser ouvir. Todos fingem que não escutaram.

Você volta para o seu lugar, e o professor, que parece querer rir, passa algumas outras posturas enquanto você resmunga, provavelmente ainda a respeito da água, ou da falta dela.

Tudo parece ter voltado ao normal, até você iniciar os movimentos de solo e, sentada, olhar para cima: “Esse teto sempre foi assim?”. Ninguém sabe com quem ou do que você está falando, talvez nem você. Por isso, não há resposta e eu me afundo em mais uma postura.

Como não há resposta, você direciona a pergunta usando um vocativo: “Giovanna, era assim esse acabamento do teto?”. Giovanna, a dona do espaço, toda contorcida naquela que deve ser a posição mais difícil da rotina, consegue, num gesto digno de integrante do Cirque du Soleil, balançar a cabeça afirmativamente.

Você, em lótus, não parece conformada com a resposta e continua a encarar o teto tentando descobrir o que teria mudado.

Como é novata, sua prática é mais curta e termina antes da nossa. Nessa hora, você se levanta e vai sentar ao lado da pobre Giovanna, que agora está meditando, para falar um pouco mais a respeito do teto da sala. Eu, que estou bem perto de vocês, finalmente me manifesto baixinho:

– O que você está fazendo? A aula não acabou!

Naturalmente, eu deveria ter imaginado que o fato de cochichar não faria com que você respondesse no mesmo tom.

– Por quê? Não pode falar na aula de ioga? – você parece extraordinariamente surpresa com a necessidade de silêncio meditativo em uma aula de ioga.

Inconformada com tantas regras, vai se sentar sobre o colchonete e consegue, por 5 minutos, ficar quietinha – ainda analisando o acabamento da sala.

Aquilo que mais amo
Domar seu temperamento inquieto não é tarefa para simples mortais. Eu, que dedico tempo à arte há seis anos, ainda estou longe de me graduar na função. E, olhando em volta, sei que sou a pessoa que mais se aproxima de um bom domador de você.

Andando para casa, você diz que adorou a aula e que está se sentindo maravilhosamente bem, revelando outra de suas adoráveis qualidades – a capacidade de surpreender: um amador poderia jurar que, na saída, você declararia guerra aos iogues do mundo.

Mas você é imprevisível. E ingovernável. E incontrolável. E, muito por tudo isso, absolutamente apaixonante.

Ainda andando, olho para o lado e vejo seu rosto corado pelo esforço da última hora, o cabelo despenteado, a roupa amassada – você nunca esteve tão bonita. Deixo minha mão encostar à sua e, como sempre faço, agarro um de seus dedos. Você sorri, e, em seu sorriso, entendo que estou fazendo aquilo que mais amo na vida: voltando para casa com você.

A carioca Milly Lacombe, 44 anos, é jornalista. Seu e-mail: millylacombe@gmail.com

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