por Antonia Pellegrino
Tpm #154

E por que sinto orgulho, mas também vergonha de parte do neofeminismo

Estávamos próximos à Lagoa Rodrigo de Freitas, meu pai conduzia seu Volkswagen e eu estava sentada no banco do carona, tinha aproximadamente 10 anos. Passávamos pela bifurcação entre Epitácio Pessoa e Borges de Medeiros, e, no rádio, uma mulher desenvolta e assertiva falava. Sobre seu tom empoderado, ele disse: "Acho isso um horror".

Do banco do carona, com a pulsação do coração na garganta, entre a confortável proteção do pai e sua desagradável sombra, eu disse: "Eu não, eu quero ser como ela". Após alguns instantes de silêncio, escutei: "Você tem razão".

Meu primeiro ato feminista. De uma prática existencial libertária que marca alguns de meus roteiros, como o do longa-metragem Bruna Surfistinha e da série Oscar Freire 279, ambos protagonizados por prostitutas que se deslocaram de um lugar de objeto de desejo masculino para uma posição empoderada de sujeito, na medida em que exerciam de maneira desejante sua profissão.

Em Oscar Freire, exibida em 2011 pelo canal Multishow, fizemos o primeiro beijo (e transa) gay da TV brasileira, protagonizado pela minha colega de coluna Maria Ribeiro e pela atriz Carla Ribas. A personagem de Carla, separada do marido, ia ao encontro da filha em São Paulo e conhecia uma de suas amigas, Rita (Maria Ribeiro), que defendia sua tese do lesbianismo como forma de relativizar a centralidade do pau/homem na vida da mulher contemporânea, sobretudo da mulher madura, que é vista com desinteresse no jogo da sexualidade brasileira, ainda hoje regido pela lógica machista.

A crítica

Utilizei inúmeras vezes o espaço desta coluna para, ao longo da última década, narrar uma vida em ato de livre exercício da vontade feminina.

Hoje vivemos um renascimento potente do feminismo, e não só podemos como devemos comemorá-lo. Mas não sem crítica. Já me deparei inúmeras vezes no Facebook com postagens e comentários de feministas reclamando para si o direito exclusivo de falar sobre a mulher, retirando dos homens, e de certas mulheres-homens sociais, a palavra.

Acho não só democrático como necessário compartilhar o sensível, reembaralhar papéis sociais, abrindo lugares de fala para quem, até então, não tinha voz. Mas, nesta disputa de protagonismo e poder de representação, não se pode por princípio deslegitimar o homem nem tentar rebaixar a posição da mulher empoderada, como se, pelo fato de não viver em situação de abuso e machismo cotidiano (porque herdou e construiu um espaço de poder para si), não tivesse o direito de falar sobre outras mulheres.

Não é preciso ser puta para falar sobre puta, ser preta para falar sobre preta, ser mulher para falar sobre mulher. Não deve ser a identidade a definir autoridade, sobretudo em um movimento que quer ser libertário.

Antonia Pellegrino, 35 anos, é roteirista e escritora. Autora do livro Cem ideais que deram em nada e ganhadora do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo roteiro do filme Bruna Surfistinha. Seu e-mail: a.pellegrino@terra.com.br

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