em 9 de junho de 2009
De Costanza Pascolato a Dudu Bertholini, passando por Alexandre Herchcovitch, os fashionistas se curvam a Christine Yufon. Modelo famosa na década de 50, ela mostrou com quantos passos se faz uma postura ereta pra muita mulher da classe alta paulistana. Chinesa de coração brasileiro, ela ensina etiqueta e postura pessoal até hoje, baseada nos princípios do taoísmo
Christine Yufon está apoiada sobre os seus dois pés. É claro, pensa o leitor. Acontece que nem todo mundo sustenta o próprio corpo tal qual Christine. Conhecida modelo na década de 50, essa chinesa que não revela a idade – mas já passou dos 80 – se fazia de escultura na passarela. Não que ficasse imóvel. Por causa dos graciosos movimentos, era como se esculpisse o próprio corpo ao desfilar. “Era uma modelo muito elegante, com uma linguagem corporal ultrassofisticada”, comenta a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato. “Faço escultura, então posso ser uma escultura na passarela. Qualquer um pode ser uma escultura quando anda”, explica.
Apesar do trabalho como artista – com exposições no Masp e na China –, seu currículo na moda é tão longínquo quanto a postura que sustenta seu 1,68 metro. Nascida em Pequim, casou com um engenheiro francês, mudou para Paris e, com filho e marido, migrou para o Brasil – onde nasceram duas filhas. Hoje tem seis netos. Desde que partiu da China (em 1948, em meio à chegada do comunismo), só voltou três vezes ao país.
Modelo de vida
Autodidata, nunca teve uma educação formal além da escola. Por aqui modelou para a CasaVogue (famosa maison da década de 50) e para a estilista Maria Augusta Teixeira, a convite de seu assistente, Denner (mestre da alta-costura nas décadas de 60 e 70). Na França, escolheu Jacques Heim em vez de Givenchy – que também a cobiçou – para fechar um contrato.
Christine recebeu a Tpm vestida de preto e com a característica maquiagem que é retocada a cada manhã – há anos. Os olhos são unidos à sobrancelha por uma sombra preta. A pele é lisa, branca, e a boca bem marcada por um resto de batom vinho. O colo, magro e aparente, dá certa sensualidade a essa mulher que, depois da morte do marido, há 30 anos, nunca mais pensou em casar “porque, quando você casa, você dá tudo”.
Não só no casamento, mas na vida, Christine sempre deu tudo de si. Na juventude, depois de dez anos trabalhando como modelo, virou referência de mulher elegante da São Paulo sessentista. Foi professora de etiqueta e postura pessoal para debutantes, misses e alunos do Clube Paulistano. Ensinou a alta classe da cidade (incluem-se aí três gerações da família Safra), políticos, primeiras-damas e apresentadores de TV, como Xuxa. Clodovil era seu amigo. “Ele chegou a São Paulo e veio me procurar. Era meu fã”, lembra. Há 40 anos, dá aulas frequentemente. Suas peças são habituées dos ensaios de moda das revistas. Seu livro, Toda Mulher Pode Ser Bonita, best-seller nos anos 90, continua na lista dos bem vendidos das livrarias. E ela acaba de ser convidada pela Swarovski para criar uma peça para a joalheria.
É uma espécie de avó inspiradora para os fashionistas. No início deste ano, foi homenageada no SPFW – modelos desfilavam com suas bijuterias, ou “esculturas para vestir”. Amiga de Dudu Bertholini, estilista da Neon, suas criações podem ser vistas nos desfiles da marca ou complementando roupas de Alexandre Herchcovitch.
Seu português sem artigos, que a cada frase se mistura ao inglês, é marcado pelo sotaque chinês. “Nunca fui boa com línguas. Meu corpo fala muito mais”, diz. Seus dois pés, nada bambos sobre o chão, são o reflexo desse equilíbrio que ela tenta passar aos alunos. “Nunca desprezo a personalidade de um aluno. Só ajudo a encontrar o equilíbrio, o yin e o yang.” Com vocês, a manequim mais fina do Brasil.
Tpm. A senhora é uma espécie de ídolo para os fashionistas brasileiros. A Costanza Pascolato me disse que sua postura sempre chamou muita atenção nas passarelas. Por quê?
Christine Yufon. Faço escultura, então posso ser uma escultura na passarela. Olhava pra frente, puxava o corpo pra cima. Qualquer um pode ser uma escultura quando anda. A cada desfile dava tudo de mim, fazia mais do que podia. Acumulava toda a minha energia na passarela. Quando voltava, tremia, ofegante. As pessoas perguntavam o que tinha acontecido. É que eu me entregava, não só ia e voltava. Vivia a roupa, dava alma para o figurino.
Se lembra de algum desfile em que tenha feito uma performance diferente? Cada vez que participo, invento algo especial. Gosto de criar alguma coisa que dê um pouquinho de emoção, surpresa. Que encante. Teve uma vez que desfilei usando um guarda-chuva. Quis mostrar como usá-lo de bengala. No meio da passarela joguei o guarda-chuva fechado para a plateia. Tento dar um toque de magia, provocar emoções, sentimentos. Senão, fica tudo muito monótono. Sem emoção as coisas ficam sem cor, sem graça.
E como era vista pelo meio da moda? Minha roupa sempre foi muito simples. Tinha que ajudar a sustentar minha família, meus três filhos. No começo era vista como uma coitada que não tinha dinheiro nem para fazer a unha. Trabalhava [como modelo e dando aula de postura para debutantes e misses], voltava pra casa, pegava o avental e ia para a cozinha. Quando não estava na passarela ninguém olhava para mim. Mas quando entrava… enchia o lugar, não deixava ninguém passar sem olhar.
Como vê a moda hoje? Hoje você pode usar tênis com black tie e isso pode até ser interpretado como algo kitsch. Mas tem que ser kitsch com certa sensibilidade. Não é qualquer um que consegue misturar coisas e ficar bom. Misturar tudo é um grande talento, mais difícil do que usar uma combinação clássica e correta.
E como fazer uma mistura dar certo? Antes de mais nada, é preciso estar de acordo com a personalidade e com a proporção do seu corpo. Porque se a proporção estiver errada é difícil. As pessoas, quando ficam tristes, gastam muito dinheiro com roupa. Aí qualquer coisa que colocam não tem individualidade. Ficam todas bonitinhas, chiquezinhas e só isso. O chique é bonito, lógico, mas não é suficiente. É preciso ter personalidade e saber carregar aquela roupa. Aí, pode usar qualquer coisa, até trapo.
O que acha das modelos hoje em dia? Coitadas dessas manequins, não deixam elas fazerem nada na passarela, só andarem como uma máquina, um robô. Todas têm o mesmo movimento, a mesma coisa. Isso limita a sensibilidade, a criatividade. No meu tempo não eram esses movimentos duros. A Gisele [Bündchen] tem alguma coisa diferente e consegue impor a sua presença, o resto é tudo igual.
Como começou a modelar no Brasil? Quando cheguei aqui, meu marido era um engenheiro procurando trabalho e nós só tínhamos 20 mil [dólares], que logo acabariam. Estávamos há seis semanas no Brasil e um amigo dele, do Rio, sugeriu que eu pintasse panos de prato com motivos orientais. Na época era muito raro esse tipo de pintura por aqui. Eu ainda não falava português, era pesado pra mim. Tentei pintar os panos e, quando fui apresentá-los aos donos da Casa Canadá [maison carioca], eles nem quiseram ver. Me olharam e disseram: “Bota uma roupa nela!”. Me vestiram, então, com uma cópia de algodão de um modelo de Christian Dior. Então disseram: “Aqui tem uma chance de manequim!”. E eu só pensava que precisava ganhar dinheiro… Quiseram assinar contrato, mas aí eu teria que morar no Rio e minha família estava em São Paulo… Mas foram eles que me deram a ideia de trabalhar com moda. Chegando a São Paulo fui procurar emprego na Casa Vogue. Me contrataram e trabalhei lá por quatro anos.
Eles a convidaram para ser modelo da loja? Quiseram fechar comigo porque naquela época eu tinha 20 e poucos anos e era muito bonita. Era o começo das modelos étnicas na passarela [década de 50]. Antes, só colocavam as brancas. Christian Dior, que era o top of the top da moda, foi o primeiro a usar mestiças, meio chinesas, meio russas, em seus desfiles na Europa. Minha chance apareceu justamente nesse momento. No Brasil, fui a primeira modelo com essa aparência étnica. Agora o étnico está na moda. Antigamente não tinha isso.
Onde nasceram seus filhos? O primeiro [Roger, hoje com 61 anos] nasceu na China e as meninas [Lea, 57, e Nicole, 45], no Brasil. Somos todos brasileiros de coração. Sou grata porque o Brasil me deu tudo, me deu paz mesmo eu sendo amarela, chinesa. Mas, quando a China joga futebol com o Brasil, prefiro nem assistir [risos].
“Sou a favor de tudo que te deixa melhor. Só não vale trocar de cara, mudar a personalidade.
Não queira ser a Madonna!”
A senhora saiu da China e foi morar na França com o seu marido. Depois migraram para o Brasil. Como retornou mais uma vez a Paris e trabalhou como modelo? Isso foi em 1960, estávamos com dinheiro e meu marido me levou com nossos filhos para viajar e aproveitar a vida em Paris. Quando cheguei lá, já era conhecida aqui. Então, pensei: “Por que não aproveito essa oportunidade para trabalhar como modelo?”. Meu marido nos ofereceu essa viagem para passearmos e, no terceiro dia, eu já tinha visitado três pessoas da moda. Depois disso, como castigo, ele nunca mais me deu uma viagem porque eu arruinei nossas férias [risos]. Quem me ajudou foi a mais famosa agente de manequim na França. Ela se chamava Lucky e já faleceu. Faleceu de… como é que chama quando a gente não come e quer ser magro?
Anorexia? Isso! Ela já conhecia meu trabalho no Brasil e me indicou três estilistas: Jacques Heim, Givenchy e Pierre Cardim. Com o Pierre Cardim não consegui marcar entrevista porque ele não estava. Chegando na Givenchy, no primeiro dia em Paris, eles olharam pra mim, pediram para eu andar e disseram que estavam com o quadro de modelos completo, que não tinham mais lugar. Mas pediram para eu deixar meu telefone. Quando me apresentei ao Jacques ele me chamou na hora para assinar um contrato de uma estação. As roupas eram feitas de acordo com a manequim. Não se podia usar outra para uma mesma estação. Ele me ofereceu seis meses de contrato e eu disse: “No máximo, dois ”. Tinha que voltar para o Brasil por causa dos contratos com a high society de São Paulo – na época, a Casa Vogue e as aulas para as misses e debutantes. Ele disse: “Eu quero você”. E eu só queria ter essa experiência e provar que eu podia trabalhar na Europa. Fechamos um acordo de dois meses e quando eu saísse ele buscaria outra manequim, étnica também.
E a Givenchy? Uma semana depois, quando eu já tinha assinado o contrato, voltei para a pensão e a Givenchy tinha ligado e falado com o meu marido. Tinham um lugar para mim, mas não pude assinar um contrato porque seria de seis meses e eu já tinha fechado com Jacques. Mas tenho satisfação por ter sido chamada pela Givenchy. Quando cheguei em casa meu marido disse: “Assinou contrato não é mais para tirar. Você já está ocupada”. Fiquei dois meses e voltei para o Brasil com meu marido. Não podia deixar minha família e ficar pendurada por seis meses na França. Poderia até ter mandado meu marido voltar com as crianças. Mas sempre quis fazer tudo certo. Mesmo assim, muitas vezes eles lembram de algumas situações em que eu não estava presente por causa do trabalho…
E isso a incomoda? Tudo o que eu podia fazer eu fiz. Fiz comida, cuidei deles quando ficaram doentes. Sacrifiquei muito as minhas coisas por ser uma pessoa focada no trabalho e na família. Manequins viajam e trabalham fora, na hora de voltarmos para o hotel eu sempre escolhia pessoas caretas para dividir o quarto. Sempre fazendo as coisas direitinho. Meu marido era um homem muito legal, fico me perguntando como é que ele me aguentou… Sempre tentei cumprir minhas responsabilidades com a família e com o trabalho. Tentei ser justa, mas não sou perfeita.
A senhora ficou casada por 40 anos, até seu marido falecer. Por que está ficando raro um casamento durar mais que uma década? Porque não tem paixão que sustente um casamento. Por isso é preciso os dois lados: amor e paixão. Ninguém aguenta viver só de paixão. A paixão é como um eclipse e o casamento é como a Lua e suas fases, tem altos e baixos.
A senhora presenciou toda a mudança de comportamento pós-feminismo. Acha que hoje homens e mulheres têm de fato a mesma liberdade? Ainda estamos num mundo masculino. Mesmo assim, você pode ser muito feminista. E feminina. Se os homens têm mais vantagem, as mulheres têm uma sensibilidade e um lado maternal que é mágico. Por exemplo, elas podem silenciosamente dominar um casamento. Muitas vezes é melhor deixar o homem achar que está com a razão e ficar em paz. Silenciosamente deixá-lo com a razão.
E no seu caso, como a senhora fez para, silenciosamente, “dominar” seu casamento? Casei com um homem mais religioso [Georges era católico], que não queria saber de vida social. Então nós não tivemos muitos problemas, pois acabava fazendo minha vida social lá fora, como modelo. Tenho saudade do modo como ele me aguentou…
“Se alguém me perguntar quanto, afinal, vale a vida, eu respondo: ‘O valor que você dá a ela’”
Ele se incomodava com o fato de a senhora trabalhar muito, viajar etc.? Uma noite ele ajoelhou no meu pé e pediu para eu parar: “Não quero você trabalhando nunca mais. Quero que você pare. Basta! Eu sustento, quero você mais em casa. Chega de trabalhar à noite, sábado e domingo… ”. Já tínhamos brigado tantas vezes por isso, que dessa vez eu disse: “Papai (ele era dez anos mais velho do que eu), você pedindo desse jeito eu paro. Mas vou morrer por dentro”. Ele ouviu e disse para eu continuar trabalhando. E foi com o trabalho que comprei esta casa, com ele. Por isso o Jacques Janine, meu amigo, quando vê qualquer homenagem para mim, chora sem parar.
A senhora sempre usou esse tipo de maquiagem? Quando era mais jovem não usava tanta maquiagem, não sei como cheguei a esse ponto [risos]. Como estou velha, saem as rugas… Então tento dar uma maquiada. Eu sei que é over, mas é o meu natural. Surgiu muitos anos atrás, quando um maquiador que não me lembro o nome fez pela primeira vez e foi o maior sucesso… É uma fantasia na verdade.
E por que a senhora usa essa fantasia? Eu sou uma fantasia. Quando chega um ponto que tudo está caindo, então tem que maquiar. Gosto de um rosto clean, mas quando se é mais velha não dá… Sou a favor de tudo que te deixa melhor. Só não vale trocar de cara, mudar a personalidade. Não queira ser a Madonna! Algumas características físicas revelam o caráter de cada pessoa. É esse tipo de coisa que eu falo para as minhas alunas. Elas dizem: “Ah, não gosto disso”. Eu digo: “Mas é isso que define sua personalidade, se você tirar fica igual a todo mundo”. As bocas de hoje são todas iguais! Se você tem um nariz de que não gosta, pode corrigir um pouquinho, mas não precisa exagerar.
Como a senhora encara o envelhecimento? Peço para que possa andar, que minha cabeça funcione. Não tenho mais tanta memória como antes, as palavras não vêm tão facilmente, mas minha cabeça está muito ativa em criatividade. Quero me manter forte para cumprir com todas as minhas responsabilidades. E ainda cuidar das pessoas.
Sente medo da morte? Não. Estou pronta. Sei que a morte é o fim da vida material, mas o começo da espiritual. E, se alguém me perguntar quanto, afinal, vale a vida, eu respondo: “O valor que você dá a ela”.
A senhora planejou se tornar artista? Acho que nasci artista, tudo que fiz foi sempre na direção da harmonia estética, sempre com um grande lado espiritual. Nunca tive aula de nada, mas tenho uma boa sensibilidade. Sou uma artista por natureza. E sou muito feliz por minha vida.
Como a senhora pratica o taoísmo no dia a dia? Minha filosofia é totalmente taoísta, mas minha religião é católica. Para mim o taoísmo é uma filosofia de equilíbrio e harmonia, o yin e o yang. Nasci em uma família de protestantes, mas vivi muito a tradição budista. Me sinto bem com essas filosofias orientais, pois estão fora de todo o mundo material, incentivam uma vida espiritual e a meditação.
Do que a senhora tem saudade? [Silêncio de 30 segundos] Ainda tenho um pouquinho de saudades da China. Do meu país natal. Não totalmente, porque me sinto muito brasileira. O Brasil é meu segundo país. Não considero bem saudade, apenas não sou completamente desligada de meu país natal. Por isso sempre acabo colocando em minhas esculturas as mensagens e os símbolos dos meus 5 mil anos de raízes.
Depois que seu marido morreu, na década de 70, a senhora nunca mais namorou? Não. Olha, eu tive várias chances para casar de novo. Mas acredito que não sirvo mais pra casar. Porque, quando você casa uma vez, você dá tudo. Agora vem alguém me encostar, não posso aguentar.
Quando a senhora mudou para o Brasil com o seu marido, acha que começou a amá-lo de um jeito mais latino e menos oriental? Amar é universal. Os sentimentos são iguais, a forma como se expressam é diferente. Uns são mais discretos, outros, menos. Ocidentais mostram tudo, até não ter mais valor. Já estão fazendo liquidação do corpo… Os chineses têm muito o lado sensual e uma aguda sensibilidade. Temos muito mais livros eróticos do que vocês… Podemos amar ainda mais, mas não demonstramos.
A senhora estudou em escola americana e, com 7 anos, falava inglês e mandarim. E o português, aprendeu com professor? Nunca foi fácil para mim falar qualquer língua. Penso em muitas – português, inglês, chinês – , mas é difícil para eu me expressar em qualquer uma delas. Até hoje não aprendi o português. Quando dou aula, falo desse jeito [uma mistura de inglês e português com sotaque chinês]. Mas meu corpo fala muito mais. Minha expressão corporal já mostra o que os alunos precisam aprender. Por que você acha que todo mundo vem ter aula comigo? Não é para aprender português.

Como é a Christine professora? Sou rígida, exijo muito, mas amo meus alunos. Me sinto muito menos, e por isso eu posso transmitir um pouquinho mais. Quando você se sente menos, você é mais.
Como é a sua aula? Ajudo as pessoas a sustentar suas vidas no caminho positivo. Quando as alunas chegam eu pergunto: “Você é casada, descasada, chutada, chutou muito?”. Porque tudo é bagagem. Às vezes você foi muito chutada e se torna mais forte. Nossos erros e conquistas servem de bagagem para irmos pra frente. Na aula passo a minha experiência de vida e os alunos aproveitam.
Como é a sua rotina? Domingo vou à igreja. Aos sábados, almoço com minhas filhas e, sozinhas, temos conversas de mãe e filha. De manhã peço para minha secretária não marcar programas, pois trabalho no escritório. Gosto de estar presente em tudo da melhor maneira. Como faço acessórios de moda, qualquer hora do dia ou da noite os produtores me ligam pedindo socorro. Querem peças para os ensaios fotográficos. Quase todos os dias tenho aula marcada. Antigamente tinha três turmas por dia. Hoje só aceito um grupo, além das aulas particulares. Depois das cinco da tarde, penso: “Quero ficar em paz”, e não marco mais nada.
A senhora pensa em parar de trabalhar? Não. Se não trabalho, penso que perdi um dia na minha vida. Ouço as pessoas falarem: “Férias, que maravilha!”. Férias me deixam triste. Gosto da minha rotina, do meu trabalho, da minha vida como ela é.
É um pensamento bem chinês, não? Bem chinês. Não entendo quando as pessoas falam de férias, não tenho férias, não gosto de férias.
A senhora tem amigos da sua idade? Tenho, mas a maioria é da sua idade. Por exemplo, o Dudu [Bertholini, 29 anos]. Meus netos são amigos dele e ele é meu amigo também. Não é necessário ver os amigos todos os dias. Às vezes você só vê duas vezes na vida, mas aquelas duas vezes podem ser suficientes para deixar uma marca.
Por que o Dudu gosta tanto da senhora? Ele disse que me ama e eu amo ele. Dudu tem os dois agás – de humildade e humanidade. Com toda [faz um gesto que lembra extravagância], no fundo ele é muito puro. Não sei por que ele gosta tanto de mim, é um amor entre avó e neto.
A senhora ficou com os olhos lacrimejantes. Chora com frequência? Faz parte da minha rotina meus olhos lacrimejarem. Sou muito emotiva. Fico emocionada com felicidade, tristeza, com o outro. Tristeza é quando vejo na televisão coisas que cortam meu coração, como tantos desastres e a crise mundial.
Qual a lição mais preciosa que a senhora ensina para suas alunas? Nunca jogar sua personalidade fora. A pessoa não pode perder a essência. Ensino a encontrar o equilíbrio não só em passarelas, mas na vida. Uma postura equilibrada pode mudar a vida. Quando percebo que alguém está desequilibrado eu digo: “Volte, volte para si!”. Puxo a orelha mesmo. Está tudo lá, não está fora, é só equilibrar.
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