por Fernado Luna
Tpm #108

Fernando Luna questiona a ansiedade e as soluções mágicas para o problema

 

 

Olha como são as coisas.

O homem abandona a vida de príncipe, encara o sofrimento do mundo, entrega seu corpo às piores mortificações, arregimenta uma penca de seguidores, troca todos eles por uma cumbuca de arroz, cisma embaixo de uma figueira, escapa da conversa torta do demônio, atinge a Iluminação, vira o Buda, ensina o caminho do meio por mais 45 anos e, enfim, alcança o Nirvana.

Aí, 2.500 anos e 375 milhões de seguidores depois de tudo isso, vem um gaiato e escreve um livro chamado Como Virar Buda em Cinco Semanas. Em cinco semanas! Ora, para que perder tempo com as meditações, os rigores da vida monástica, os retiros espirituais, os mantras repetidos e repetidos e repetidos? Esquece a serenidade: pouco mais de um mês e, pimba!, tá resolvido. As árvores vão florescer à sua passagem.

É muita ansiedade. Ninguém mais aguenta esperar por coisa alguma. Satisfação imediata ou seu desejo de volta. Demorou? A fila anda. Os casamentos são vítimas comuns dessa correria emocional. Taí o IBGE, que não me deixa mentir: o número de uniões e de separações está aumentando. Uma coisa leva a outra, cada vez mais rápido, e depois da separação vem outra união. Assim surge um novo pilar na estrutura da gloriosa família brasileira – a jovem madrasta.

A reportagem “Madrasta antes dos 30” revela, a partir da página 54, a experiência de mulheres de 20 e poucos anos que, quando se deram conta, estavam casadas e com filhos – filhos da ex-mulher do marido. Muitas vezes, com mais ou menos a mesma idade delas. “Foi como se eu estivesse conhecendo uma amiga”, lembra a designer gráfica Gabriela Juns, 25 anos, recordando o primeiro encontro com sua enteada, Alana, 22 anos.

É uma relação complexa, às vezes perturbada por ciúme e competição. Aqui na Tpm, em vez daquelas soluções mágicas que abarrotam as bancas de revistas, você encontra histórias que iluminam a questão – e ajudam a formar suas próprias conclusões. Se não for assim, melhor apelar logo para outro livro, aliás da mesma editora que nos brinda com o tal curso relâmpago de transcendência: O Que a Baleia Shamu Me Ensinou sobre Vida, Amor e Casamento.

Fernando Luna, diretor editorial

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