por Ariane Abdallah
Tpm #112

Aos 26 anos, o filho de Gilberto Gil até pensou em ser geógrafo mas, claro, virou músico

Filho de Gilberto Gil, ele até pensou em ser geógrafo, mas, claro, virou músico. Aos 26 anos, o carioca Bem Gil mostra aqui outros talentos

Bem resolveu nascer durante o Rock in Rio de 1985. Seu pai, Gilberto Gil, já havia se apresentado quando a mãe, a empresária Flora Gil, sentiu as primeiras contrações. “Não lembro qual era o show, mas George Benson e James Taylor estavam na coxia”, conta ela, ressaltando a presença dos guitarristas, profissão escolhida pelo filho.

Embora tenha começado a faculdade de geografia, Bem não escapou de seguir o talento do pai. Cresceu ouvindo MPB na vitrola de casa, tocando violão com Gil nas férias em Salvador e desde os 5 anos o acompanha na turnê europeia que se repete todo ano há três décadas. Por isso, quando Bem passou a viver de música não foi surpresa para ninguém. Hoje, ele tem dois discos lançados com sua banda, Tono.

Bem já tocava com Gil no Carnaval da Bahia desde 2003, mas só em 2006 virou integrante oficial da banda. Já se apresentou na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Em um mês chegam a fazer 20 shows. Sempre que sobem juntos ao palco e Flora está na plateia, ela se emociona com a mesma cena: “Bem entra e dá um beijo na cabeça do pai. Uma coisa linda. Muito elegante, sutil, delicado”, derrete-se a mãe.

O ídolo dorme ao lado
Dizer que Bem “vive de música” não significa simplesmente que ele escolheu a arte como profissão. Mas também que há oito anos faz aulas particulares de violão (entre outros instrumentos), que já fez um curso de extensão na UniRio sobre música e que acaba de comprar o piano que decora a sala de seu apartamento. Toda vez que vai dormir na casa da namorada, Ana Claudia, vocalista de sua banda, leva a caixa de som de alta definição para garantir a qualidade da trilha sonora. Durante a entrevista, Bem deixou rolando o primeiro vinil ao vivo da carreira do pai, de 1974. “Ele é meu maior ídolo, musicalmente falando”, solta. Pensa um pouco e completa: “O segundo lugar fica longe. Pode ser... Jimi Hendrix”.

E não só musicalmente. Em casa, Gil sempre representou “uma figura anciã”, de quem Bem e seus irmãos – Isabela, 23 anos, e José, 20 – sentiam até “certo distanciamento” (tem mais cinco irmãos por parte de pai, entre eles Preta Gil). Era comum passarem mais horas na companhia da babá e do motorista do que na dos pais. “Foi meu motorista quem me apresentou o Flamengo”, enfatiza Bem. “Eram eles quem nos levava para a escola, no futebol, essas coisas. Minha mãe era presente, mas meu pai via tudo mais de cima. Quando alguma coisa chegava nele é porque já tinha que ir para a diretoria, sabe?”, explica. Sentar no colo de Gil para contar como foi a aula não era cena corriqueira da infância. Mas o jantar com a família reunida era sagrado.

Hoje, é comum pai e filho debaterem música e futebol durante as viagens de ônibus que fazem nas turnês europeias. A opção por esse meio de transporte é uma questão de conforto: “Assim podemos sair de um hotel e entrar no outro de chinelo”, diz. O bate-papo não se repete em aviões ou hotéis, já que Gil viaja de primeira classe, hospeda-se em suítes cinco estrelas e descansa nas horas vagas. Bem voa de econômica, fica em quartos mais simples e aproveita para explorar as cidades que visita.

É fácil reconhecer Gil nos traços de Bem: boca, olhos e o jeito de posicionar a cabeça um pouco inclinada para cima, olhando na diagonal enquanto responde as perguntas. Sua fala também tem um ritmo calmo. Embora discorra sobre assuntos diversos por períodos longos, não perde a objetividade nem o foco.

Seguir carreira

Por ser desse jeito, o mesmo Bem que virou artista garante que poderia ter um trabalho convencional. “Gosto das coisas metódicas”, confirma. Talvez por isso as pessoas próximas reconheçam sua paciência para lidar com questões práticas (é ele quem cuida das burocracias da banda). Faz parte da rotina praticar uma sequência de exercícios físicos que ele próprio criou, juntando alongamento, natação e dicas do livro Ritmoprática, escrito pelo japonês Tomio Kikuchi, que trouxe a macrobiótica para o Brasil.

Ainda hoje, ele não descarta a hipótese de voltar para a faculdade de geografia. “Quem sabe quando chegar a hora de o meu filho prestar vestibular vou no embalo”, diz.

Isso só aconteceria daqui a mais de dez anos, já que Bento, seu filho com a cantora Barbara Ohana, tem 6. Quando ela engravidou, ambos tinham 19 anos e namoravam havia um. A notícia foi um susto, mas ele decidiu sair de casa para casar. Sua mãe soube da novidade por telefone. “Falei: ‘Não estou acreditando! Você é tão novo...’. Mas ele disse que estava muito apaixonado. Hoje vejo como ele amadureceu, é um pai maravilhoso”, conclui Flora.

O casamento foi na casa da família, no dia do aniversário de Gil: 26 de junho. Com ajuda dos pais, eles viveram quatro anos juntos. “Primeiro filho... Não sabia com que idade andava, quando podia dar banho. Nas primeiras noites, não dormia, ficava indo olhar se ele estava respirando”, lembra Bem. Olhando para trás, ele acredita que a pouca experiência do casal diante da responsabilidade colaborou para o fim da relação. “Eu queria ficar junto para sempre e ter mais filhos, mas acho que faltou equilíbrio”, pondera.

Nos raros momentos em que não está tocando, Bem pode ser visto em restaurantes ou cinemas – programas que gosta de fazer na companhia de Bento. No ano passado, foram juntos ver Uma Noite em 67 (de Ricardo Calil e Renato Terra), documentário sobre a final do terceiro Festival de Música Popular Brasileira, da Record. Entre os artistas que aparecem está seu pai com 25 anos, idade que Bem tinha quando assistiu. Saiu de lá com uma questão: “Por que os artistas da minha geração não fazem o que eles faziam? E não estou falando de mim, mas das minhas referências, como Moreno Veloso, Marcelo Camelo, Domênico...”. Em busca de respostas, Bem foi à casa de Jorge Mautner, que discorreu sobre as principais diferenças entre as épocas. “Naquele tempo, a música não era só entretenimento, o problema político era muito importante. Essa nova geração já nasceu sabendo dessa importância”, opina. E emenda: “O Bem é rigorosíssimo, suas músicas são sofisticadas, com grande poder de comunicação. Têm influência de Gil, sim, mas têm uma originalidade inacreditável”, diz Mautner à Tpm.

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