por Cristina Jeronimo
Tpm #145

Com fama de bruxá má e jeito polêmico, a irmã de Aécio é a mulher forte por trás da campanha do presidenciável

Pilar das campanhas do irmão Aécio, Andrea Neves tem política correndo nas veias desde a infância. Quando criança, a neta de Tancredo já brincava de eleição. Com disseminada fama de bruxa má e jeito polêmico, trabalha sempre longe dos holofotes. De forma extraoficial, Tpm mergulhou na vida de umas das mulheres mais poderosas do país.

No ano de 1966, as meninas de Minas Gerais enlouqueceram os pais para ganhar uma boneca Xodó, brinquedo sensação à época, mas a pequena Andrea Neves, neta do então deputado federal e candidato à reeleição Tancredo Neves, gostava mesmo de brincar de eleições. Na inocência de seus 7 anos, Andrea ignorava a apatia política gerada pelo golpe militar de 1964 e passava horas na varanda da fazenda da família, em Cláudio (MG), envelopando santinhos, distração que dividia com seu irmão um ano mais novo, Aécio Neves. Os dois imitavam os adultos e ensaiavam como pedir votos. Quase meio século depois, Andrea virou uma especialista no assunto. Apesar de nunca ter pedido nenhum voto para si, ajudou, com maestria, o irmão a atrair eleitores que o fizeram duas vezes governador de Minas Gerais. O maior desafio virá este ano. Na corrida pela presidência da República, Andrea é uma das estrategistas do staff de campanha.

Quando aparece para jantar no restaurante A Favorita – reduto de políticos que é para Belo Horizonte o que o Piantella representa para Brasília –, Andrea não escapa do ritual de beija-mão e é requisitada de mesa em mesa, para dar atenção a bajuladores de toda sorte. É tratada como se governadora fosse. Ela nunca disputou cargo eletivo, nunca dirigiu uma estatal federal ou grande empresa, mas tem poder. Como uma enxadrista, faz leituras rápidas do jogo político e descobre o flanco frágil do tabuleiro para aniquilar o adversário. Não à toa, entrou na lista das dez mulheres mais poderosas do país feita pelo portal IG.

Os juízos mais preguiçosos a resumem como guardiã da imagem do irmão. Desse raciocínio nasceu a “lenda urbana” que transformou Andrea na mais temida figura pública de Minas Gerais. Mas quem tem ou já teve a oportunidade de passar algum tempo ao lado dela garante que o enredo da “lenda” é mais sofisticado. Andrea Neves é tão decifrável quanto a obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Não por acaso, ela coleciona versões da história, cuidadosamente garimpadas em sebos de diversos países. Assim como Alice, Andrea pode ser grande e amea­çadora, quando quer neutralizar adversários, e miúda e dócil, como quando se dá ao trabalho de escrever cartões com poemas para amigos nos aniversários.

Rebelde

No fim da década de 1970, Andrea trocou a cômoda condição de herdeira do ideário político para ser militante de esquerda. A decisão mexeu com a família Neves. A avó Risoleta e a mãe, Inês, nunca entenderam a inquietação da jovem. Tancredo nunca pronunciou uma só palavra de reprovação às escolhas da neta. Assim, Andrea foi conferir in loco a Revolução Sandinista da Nicarágua, participou de encontro de jovens em Cuba e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro, cidade que escolheu após trocar o curso de história pelo de jornalismo. Foram ricos os anos de militância estudantil. Na noite de 30 de abril de 1981, Andrea saiu de Ipanema dirigindo um Corcel ao lado de seu então namorado, Sérgio, para ver o show de comemoração do Dia do Trabalhador, no Riocentro. O casal se transformou em testemunha da história ao socorrer o capitão Wilson Machado, militar que carregava em seu carro bombas para o atentado no Riocentro. Três anos depois, a campanha das Diretas trouxe Andrea de volta ao berço ideológico da família. Quando os amigos perguntam sobre seu lado “rebelde” ela costuma responder que os ares de Minas Gerais a curaram.

Inimigos afirmam: Andrea desistiu de concorrer ao governo para não prejudicar a candidatura do irmão

A virada ideológica não se refletiu no visual. É claro que a poderosa Andrea Neves de hoje abandonou o jeans e as camisetas largadas que marcavam a atitude hippie, mas está longe de ser uma mulher glamourosa. “Ela é sem graça”, julga uma funcionária que trabalhou com a irmã de Aécio durante o período em que ela presidiu o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas). Agarrada a um estilo clássico, ela nunca ousa desfilar peças que revelem um pouco de sensualidade. São sempre cortes retos, com numeração um pouco maior, cores neutras que a deixam com visual senhoril. Os óculos ajudam a pesar a imagem e fazê-la aparentar ter mais do que seus 55 anos.

O modo discreto com que escolhe as roupas é um sintoma do que ela considera o maior mal de sua personalidade: a timidez. A aversão de Andrea ao protagonismo adiou o assanhamento do PSDB de Minas Gerais em fazer dela a primeira mulher a governar o estado. Pesquisas de opinião mostraram que, apesar de Andrea nunca ter concorrido, os eleitores a identificam como “grande gestora”. Nos bastidores do jornalismo político, no entanto, ela faz o papel de carrasco. Um vídeo em que jornalistas atribuem suas demissões a pedidos dela circulou na internet e criou o monstro que a massa não vê.

Os inimigos afirmam que Andrea desistiu da ideia de concorrer ao governo de Minas Gerais para não prejudicar a candidatura do irmão. “Se ela saísse candidata seria como assumir que Minas é o Maranhão do Sudeste, o poder é restrito a famílias”, alfineta o deputado estadual Sávio Souza Cruz (PMDB), oposição ao governo na Assembleia de Minas Gerais. Na prática, por ora, Andrea divide com o marqueteiro da campanha de Aécio, Paulo Vasconcellos, o posto de cérebro da estratégia de comunicação.

Empolgada com a disputa presidencial, Andrea tem percorrido o país ao lado do irmão. Ela leva para a campanha o sistema de monitoramento de informações que usava no governo de Minas Gerais e permite rápida contraofensiva quando o sobrenome dos Neves sofre algum ataque. Ela avalia o potencial de disseminação de uma informação, independentemente do veículo e nunca subestima um adversário. O presidente do PSDB de Minas Gerais, deputado federal Marcus Pestana, está empolgado com a participação dela na campanha do irmão. “Ela é extremamente preparada e é a pessoa mais próxima do Aécio. Se ela fosse candidata não poderia colaborar tão efetivamente. Ela é muito respeitada em Minas, mas gosta mesmo é de atuar na formulação de ideias, estratégias. Andrea tem um grande papel nos bastidores”, afirma Pestana.

A afinidade entre os irmãos extrapola a política. O jeito leve de Aécio sempre funcionou como uma janela para a “fechadona” Andrea extravasar seu lado moleca. Na juventude, ele arrastava a irmã para suas diversões. Saíam pelas ruas de São João Del Rey bebendo vinho e cantando músicas de Bob Dylan. Eles não dispensavam, também, um bom sarau de viola, regado a música sertaneja de raiz. A canção “Couro de boi”, composição de Teddy Vieira e Diogo Muleiro, é uma das favoritas. Dez anos mais jovem, a irmã caçula de Andrea e Aécio, Ângela, não dividiu as aventuras da dupla.

Família

As narrativas que cercam Andrea atestam que ela manda na administração de Minas Gerais e toma conta do irmão. Mas, no plano emocional, é Aécio quem cuida de Andrea. Em 1999, ela sofreu um golpe doloroso: perdeu o marido e pai de sua filha, o jornalista Herval Braz. Aos 40 anos, ficou viúva e com uma criança de 5 anos para criar. Nesse momento, Aécio voltou a ser para Andrea o antigo companheiro de infância e juventude. Ficou a seu lado até que ela superasse a fase aguda da dor e depois a ajudou a reconstruir sua vida em Minas Gerais. Ela se casou com o arquiteto Luiz Márcio Haddad Pereira, filho do ex-governador Francelino Pereira, e, como braço direito do recém-eleito governador, no fim de 2002, Andrea redescobriu o talento político da juventude. Em pouco tempo, passou a compor o grupo de trabalho que alavancou o governo de Aécio. “Ela e o [deputado federal] Danilo de Castro fazem uma dupla infernal. Ele pressiona prefeitos, negocia transferência de recursos e disputa apoio. E ela controla a comunicação e as informações sobre o desempenho dos órgãos de estado. Ela sempre foi muito importante nas campanhas do Aécio. Não sei se é ela que manda, mas não é por acaso que estão levando ela para a campanha presidencial”, relata o deputado federal Nilmário Miranda (PT), adversário de Aécio nas eleições de 2002.

Amigo de juventude, o músico Celso Adolfo afirma que o bastião político da família, Tancredo Neves, sempre soube que Andrea era “o verdadeiro indivíduo político” do clã. “Andrea é de um meio que lhe mostrou o que o mundo masculino construiu e constrói na política. As mulheres levam a sério as lições que esse meio oferece. Assim, ela aprendeu como lidar com este ou aquele jogo, com a legitimidade ou o contrário dela”, afirma.

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