por Festival Path

O futuro é hoje

apresentado por Festival Path

Por que as mulheres devem ocupar o protagonismo nas produções de ficção que pensam o futuro da humanidade?

Quando a gente começa a imaginar o futuro, ele passa a existir. E qual futuro queremos para nós, mulheres? Um dos caminhos para encontrar essa resposta passa pelo consumo e produção de obras de ficção científica, fatia do mercado editorial e audiovisual que historicamente foi dominada pelos homens. No último dia 1º de junho, a Tpm aprofundou essa discussão na mesa "O futuro da mulher na ficção", que integrou a programação do Festival Path, em São Paulo, principal evento focado em inovação e criatividade no Brasil.

Com mediação de Julia Furrer, editora de conteúdo da editora Trip, a escritora e pesquisadora Ana Rüsche, a editora-chefe do site Minas nerds Gabriela Franco e a produtora da PerifaCon Andreza Delgado bateram um papo sobre esse assunto. "As mulheres já têm voz, o que falta é amplificá-la. Há um silenciamento", disse Gabriela, que usa sua plataforma para projetar produtoras de conteúdo dentro do universo pop.

E esse silenciamento, infelizmente, não é de hoje. "O lançamento de Frankenstein [em 1818], de Mary Shelley, marca o início desta história. O nome dela só apareceu na capa na terceira edição do livro. E ela só conseguiu isso porque vinha uma família de pensadores importantes", lembra Ana. A falta de visibilidade dos trabalhos assinados por mulheres continua sendo uma questão, apesar do contexto ter se transformado. “Para ser levada a sério como escritora, preciso fazer dupla jornada e ser também acadêmica. É muito cansativo”, diz Ana, que lança este mês o romance fantástico A telepatia são os outros. 

Pergunte ao passado

Ainda que apresente uma série de desafios para as mulheres dentro e fora da ficção, a recente onda de conservadorismo que se instalou na política internacional, muito marcada pela eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 2016, trouxe de volta obras dos anos 70 e 80 que imaginaram de forma distópica o futuro das mulheres. "’O conto da Aia’, de Margaret Atwood, foi best seller nos anos 80 e voltou à lista de mais vendidos nos últimos anos", diz Ana. O livro virou série pelo serviço de streaming Hulu, fez sucesso em diversos países, incluindo o Brasil, e venceu premiações importantes como o Emmy e o Globo de Ouro. , diz Ana.

Se para todas as produtoras de conteúdo existem barreiras, para as mulheres da periferia as condições são ainda mais desfavoráveis.  “Avançamos e não vamos mais retroceder. A gente precisa tomar a narrativa das coisas. Existe muita produção na quebrada e o afrofuturismo é uma onda muito forte. É importante pensar o futuro da mulher negra. Queremos estar vivas”, diz Andreza sobre o gênero que combina ficção científica com elementos da cultura africana partindo de acontecimentos históricos, como a diáspora negra, para a construção de um novo imaginário. Lançado em 2018, o filme Pantera Negra, da Marvel, é um marco da tendência.

O universo dos filmes de super-heróis, aliás, também tem refletido as transformações sociais que, lentamente, estão acontecendo – filmes como Capitã Marvel e Mulher Maravilha são indícios dessas mudanças. "Apesar dos avanços, as mulheres ainda são representadas como gostosas", diz Julia. "Como salvar o mundo com um collant enfiado na bunda?", questiona Andreza. Ana também chamou atenção para outra reincidência de roteiro problemática envolvendo as personagens femininas: “A gente tem que parar com essa ideia que o estupro é um rito de iniciação para a heroína. A gente não precisa ser destroçada para ficar forte. Já somos fortes.”

Como diz o poeta Paulo Ferraz, só o impensável é impossível. E se a gente não pensa no que pode acontecer, as coisas não acontecem. Fortalecer as mulheres que estão se dedicando a imaginar e tornar possível uma realidade em que as seremos protagonistas de nossas próprias histórias é um dos caminhos para começar a transformar o futuro utópico em presente cotidiano. Por isso, pedimos para Ana uma lista com dicas de obras imperdíveis assinadas por mulheres. Se liga:

"As águas vivas não sabem de si", Aline Valek (Rocco)

"A mão esquerda da escuridão", Ursula le Guin (Aleph)

"Kindred, laços de sangue", Octavia Butler (Morro Branco)

"A quinta estação", N. K. Jemisin (Morro Branco)

"Deixe as estrelas falarem", Lady Sybylla (Dame Blanche)

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