Ana Claudia Lemos
A batalha da atleta para dar ao Brasil a primeira medalha olímpica dos 100 metros rasos
Por Camila Alam TPM #140
em 10 de março de 2014
Todo dia ela faz tudo sempre igual. Acorda às 6 da matina, chega ao Parque das Bicicletas, na zona sul de São Paulo, às 6h45. Treina pesado 4 horas seguidas. Exercícios funcionais e corrida. Vai para a fisioterapia, onde faz alongamento, mergulha as pernas num balde gigante de gelo. Almoça, volta pra casa, na Vila Vera, dá uma cochiladinha. No fim de tarde, volta para mais uma rodada de treino, tiros de velocidade e o que mais precisar. A rotina da velocista Ana Claudia Lemos não é fácil. Nem o objetivo que a recordista sul-americana de atletismo quer atingir: chegar ao pódio da Olímpiada de 2016, no Rio de Janeiro, na prova de 100 metros rasos. “Gostaria de estar entre as três, a cor da medalha não importa. Se eu for um bronze, vou ofuscar o ouro, de tanta alegria”, diz a jovem de 25 anos, nascida em Jaguaretama, no Ceará, um município com 18 mil habitantes.
Quando era criança, Ana Claudia se mudou com a família para Criciúma, em Santa Catarina. Seus pais, Francisco Eraldo e Raimunda, saíram do Nordeste para, como muitos retirantes, tentar uma vida melhor no Sul. Vendiam panelas e redes pelas ruas da cidade. Ana estudava em um colégio público quando foi vista jogando futebol. Sua agilidade e rapidez em campo chamaram a atenção do projeto Correndo para o Futuro, da Fundação Municipal de Esportes de Criciúma. Com 13 anos, começou no atletismo, mais especificamente nas provas de velocidade. Dona Raimunda muitas vezes deixou de ir trabalhar de ônibus para guardar o dinheiro do passe, caso a filha precisasse de uma graninha para o lanche durante as competições. Com R$ 120 comprou seu primeiro tênis de corrida. “São coisas que não esqueço, paguei em seis vezes de R$ 20”, recorda. Hoje, com o patrocínio que tem da Nike, pode ter quantos pares quiser. Ana nunca tentou outra modalidade. Foi correndo como o vento – às vezes, até contra ele – e bateu dois recordes sul-americanos, em 2010 e 2011, nas modalidades 100 e 200 metros. Também já venceu todas as provas nacionais e das Américas. Agora, para completar a coleção, quer uma medalha no Mundial de Atletismo e outra na Olimpíada.
“Quero parar no auge, para ser lembrada depois. Tem atleta que chega no ápice e vai decaindo, decaindo. Depois ninguém lembra o que ele fez”
A evolução da velocista nos últimos quatro anos se deve muito à parceria com o treinador Katsuhico Nakaya. Suas melhores marcas nos 100 metros, na média dos 11 segundos e 08 milésimos, começaram a surgir depois da parceria. Sua meta é chegar na faixa dos 10’90”, e conta com Nakaya para isso. “Ele é igual pai. Vive mais comigo hoje que a minha própria família. Sabe quando eu estou bem pra treinar, quando não estou legal. Isso é da intimidade, do convívio diário”, diz. Nakaya é também técnico de Basílio de Moraes Jr., 32 anos, velocista e namorado de Ana há quatro anos e 11 meses. Foi de Basílio que Ana ganhou o anel de ouro com as cinco argolas olímpicas que usa na mão direita. “Bem a minha cara”, orgulha-se. Juntos, namorado e técnico formam a dupla em que a atleta mais confia. É só com eles que se sente à vontade para, por exemplo, deixar um prato de comida ou copo d’água descuidados. Isso porque, em tempos de doping, qualquer vacilo pode levar o sonho de medalha embora. “Principalmente em competição, quando estou comendo em algum lugar, dou minha disfarçada e levo o prato junto. Não gosto de correr risco, a gente não sabe o que pode acontecer. O doping diz que você é responsável por tudo que entra no seu corpo. Eu prefiro me cuidar.”
Dia desses passou um apuro. Resolveu fazer a unha do pé em um salão que já conhecia, mas com uma manicure nova. A moça arrancou um bife do dedão, que inflamou, e Ana não conseguia nem vestir o tênis no dia seguinte. “Na hora, liguei para o médico da equipe pra saber se era tudo bem tomar o remédio. Tenho sempre que checar antes.” O contratempo lhe custou um dia de treino e uma sessão de musculação descalça. “Eu fiquei louca de ódio, se isso acontecesse em época de competição, estava fora”. E é justamente na época de competição que gosta de estar com a aparência mais bem cuidada. Até lançou algumas modas entres outras velocistas brasileiras. Adora trança embutida, cores vibrantes, unhas sempre feitas, faixas no cabelo, tênis chamativo. “Na competição gosto de estar me sentindo bem, linda, maravilhosa, com o astral lá em cima e a autoestima elevadíssima”, ri.
Por pouco
Em agosto do ano passado, o sonho do mundial passou bem perto. A equipe de revezamento brasileira estava praticamente com a prata no peito quando, na última volta, a companheira de equipe Vanda Gomes deixou cair o bastão. Para Ana, a única maneira de tirar a má impressão é reverter o quadro. “E reverter significa ganhar uma medalha, é assim que funciona no Brasil.”
Por essas e outras, a atleta pensa em se aposentar assim que conseguir o feito. “Quero parar no auge, para ser lembrada depois. Tem atleta que chega no ápice e vai decaindo, decaindo. Depois ninguém lembra o que ele fez, se ganhou medalha olímpica ou mundial. Tem que saber a hora de parar.” O semblante calmo e o jeito de menina não escondem a garra e a certeza da atleta. Para atingir sua meta, deixou competições nacionais de lado e foca nas internacionais, onde encontra competidoras à altura. “Eu quero ser a velocista do Brasil que vai estar no pódio em 2016. Para isso, tenho que estar onde as mais fortes estão.”
LEIA TAMBÉM