por Gaía Passarelli

As idealizações que fazemos da vida e de viagens (das nossas e da dos outros)

Aren’t you your best self when traveling?” Uma vez ouvi isso de um escritor de viagens. A verdade é que, constantemente, sim. Mas nem sempre.

Quando viajo, sou simpática, aberta, curiosa e organizada. Almejo ser “elegante, gentil e inteligente”, como o elogio de Paul Theroux a Jan Morris — duas grandes figuras da literatura de viagem do século XX.

Porém, essa é uma idealização do personagem de viagem, o bom viajante que habita nossa imaginação tal qual o bom selvagem da literatura antiga. Aquela pessoa que sempre sabe o que fazer, e quando. Que se livra de apuros com graça, lida com a ressaca com maturidade, só viaja com mala de mão e conversa com todo mundo em qualquer língua (sinais, inclusive). Para o bom viajante, não tem tempo ruim, literal ou metaforicamente.

Só que raramente é assim. Viajantes são culpados de vários pecados, sendo a auto-importância o mais comum deles, seguido de uma visão surpreendentemente enviesada dos lugares por onde passa. 

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Estou cometendo o pecado da generalização, claro. Mas se você já esteve numa sala comunitária de hostel, ou pelo menos numa mesa com gente que viaja demais, já deve ter escutado expressões como “o melhor pho de Chiang Mai" – de alguém que passou uma semana na Tailândia. É fácil se irritar com esse tipo, e também fácil de perdoar. Viagem, afinal, é uma coisa que mexe com a gente de muitas formas, é totalmente justificável que aconteça um deslumbre.

O que quero dizer, quando falo que não sou meu “best self” na estrada, é que minhas tendências antissociais, depressivas, ansiosas, confusas e meio maníacas, às vezes afloram quando não tem ninguém conhecido por perto. Faz parte. Talvez eu viaje justamente para poder liberar esses lados sem machucar entes queridos. Quando viajo, eu também me irrito. Tomo más decisões de orçamento, de roteiro ou gastronomia.

Não tem ninguém pra ver e não sai no Instagram, mas não significa que está tudo certo, que o céu é constantemente azul, que a comida é sempre a que eu queria, que todo mundo é lindo e gentil e amável.

É isso que a gente precisa ter em mente quando cai na cilada da idealização da vida alheia. A vida que a gente cobiça, inveja ou admira é provavelmente meio zoada, exatamente como a sua.

Tá. Talvez nem tanto.

Você já viu aquele vídeo do namorado que tira as fotos pro Instagram da namorada? É um jeito de dizer que sempre tem algo nos bastidores que a gente desconhece. Na minha vida, também.

Créditos

Imagem principal: Lechon Kirb via stocksnap.io

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