Além da imagem
Ilana Lichtenstein encontrou na fotografia sua morada e sua maior janela de expressão
Por Natacha Cortêz
em 13 de junho de 2012
A partir de hoje, a Galeria Virgílio apresenta a exposição “Dez anos da Galeria Virgílio”. Nela, um time de artistas foi reunido para mostrar obras de seus acervos que de alguma forma fosse especial pra eles mesmos. Entre eles, a jovem fotógrafa Ilana Lichtenstein (destaque na Tpm # 121).
As fotos de Ilana, 25, encantam ainda mais quando conhecemos as histórias que as constroem. Histórias que falam de sua relação com a fotografia, da forma como vê e produz a imagem, que falam dos momentos nos quais o registro é feito. Depois de ler o que ela nos conta, pensar em Ilana apenas como uma fotógrafa se torna limitado. A experiência vivenciada por ela e transmitida no seu trabalho contempla sentidos de uma artista completa.
Ilana trata as imagens além do visual, além do esperado quando pensamos em fotografias. Se preocupa com o tato, com a textura, com um segundo, terceiro ou quarto olhar que uma foto possa trazer, o que faz com que o processo não termine na revelação do negativo. “O mais importante para mim é o que aquela foto vai se tornar bem depois, quando já estiver pensando em como imprimi-la: nos tamanhos, papéis… Gosto de pensar nas fotos como coisas, que têm forma, textura, volume etc”, diz.
Suas inspirações logo justificam a forma como pensa as imagens: “pinturas; tecidos, a maneira como eles assentam nas pessoas; mãos e plantas”. A artista contou pra gente sobre seu trabalho, inspirações, referências e também sobre a obra que expõe na coletiva.
Há quanto tempo é representada pela Galeria Virgílio?
Há justamente um ano, neste mês. Foi na mesma época em que comecei a ser representada pela Paradigmas Arte Contemporáneo, em Barcelona.
Quais são suas expectativas para a exposição?
Bem, felizmente eu pude ver a exposição – amo acompanhar montagens – e sei que está bem bonita. Eu gosto do time de artistas da Virgílio, e gosto também do fato de lá, junto, funcionar o centro cultural b_arco, que está sempre cheio de gente efervescente fazendo cursos de teatro, dança, literatura… Espero que as pessoas possam tomar um tempo lento, como eu passei, para olhar devagar aquilo que as puxe. Desta vez, há trabalhos dos artistas por toda a galeria, café e corredores.
Você poderia falar um pouco sobre as fotos escolhidas para a exposição? Por que elas? Quantas são; fazem parte de uma série?
Nessa exposição eu mostro um díptico sem título em que, diferente do que costumo fazer normalmente, cada foto é grande. O curador, Douglas de Freitas (também da bela Capela do Morumbi), nos propôs buscar em nossos acervos algo que fosse de alguma forma especial. Ou muito antigo, ou inédito, etc. Esse trabalho tem um significado forte para mim porque ele é, de uma certa forma, fora do tempo. Isso porque, apesar de cada foto ter sido feita em uma época e contexto muito distintos, elas se atrelam. A proposta no díptico é olhá-las juntas, forçosamente, em um vai e vem… Podem se unir primeiro pelo desenho. Uma forma de montanha que se faz nas costas de um homem. Os outros sentidos, entre lugar e corpo, distância e movimento, são feitos para nascer diante de cada um que as juntar com os olhos. A terceira imagem se cria a partir das paisagens interiores de quem vê.
Suas fotos parecem todas feitas com câmera analógica. É isso mesmo? Sempre filme? Como a escolha da técnica e do equipamento influencia e aparece no teu trabalho?
Na verdade faço tanto fotos com negativos, cromos, etc, assim como digitais. Às vezes estou com uma câmera, às vezes com outra. Vejo que isso influencia a edição e até a relação com o personagem (que pode não pode ver o que foi feito consigo, na hora). Mas o mais importante para mim, mesmo, é o que aquela foto vai se tornar bem depois, quando já estiver pensando em como imprimi-la: nos tamanhos, papeis… Gosto de pensar nas fotos como coisas, que têm forma, textura, volume etc. As vezes a gente percebe isso mais com pintura. Mas na fotografia isso existe. O processo, do clique à moldura, pode ser longo. E envolve, no caso dessa exposição por exemplo, a opção por não colocar vidro diante da foto. Para que quem as vê possa olhar, também, a textura do papel de algodão, o desenho do pigmento mineral sobre ele, e todo o significado do suporte que não se divide da imagem.
Você captura momentos não ensaiados ou planejados. E a sensação quando olho é de que alguns personagens são próximos seus, como amigos. Estou certa?
Sim. São amigos e seres de um círculo íntimo, e nesse ponto a questão de que há sempre alguma distância na proximidade – que seja a focal, da lente que pára para fotografar – também pode ser sugerida. Dessa forma, a intimidade não está solucionada. Os gestos captados, dos personagens, também não buscam momentos de respostas, em que todo mundo parece “bem resolvido”. Acho que são uma espécie de louvação à hesitação, ao descanso de podermos não saber das coisas muitas vezes, e ainda assim seguir adiante. Uma certa busca da beleza na indefinição. Apesar de próximos, os personagens muitas vezes têm os olhos fechados, estão de costas, e assim por diante.
O que inspira suas imagens?
Pinturas, tecidos, a maneira como os tecidos assentam nas pessoas, mãos. E plantas.
Quando começou a fotografar? Você pode contar um pouco sobre sua relação com a fotografia? Como ela aconteceu na sua vida?
Passei um tempão, anos mesmo, fotografando só com os olhos ou com a ajuda das mãos, às vezes, discreta, para fazer um quadrinho fotográfico. É que eu não tinha educação de fotografia, e a aula de artes na escola era bem voltada à ideia de que arte é um dom natural e não um ofício. Aquela coisa de que, quem não sabe desenhar, pode desistir de saber (enquanto escrever, por exemplo, todo mundo aprende…). Então eu nem tinha câmera. Com esse tempo de ir colecionando imagens mentais, e também na busca de um silêncio pela foto que se sobrepusesse às palavras, comecei a clicar algumas, em filme. Revelar, e tudo. Acho muito bom lidar com essa materialidade que a luz ganha no laboratório. E daí por bastante tempo a fotografia ficou sendo uma espécie de reserva, reserva natural, aquele lugar que a gente tem para cultivar e preservar como um idílio. Há pouco mais de um ano eu decidi que é nesse lugar que precisava morar.
Quais outros artistas você admira e servem de referência pro teu trabalho?
Há muitos, muitos, muitos que admiro, e faço questão de ver presencialmente tudo o que posso, porque acredito mesmo que faz muita diferença sentir a maneira como o artista pensou aquilo em um espaço. Sobre essa questão da fotografia palpável, o japonês Masao Yamamoto e o tcheco Miroslav Tichý.
Vai lá: Ilana Lichtenstein nos Dez Anos da Galeria Virgílio – r. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros, São Paulo/SP, (11) 3081-6986. A partir do dia 13/6 www.ilanalichtenstein.com
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