Agora sim, sensual: Maeve Jinkings

por Ana Luisa Abdalla
Tpm #151

A atriz fala sobre carreira, cinema nacional e a descoberta do poder da sensualidade

Maeve Jinkings nasceu em Brasília, foi criada no Pará, se formou na Escola de Artes Dramáticas da USP, mas é apaixonada mesmo por Recife. Atuou em longas brasileiros superpremiados, como O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, e o recente Amor, plástico e barulho, de Renata Pinheiro. Depois de representar uma cantora brega e abusar da sensualidade, Maeve mudou seu jeito de pensar o feminino: “Gente, como eu sou ridícula! É tão fácil falar da objetificação da mulher nesse lugar [periferia de Pernambuco], quando eu não sou daqui e não conheço nada disso. Não é simplesmente 'eu sou gostosa'. É 'eu tenho poder'”. E isso mudou tudo, inclusive como Maeve encara sua própria sensualidade. Por telefone, a atriz conversou com a Tpm.

Você nasceu em Brasília, cresceu em Belém, no Pará, e estudou em São Paulo, mas seus filmes são, em grande parte, pernambucanos. Como aconteceu isso? Morei em Recife só por um ano e oito meses, mas minha afinidade com os artistas de Pernambuco foi muito forte. Costumo dizer que quando cheguei em Recife me senti em casa. No meu imaginário, é como se eu tivesse encontrado o meio do caminho entre Belém e São Paulo. Me abri muito pra Recife e Recife se abriu muito pra mim. 

Mas atualmente você mora em São Paulo? Sim, desde 2000. Fico um pouco entre as duas cidades. É que preciso do teatro paulistano. Sou completamente faminta pelo teatro! É um espaço de apropriação criativa do ator que me faz muita falta.

O som ao redor foi muito premiado dentro e fora do Brasil. Isso abriu um espaço para os filmes menos comerciais? O som ao redor foi um sintoma muito agudo de algo que está acontecendo no cenário audiovisual de Pernambuco. Quando fui pra Recife, antes até de morar, comentei com amigos de São Paulo, “olha, tem alguma coisa muito especial acontecendo naquele lugar”. As pessoas vão muito ao cinema, debatem. Tem muito cineclubismo e uma política voltada pro audiovisual muito evoluída. Então, o filme, por ter tido uma repercussão excepcional, chamou a atenção pra algo que já estava acontecendo. 

Em Amor, plástico e barulho você faz uma personalidade do brega que usa a sensualidade. Você se sente uma mulher sensual? Não! Todo grande projeto me modifica de alguma forma e esse filme mexeu com a minha relação com meu feminino. Antes, eu sentia culpa se notasse alguma coisa de sensualidade em mim. Na época de O som ao redor lembro que o Caetano Veloso escreveu uma crítica e disse “a extraordinariamente sexy Maeve Jinkings”, e eu pensei “mas como assim?!”. Eu não era bem resolvida com isso e em Amor, plástico e barulho esse foi o grande desafio. 

"Toda mulher já sofreu algum tipo de assédio sexual e o jeito mais comum de se defender é abafar seus códigos femininos"

E de onde vem essa dificuldade? Acho que tem a ver com uma geração de mulheres, filhas do pós-feminismo, que precisa se colocar no mercado de trabalho e se fazer respeitar. Toda mulher já sofreu assédio sexual em alguma circunstância e o jeito mais comum de se defender é abafar seus códigos femininos. No universo do brega, que a gente estudou muito pra fazer o filme, lidamos com mulheres que não só usam esses códigos de sensualidade, como usam num superlativo! Elas usam roupas justas, decotes, sapatos altos, batom forte e cantam sensualmente. Foi doloroso pra mim no começo, mas depois foi extremamente libertador. Saí mais feminina do filme, sem culpa. 

Como você vê a mulher que escolhe dançar e rebolar: objetificação ou empoderamento? Isso foi algo que me perguntei muito, porque parte da minha dificuldade em deixar a sensualidade tomar conta era exatamente essa opinião, da coisificação da mulher. Mas aí eu pude viver no corpo esse empoderamento. E convivi com moças que usam mesmo o poder da sensualidade. Minha sensação, às vezes, é que é fácil pra mim, uma mulher de classe média, com formação acadêmica, apontar a objetificação. Mas essas mulheres que conheci ali, que quase via de regra vinham da periferia, elas encontram um poder por outra via. Isso não quer dizer que sirvam ao gozo do olhar masculino, elas muitas vezes têm consciência desse poder e o utilizam como moeda e, empoderadas, se relacionam com o outro. E aí eu pensei: “Gente, como eu sou ridícula! É tão fácil falar da objetificação da mulher nesse lugar, quando eu não sou daqui, eu não conheço nada disso”. Não é simplesmente “eu sou gostosa”. É “eu tenho poder”. 

Hoje se alguém te achar sensual... Ah, tá tudo bem, não sou só isso. Sou isso também. 

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