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Adultos não choram

O dia em que descobri que até gente grande, que manda na própria vida, pode comer doce antes da refeição e dormir na hora em que bem entende, também tem suas razões para produzir lágrimas

Adultos não choram

em 16 de maio de 2008

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Ilustração Andrea Ebert

 

A idéia era passar o sábado no zoológico. Para a aventura, minha mãe convidou minha tia: assim, teria ajuda para cuidar das três crianças. Eu, a mais velha, já me virava sozinha, mas Adriana, 4 anos, e Nininha, 2, exigiam constante dedicação. No Opala da matriarca, que acomodava seis graças ao assento único da frente, fomos para o passeio. Verão no Rio de Janeiro; o calor era de rachar, o que me dava a chance de andar pelo zoológico de short, tênis e sem camiseta. Era assim, desse jeito moleque, que me entendia pela vida.

Macacos, elefantes, tigres – os bichos iam ficando para trás, mas, deles, tenho pouca memória. Lembro mesmo de quando paramos para nos refrescar. Minha mãe pegou uma mesa e foi à lanchonete. Voltou com algumas garrafas de vidro de 350 ml de Coca-Cola, porque nos anos 70 só existiam garrafas de vidro de Coca-Cola, e cachorros-quentes. Enquanto comíamos, notei, fascinada, o que fazia minha mãe: levava à boca uma das garrafas e, de um gole só, a deixava pela metade. Era um assombro. Naturalmente, outras mães não eram capazes de tamanha façanha. Beber daquele jeito, sem deixar que o gás interrompesse a fluidez do gole, não estava ao alcance de qualquer um. Como ela não percebia que estava sendo observada, continuei a olhar, na esperança de que daria conta da garrafa com outra performance daquelas. Mais um gole seria suficiente. Apenas um. Todos comiam e bebiam, minha mãe e minha tia conversavam, e eu, paralisada, esperava pelo próximo gole. Mas as mãos de minha mãe nem chegavam perto da garrafa: ajeitavam o babador de uma, a camiseta da outra, eram usadas para gesticular e, sicilianamente, terminar uma história contada à minha tia – as mãos de minha mãe faziam de tudo, menos se aproximar novamente da garrafa de Coca-Cola. Até que, finalmente, depois do que me pareceu uma eternidade, ele veio. Seguro, fluido, absoluto – exatamente como o primeiro. Pronto. Em dois goles, ela havia liquidado a garrafa. Que espetáculo! Orgulhosa, segui de mãos dadas com ela pelo zoológico, olhando em volta, na esperança de que outros pudessem ter visto o show, àquela altura, muito mais surpreendente do que o leão.

 

Do banco de trás
Alguns anos depois, já morando em São Paulo, estávamos todas nós, menos minha tia, dentro de um outro Opala, também de minha mãe: meu pai nunca dirigiu. Chovia e o trânsito estava ruim naquele fim de tarde em que a matriarca tinha ido nos buscar na escola. Eu, no banco de trás, observava a cidade, ainda bastante estranha, pela janela do carro. O vidro esfumaçado e cheio de gotas d’água deixava o caos lá fora ainda mais difícil de ser decodificado. Dentro do Opala, um silêncio estranho. Foi quando ouvi um gemido; pequeno, quase imperceptível, tanto que Adriana e Nininha pareciam não ter escutado. Segundos depois, ouvi o gemido outra vez. Debrucei sobre o assento da frente e notei que minha mãe estava chorando. Aquilo não podia ser. Ela era minha mãe, que matava uma garrafa de Coca-Cola em dois goles. Uma pessoa assim não chorava. Aliás, adultos não choravam. O que teria havido? Por que motivo gente grande, tão donos de suas vidas, capazes de comer um doce antes da refeição sem o risco de serem censurados, capazes de dormir na hora em que bem entendessem, capazes de comprar o que quisessem, sem precisar implorar para que alguém o fizesse, por que motivo gente grande choraria? Meu corpo adormeceu, e eu senti, pela primeira vez na vida, um medo que penetrava na carne e viajava mais fundo. Gaguejando, perguntei por que ela estava chorando. E notei a expressão de pavor nos olhos de minhas irmãs. “Mãe, você tá chorando?”, ecoaram, na esperança de ouvir uma resposta negativa. Mas não houve uma resposta negativa. Não houve nada, a não ser a confirmação de que ela estava, de fato, chorando: o que era apenas um resmungo se transformou em pranto. Quando chegamos em casa, dentro do Opala todos choravam, e eu tive a certeza de que o mundo acabaria naquela noite. Afinal, minha mãe, que matava uma garrafa de Coca-Cola em dois goles, estava chorando.

 

Do banco da frente
Na semana passada, voltando para casa depois do trabalho, me encontrei chorando dentro do carro e pensei em minha mãe e no dia que a vi chorar pela primeira vez. Ao contrário do que supunha aos 8 anos, ser gente grande não é assim tão simples. Trinta e dois anos depois daquela tarde, fragilizada e chorando ao volante, olhei pela janela do carro e vi que, lá fora, o mundo, alheio a minha dor, caminhava de volta para casa. Gente grande – a pé, de carro ou de ônibus – arrastando pelo dia sua própria dor. Entendi que compartilhamos de um sofrimento comum: o sofrimento que nos faz crescer, que nos torna uma coisa só. Ou quase. Porque lembrei que nunca consegui matar uma garrafa de Coca-Cola em dois goles. Achei graça e olhei pelo retrovisor: no banco de trás, uma pequena menina de cabelos curtos, short e sem camiseta sorria para mim.

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