A subestimada arte de
viajar sozinha

por Milly Lacombe

Entre solidão e solitude, Milly Lacombe percebeu que é no silêncio que começamos a entender quem somos. ”Ou, como sugeriu Osho, o divino mora nos vazios”

Quem começou a colocar minhoca na minha cabeça foi o Bruno. “Milly, como assim você nunca viajou sozinha? É a melhor coisa do mundo, você tem que ir”. Bruno é um homem determinado e desde que soube que eu ainda não tinha encarado dias de solidão longe de casa seguiu com a mesma ladainha. Até que um dia decidi que era hora de tentar, e o Bruno quase chorou de emoção. “Vai ser lindo”, ele garantiu. Eu não tinha certeza disso, mas estava disposta a tentar.

Esse dia foi domingo 21 de março, quando embarquei em jornada solo para a África do Sul; se era para ir sozinha que fosse para um lugar totalmente novo.

A primeira grande diferença de viajar sozinha aconteceu na ida para o aeroporto. Sem outra alma que julgasse minha paranoia de fazer o check in com quatro horas de antecedência (no mínimo) pude chamar o taxi no momento que bem entendi, e segui leve e saltitante para Cumbica cinco horas antes do horário marcado no bilhete.

Dentro do avião outra agradável surpresa: seriam apenas oito horas de voo. Quem poderia supor que a África do Sul é logo ali? Meu assento não era dos melhores, mas acabei sentando ao lado de uma jovem de Joanesburgo que voltava de quatro meses de um mochilão pela América do Sul e o papo foi ótimo. Eu, um bicho do mato fresco e arrogante, embarquei preparada para me misturar – outra recomendação do Bruno. 

Os primeiros dias seriam de safari, e os safaris na África do Sul são feitos no Kruger Park, uma reserva natural que fica no norte do país. O avião que nos leva até lá é pequeno e, num dia claro, a viagem é linda. Eu estava trabalhando há semanas numa playlist, um novo desafio, e ela me acompanhava desde o desembarque em Joanesburgo. A recomendação é para que levemos uma mala de no máximo 20 quilos e eu, que sou especialista em viajar com malas pequenas, não tive nenhum problema em me adaptar.

Logo na chegada deixei minhas coisas no quarto e saí para um safari com um casal canadense que estava em lua-de-mel. Éramos só nós três e o ranger (o nome dado ao guia do safari) e não demorou para que víssemos leões a uma distância de menos de três metros do jipe. Os leões estavam dormindo e solenemente nos ignoraram. Matt, o ranger, explicou que leões ficam ativos apenas umas quatro horas do dia, quando saem para caçar, e que durante 20 horas dormem. Eu poderia ser um leão, pensei. E, testando essa minha nova persona, falei o pensamento em voz alta. Para minha surpresa, meus colegas riram.

Na volta para o hotel o casal em lua-de-mel me convidou para jantar com eles. Eu teria preferido jantar sozinha, mas estava disposta a passear por ambientes diferentes e disse sim. Matt acabou se juntando à mesa e eu aprendi uma infinidade de coisas sobre safaris e sobre a vida de meus colegas. A vida de todo o ser humano é fascinante, isso estou aprendendo nessa nova fase também. Tomamos vinho, conversamos por horas e no dia seguinte nos juntamos para um novo safari, quando vimos rinocerontes, leopardos, hipopótamos, girafas e veados.

Tudo parecia um paraíso até que no segundo dia de viagem, depois de tomar um longo e relaxante banho de banheira bebendo uma taça de vinho, fui fazer xixi e senti uma dor que nunca antes havia sentido. Parecia que eu estava urinando caquinhos de vidro. Na hora pensei que tudo tinha ido por água abaixo e lembrei do por que ainda não tinha viajado sozinha: minha hipocondria me impedia devido ao pavor de ficar doente sem ter que cuidasse de mim. Ou seja: meus maiores medos estavam se materializando bem ali no meio da savana Africana. Mas meu instinto de “vou chegar ao fim da viagem” falou mais alto e eu busquei dentro de mim um tipo de astúcia que há muitos anos não me visitava.

Uma rápida consulta no Google me levou a acreditar que o que eu tinha era uma infecção urinária, e uma nova googada me fez entender que se conseguisse deixar o xixi menos ácido a infecção poderia se curar sem remédios ou médicos (por favor, não repitam isso em casa e aos primeiros sintomas procurem um especialista). Disquei para o serviço de quarto e pedi que me trouxessem um pouco de bicarbonato de sódio, dizendo saber que o pedido era exótico, ainda que não tão exótico quanto dormir cercada de leões e leopardos. Durantes as cinco horas seguintes, de uma em uma hora, tomei um copo d’água com bicarbonato de sódio, e entre sete da noite e uma da manhã fui 38 vezes ao banheiro (eu contei).

Na minha cabeça eu estava, com o bicarbonato de sódio, deixando meu ambiente interno mais alcalino, portanto menos ácido, e passando por uma lavagem interna que levaria pra longe de mim as bactérias. Não sei de verdade se isso existe, mas o fato é que quando acordei a dor tinha praticamente desaparecido. Passei o dia seguinte bebendo água com bicarbonato de sódio (em doses menores) e segui fazendo isso pelo menos uma vez por dia até o fim da viagem. Era meio constrangedor andar por aí com um saquinho plástico contendo pó branco, mas eu estava determinada a melhorar e foi o que fiz. Tenho um irmão médico e poderia ter solicitado sua ajuda, como já fiz mais vezes do que seria educado, mas decidi que não iria perturbá-lo, até porque ele diria que meu auto-tratamento era maluco, que eu ficava a cada dia mais doida e o que diabos eu estava fazendo sozinha na África.

Minha próxima parada seria a Cidade do Cabo e eu tinha agendado menus-degustação porque soube que por lá existem alguns dos melhores restaurantes do mundo, ainda que o Michelin não inclua a África do Sul em seus guias.

Outra enorme vantagem da África do Sul é que nossa moeda compra quatro da deles, então ir a restaurantes muito bons e pernoitar em hotéis cinco estrelas é bastante possível.

Comer sozinha em restaurantes finos, nos quais há pouca gente ziguezagueando entre as mesas e sua solidão fica bastante exposta, pode ser um desafio se cairmos no erro de confundir solidão com solitude; a primeira vem com dor, a segunda com prazer. Eu fiz um trabalho mental para internalizar que aquela viagem era um luxo e um privilégio, e que eu, afinal, estava acompanhada de mim mesma e que essa não era uma companhia ruim. Funcionou porque em nenhum momento me senti deslocada e apenas aproveitei cada uma das refeições e das taças de vinho que me foram servidas (há 601 vinículas na região da Cidade do Cabo e degustar vinhos é tipo esporte nacional por lá). Mas como efeito colateral acabei desenvolvendo uma mania que sempre odiei em minha mãe: falar com estranhos sem motivo aparente.

Foi assim que puxei conversa sobre os assuntos mais fúteis com garçons e garçonetes, com passantes na rua e com vendedores de loja. Só que foi também assim que acabei em papos ótimos e significativos com muitos sulafricanos. A diferença entre eles e o americano ou o europeu é que estamos nivelados em calor humano e que nossa ginga é também a ginga deles. Por mais movimentado que esteja o restaurante ou o café um garçom ou a garçonete jamais deixará de falar com você, tentar ser simpático, fazer uma graça, dar bola para o que você diz.

Outra vantagem de viajar sozinha é que não havendo lugar em alguma atração é sempre possível encaixar a alma solitária, ao contrário de grupos. Só por isso consegui lugar no barco para ir até a Robben Island ver a prisão onde Nelson Mandela viveu por 20 anos. Os barcos estavam lotados pelos próximos dias, mas encontraram um lugarzinho para mim.

Ir para o quarto era, todos os dias, perceber de forma cristalina que eu estava sozinha muito longe de casa, e a constatação pode ser poderosa se a gente pensar que não se fica mais sozinho. Há sempre uma mensagem chegando, um email para ser respondido, um telefonema que exige atenção. Como eu estava me testando, decidi que não ficaria o tempo todo checando redes sociais, mensagens ou emails – e o fuso horário de cinco horas ajudou muito.

LEIA TAMBÉM: Todas os textos de Milly Lacombe na Tpm

Num momento em que o mundo debate abertamente a privacidade é importante lembrar que o direito a ela é mais do que fundamental, ele é necessário para que consigamos entender quem somos e no que acreditamos. É na solidão que conseguimos pensar sem pressões externas, sem cair na tentação de aceitar uma ideia porque ela é popular, ou de agir de tal forma porque é a forma esperada pela sociedade, pela família e por amigos. Como disse Edward Snowden: “Sem privacidade você só existe em um estado que reage ao ambiente o tempo inteiro”, e isso não é de verdade existir. É apenas no silêncio que começamos a entender quem somos. Ou, como sugeriu Osho, o divino mora nos vazios.

Foram dez dias de pura magia e eu voltei para casa com duas certezas. A primeira é que o Bruno tem toda a razão: viajar sozinha é uma das melhores coisas da vida. E a segunda é que eu sou capaz de fazer playlists maravilhosas. Voltei também apaixonada pela África do Sul, que para sempre ficará na memória como o lugar para onde fui pela primeira vez sozinha; eu não poderia de verdade ter escolhido melhor destino.

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