por Gabriela Sá Pessoa

Em seu primeiro romance, Lucrecia Zappi narra a busca por identidade na Chapada Diamantina

― Você é de onde?


O ouvido atento da escritora Lucrecia Zappi capta as pequenas variações do sotaque de quem deveria estar lhe fazendo perguntas, mas já está trocando conversa sobre as impressões do sertão nordestino – mais precisamente a Chapada Diamantina, no interior da Bahia – para onde Lucrecia viajou e onde passaria Onça preta, seu primeiro romance, recém-publicado pela Benvirá. “Fui de avião até Salvador. Depois peguei um ônibus, foram 7 horas de viagem até Lençóis. Queria ter tido tempo para viajar de ônibus, é tão enriquecedor. Você se desprende aos poucos de onde veio”, relembra a artista plástica de formação e repórter de profissão, nascida em Buenos Aires em 1972, mas que passou boa parte da vida morando no centro de São Paulo até se mudar, há sete anos, para Nova York.

Em 2011, Lucrecia publicou Mil folhas, que conta a história (literária, geográfica) dos doces. A expedição do quitute ao sertão partiu de uma curiosidade antiga da escritora, que sempre teve vontade de viajar “Brasil adentro, Brasil afora”. Foi então que em 2009 o tio geólogo a perguntou se estava a fim de ir para a Chapada Diamantina acompanhá-lo em uma viagem. Sozinha, chegou e começou a sentir aquele lugar, os rios secos, a paisagem quase sem ribanceira. “Quando você olha para a terra, imagina aquelas escavações [a região ficou famosa pela prospecção de diamantes no século XIX] e ainda encontra um ou outro com aquela colherinha, uma colherinha ainda meio tímida, tentando caçar alguma coisa no chão da cozinha, sabe? Não que eu tenha visto alguma pessoa assim, eu ouvi dizer.”

Ouvindo dizer, Lucrecia colecionou narrativas da região. E cenas como ela descreveu, de escavações com colherinha em chão de terra batida, ficaram anotadas no caderno que puxava para registrar o que quem encontrava lhe dizia. Ela queria andar por aí, observar como as pessoas falavam, o que comiam. De volta a Nova York, a história foi tomando corpo nos três anos que se seguiram. A autora chegou à estudante de botânica Beatriz, narradora e protagonista de Onça preta. Órfã, ela quer descobrir quem é, de onde veio, atravessar a margem da idade adulta – talvez o melhor caminho seja buscar o pai que nunca conheceu na região onde ele nasceu e talvez ainda viva, na Chapada Diamantina.

Como já escrevia Guimarães Rosa em suas Veredas: “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. No livro de Lucrecia Zappi, o sertão é o território onde se projetam as angústias de Beatriz para além da exuberância selvagem da Chapada. O lugar é a própria representação de sua busca: é o desconhecido sem ribanceira que ela se dispôs a encarar. “Essa paisagem assim isolada, estava pensando essas questões aparentemente tão simples, mas que no fundo sempre perseguimos: ‘morte’, ‘de onde eu venho’, ‘quem sou eu?’. A busca pelo pai era uma forma não só de cercar esse tema universal, mas também uma busca pelas origens. Eu viajei tanto pra minha vida e muitas vezes eu me perguntei ‘de onde que eu venho mesmo?’.”

A maneira como todas essas questões se transformam em palavras é um forte de Onça preta: Lucrecia dispensa travessões e outras marcas que indicam a fala dos personagens. Tudo o que Beatriz ouve, pensa e sente do sertão se funde em uma só experiência, representada em um único “bloco de texto”. A técnica que parte da crença da autora na dificuldade de separar as sensações – os pensamentos de e memórias, a fala e a escuta, afinal, são uma coisa só. “Às vezes uma pessoa está falando alguma coisa e se cala. E aí vêm alguns pensamentos, quando você interrompe [com travessão], corta a linha de pensamento e a troca que houve.”

Se de antemão a leitura pode parecer difícil e truncada, quem pega as páginas de Onça preta para ler logo se vê envolvido pela trama. Não só por falar de um universal, mas também porque entrar na história se parece mais ou menos com uma viagem, que segue entre idas e vindas. É, também, um convite para explorar a capacidade de perceber, com atenção, os diferente sotaques entre as frases. O sertão, diz Lucrecia, é um convite à fantasia. Mas também é território da descoberta do ouvir.

Vai lá: Onça preta, editora Benvirá, R$ 39,90

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