por Carol Sganzerla
Tpm #81

A ultramaratonista que se curou de um câncer e resolveu cruzar desertos a pé

Ela nunca foi atleta nem rata de academia. Mas, aos 52 anos, Monica Otero cruzou a pé dois desertos, uma geleira e duas serras. Tornou-se a primeira sul-americana a completar uma ultramaratona no deserto da Califórnia e a primeira brasileira a atravessar o Saara

O sol tosta pele e pensamentos. As pernas bambeiam na areia do deserto. Os pés são insuficientes. A água da garrafa borbulha e queima a garganta. O ar escasso não vem. O estômago embrulha. A ânsia de chegar é derrubada pela ânsia que toma o corpo. O suor dá a ela o banho que não toma há dias. A certeza da linha de chegada se distancia dos olhos, que insistem em virar. O equilíbrio a trai. O sol desaparece e um breu surge na luz do deserto. Um silêncio opaco. O fim de tudo?

Do nada, depois de minutos incertos, um claro incomoda a vista. Ela acorda confusa, vê perto do seu rosto quatro olhos puxados, seus lábios secos descolam, a boca abre, um líquido quente trespassa a garganta... Ouve um apito abafado, barulho de helicóptero... Está salva.

– Você vai ter que parar, diz a médica.
– Não, eu vou continuar. Não vou desistir.
– Você precisa parar.
– Ainda tem atletas atrás de mim?
– Sim.
– Se tem atleta atrás, estou dentro do tempo, vou continuar.

E continuou. Não seria um desmaio no Saara que a impediria de andar por mais dias seguidos. Ela não abriria mão de se tornar a primeira brasileira a completar a Sahara Race, ultramaratona que percorre 250 quilômetros da parte do deserto que compreende o Egito. E não entregaria fácil o troféu de primeira colocada na sua categoria. Foi o que aconteceu.

Monica tinha 51 anos em outubro de 2007 quando cruzou as pirâmides egípcias. Sua primeira reação foi tirar uma lata de Pepsi das mãos de um competidor que bem poderia ser um dos coreanos que a salvaram do desmaio. A visão estava embaçada. Era emoção demais vencer uma das corridas solo de longa distância mais difíceis do mundo. “A médica me deixou ir porque tinha certeza de que eu ia parar. E eu a surpreendi”, lembra ela.

Não foi a primeira vez que Monica Otero surpreendeu. Ano passado, na sua estréia em ultramaratonas internacionais, ganhou o título de primeira sul-americana a completar a Badwater, prova que atravessa o deserto de Mojave, no chamado Vale da Morte, na Califórnia.

Andar com fé eu vou
Antes de discorrer outros feitos dessa paulista de 52 anos, atente-se para o fato: Monica nunca foi atleta. Nunca foi rata de academia. Nunca controlou a alimentação. Nunca almejou uma medalha. Até descobrir que tinha um câncer.

O ano era 1995. O estágio da doença, avançado. Em um mês, Monica, então com 40 anos, perdeu 15 quilos. Viu o cabelo cair com a quimioterapia e parte do intestino ser retirada em duas cirurgias. Esteve perto da alta em um ano, até o câncer reincidir. E passou por mais uma cirurgia para colocar a bolsa de colostomia. “Nunca achei que fosse morrer. Falava: ‘Vou ver o meu filho crescer’.” Mário, na época com 3 anos, é 11 anos mais novo que o primogênito, Felipe. “Hoje sei por que ele veio tanto tempo depois: algo tinha que mexer em mim. Ele veio na hora certa para eu poder continuar minha trajetória”, conta Monica.

Em 2001, ela fez do sonho antigo sua nova trajetória: percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, no norte da Espanha. Casada com um espanhol na época, as idas ao país não foram suficientes para a façanha. “O câncer foi o recomeço, com ele, acordei: ‘O que estou esperando para fazer essa caminhada?’.” Ela foi, deixando a família receosa. Com a redução do intestino, tem de evitar tomar leite, suco, refrigerante, comer doces, verduras, legumes e frutas, exceto maçã. Vive à base de carne e frango grelhados, arroz branco, cenoura, vagem e muito chá.

 

Um ano depois de Santiago, Monica fez o Caminho do Sol, rota de peregrinação inspirada no trajeto espanhol. “Aí o bicho picou. Foi um caminho atrás do outro, faço tudo a pé”, solta. O Peugeot ela usa para ver a mãe em Andradina, onde nasceu, a 640 quilômetros da capital paulista. Monica conta que sumia antes de ir pra escola. “Ficava dando voltas no quarteirão. Essa história de andar vem de menina.”

Foi caminhando que a atleta conheceu o diretor da Brazil 135, ultramaratona na serra da Mantiqueira, que, junto com a Badwater, na Califórnia, e a Arrowhead, no gelo, em Minnesota (EUA), forma uma copa do mundo de corridas de 135 milhas (217 quilômetros). Em 2006, ela fez a prova teste da BR 135 e, em 2007, competiu. Sem tempo de montar equipe, foi sozinha. Debaixo de chuva, completou a prova em 67 horas. O limite era 60. “Mesmo assim, todos queriam saber quem era essa Monica que andava sem parar. Achavam que era uma menininha, né?”, ri.

Na chegada, o diretor já avisou: “Vou te inscrever para a Badwater”. “Eu falei: ‘Você é louco? Só a elite do esporte é que vai’.”Dos 3 mil inscritos, 90 são qualificados. Monica foi a primeira sul-americana a se classificar. Um mês antes, em junho de 2007, se instalou na região mais quente do deserto de Mojave e treinava dia e noite bebendo água quente. Na cintura, amarrava uma corda que puxava um pneu, para ganhar resistência. Tudo isso sob 55 ºC.

Que a fé não costuma faiá
A uma semana da prova, Monica viu seu pé ficar em carne viva por causa do calor. No dia D, retalhou o tênis inteiro. Nas 54 horas que cruzou os 217 quilômetros – à base de azeitona, Coca- Cola, isotônico e água –, teve o apoio da equipe de seis pessoas. Monica chorou, vomitou, teve diarréia. Mas nenhuma alucinação, como um atleta que encontrou Papai Noel. Para esfriar a cabeça, levou um cooler só para encher de gelo. O que a motivou a passar por isso? “A paixão por andar, a responsabilidade da medalha e o momento que passava [meses antes, tinha terminado o casamento de 28 anos, e o caçula, por acordo do casal, foi morar com o pai]. Foi algo que veio de dentro mesmo. Foi um rebuliço em mim.”

Monica não imaginava, quando se mudou para São Paulo, aos 13 anos, que a vida tomaria tantos rumos. Casou-se aos 23 após trancar o curso de psicologia e foi secretária em empresas como a Bom Bril. Ao curar-se do câncer, comprou uma cafeteria em Alphaville – onde mora – até vendê-la para financiar as corridas. Em média, uma prova custa R$ 15 mil. E na ultramaratona não existe premiação. O que leva, então, um atleta a se entregar à exaustão? “As pessoas que correm distâncias longas são diferentes. Não que sejam melhores que as outras, mas têm uma força dentro delas... é o que move. Uma dor no pé não pode ser empecilho”, lança.

 

 

 

Meu pé esquerdo
Ela, que voltou da Sahara Race com uma fratura no joelho, que o diga. Os quatro meses imobilizada não a impediram que participasse, em fevereiro de 2008, da Arrowhead, prova no gelo em Minnesota (EUA). Tirou a bota a um dia da largada, sob um congelante -35 ºC, e caminhou 45 quilômetros até torcer o pé. Nada que se compare ao furo no joelho que fez em Utah (EUA), nas montanhas mais difíceis do país. “Você anda em pedras soltas, passa por despenhadeiros. Caí no segundo check point e furei o joelho. Esguichava sangue. Eu lavava e colocava sal.” Monica não chegou ao terceiro check point a tempo de pegar água. Diziam: “Vai ter que parar, vai ficar sem água na montanha”. E ela: “De jeito nenhum. Fala pro diretor que me responsabilizo”. Não permitiram. “Aceitar desistir não está dentro de mim. Chegamos a um acordo: me levaram até o sexto check point e me abasteci. Se eu alcançasse o sétimo atrasada, sairia da prova. Tomei três analgésicos e voei naquelas montanhas. Cheguei. O diretor me esperava com lágrimas nos olhos. Eu repetia: ‘O que é um joelhinho para quem já correu sem pé?’.”

Não há doença, desmaio ou um furinho besta que a faça desistir. Que venham Atacama, Gobi, Antártica. Fins de mundo tão distintos, prestes a terem algo em comum: as firmes pegadas de Monica.

TPM+

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Parceiro de ultramaratona de Monica Otero, Rodrigo Cerqueira explica o que leva as pessoas a cruzar desertos e geleiras a pé e conta as piores loucuras que enfrentou pelo esporte, além de dar dicas para quem quer começar a correr

Por Regina Trama

“Comecei a correr em 2002. Eu pesava 100 quilos naquela época e trabalhava feito um louco. Meu primeiro filho estava com 2 anos e de repente eu me toquei que se eu continuasse daquele jeito eu simplesmente não iria vê-lo crescer, mas não achava nenhuma atividade que me chamasse a atenção. Foi então que vi uma matéria sobre dois corredores [Manoel Mendes e Sergio Cordeiro], ambos ultracampeões. Eles estavam treinando feito loucos pra completar a Badwater, prova temida disputada no Vale da Morte com temperaturas que podem chegar a 59º C. Os treinos em questão eram longos, de 70 quilômetros na lagoa Rodrigo de Freitas, por exemplo. Eu que não conhecia prova maior do que a São Silvestre fiquei completamente chocado ao saber que existia esse tipo de desafio. No dia seguinte calcei o primeiro tênis e me propus a correr 10 quilômetros. Consegui correr exatos 100 metros antes de o coração bater a 210 bpm. Após dois meses de insistência, corri meus primeiros 16 quilômetros. Baixei meu peso para 85 quilos e comecei a planejar como seria meu desenvolvimento na corrida até chegar a minha primeira ultramaratona. Meu sonho começava ali.”

A loucura
“Eu moro em Goiânia, cidade quente e seca, e a menor temperatura que eu havia enfrentado na vida havia sido 4º C numa viagem ao Rio Grande do Sul. Mesmo assim, a maior loucura foi correr a Arrowhead Winter Ultra, com 217 quilômetros atravessando uma trilha de snowmobile com temperaturas que podem chegar a -60º C. Enfrentei na Arrowhead frio de -47º C. Correndo na trilha sem apoio, com a água congelada, a roupa errada, a comida errada, eu estava com medo de morrer mesmo ou perder alguma extremidade do meu corpo, já que nessa temperatura bastam 5 minutos pra você começar o processo de frostbite – congelamento de dedos e afins. O oficial da prova me desclassificou, pois acreditou que se eu continuasse na prova poderia não chegar ao primeiro ponto de apoio. Foi uma loucura que quero repetir um dia, com certeza.”

O futuro
“Quando penso no futuro, a corrida, mais especificamente as ultras, estão comigo nas minhas imagens. Hoje temos ultramaratonistas com 70, 80 e até com 90 anos de idade. Eu corro com eles nas provas mundo afora. Então não penso em parar. Quero correr no dia da minha morte, pra chegar com muita endorfina ao outro lado.”

O momento mais incrível que viveu nessas andanças
“O mais incrível foi conhecer o deserto do Sahara. Eu fazia uma idéia errada do deserto, de que havia somente areia por todo lado, com dunas e mais areia. Mas na verdade o deserto um dia já foi mar. Então era como se eu estivesse andando no fundo do mar, com cânions, cemitérios vivos de calcário, formações rochosas das mais diversas e, embora tudo estivesse morto, eu sentia a natureza pulsar em cada lugar diferente. E a noite tudo é simplesmente espetacular. Nunca vi tantas estrelas como no céu do Sahara.”

Como começar a praticar?
“O melhor é começar devagar, sem pressa pra fazer nenhuma prova. Ir com calma e ao mesmo tempo aprendendo sobre os vários tipos de treinamento disponíveis. A gente consegue achar quase tudo na internet, de planilhas rápidas de treinamento até treinadores virtuais. Eu sugiro, para quem nunca correu, começar com 30 minutos por dia, intercalando 2 minutos andando e 1 minuto correndo. Aumentando devagar a duração do exercício, até chegar a 45 minutos após quatro semanas de exercício ou conseguir correr 2 minutos e andar 1 minuto. Após um mês de treinamento, é possível fazer 45 minutos somente correndo. Mas a primeiríssima coisa que uma pessoa precisa pensar ao querer se aventurar nesse ou em qualquer outro esporte é procurar um médico e fazer todos os testes necessários para saber o estado geral de seu corpo. Daí, sim, comprar um bom tênis (que varia de acordo com a passada de cada um) e cair na estrada.”

Seu blog: corromundo.blogspot.com

 

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