por Elka Andrello

O dia em que a Graziela resolveu ser vegetariana

 

 

 

Todas as vezes em que entra em lugar novo a Graziela some. Pode ser  em uma loja, supermercado, ou templo hindu. É só eu piscar e ela desaparece. E depois reaparece com um amigo novo, uma história para contar ou uma pergunta inteligente. Dessa vez estávamos em um restaurante em Pokara, pequena cidade no Nepal aos pés do Himalaia, onde eu estava fazendo uma reportagem para uma revista. Era um restaurante com muitos peixes no menu e um aquário onde os turistas podiam escolher uma truta fresquinha para comer. Como sempre, saí atrás da minha pequena exploradora e encontrei a seguinte cena: a Graziela falando pelos cotovelos dentro da cozinha, com o chef, os cozinheiros, lavadores de prato e boa parte dos garçons, todos em silêncio ao seu redor.

 

 

Ela se ligou que os peixes do aquário iam parar no prato dos fregueses, ficou horrorizada e, do alto dos seus 5 anos, tomada por compaixão pelos peixinhos, entrou na cozinha com lágrimas nos olhos para tirar satisfações com o cozinheiro. Ela argumentou, em nepalês, que matar é muito feio e que o peixe tinha direito de permanecer vivo e nadar feliz até ficar velhinho e morrer, como todos nós. Nesse dia virou para mim e disse: “Você sabe mãe, eu me preocupo muito com a felicidade das pessoas e dos animais”, e pediu para nunca mais comer nenhum bichinho.

 

A Graziela foi concebida, gerada e nasceu em um monastério budista onde eu morava, no topo de uma montanha, no Rio Grande do Sul. Desde pequena, recebeu colo de amorosos e sábios Rinpoches, mestres budistas do Tibete, e viveu em comunidade, aprendendo de perto como a atitude de cada um influencia a qualidade de vida de todos. Nessa época eu documentava em vídeo os trabalhos de pintura e escultura de artistas nepalêses e butanêses. A Gra sempre me acompanhava e ganhava um pincél e tinta para brincar. E durante dois anos e meio acompanhamos os trabalhos de arte na contrução de Budas e estupas. Dessa convivência com lamas, meditadores e artistas, ela aprendeu um pouco a ouvir o silêncio.

 

Por recomendação do Rinpoche, nos mudamos para a Índia, no vilarejo vizinho onde mora o Dalai Lama e fica o governo do Tibete no exílio. Logo no dia da nossa chegada, por uma sorte incrível, encontramos com o Dalai Lama no aeroporto e recebemos um abraço de boas vindas. Depois de um tempo, voamos para a Tailândia, e viajamos de norte a sul do país. A Grazi brincou com as crianças da tribo Karin, aquelas que usam argolas para alongar o pescoço, andou de elefante e de bicicleta por ruínas de Budas do século 13. A próxima parada foi Kathmandu, a capital do Nepal, onde moramos há dois anos ao lado da Grande Estupa. O som dos monjes fazendo as orações da manhã são nosso despertador, e os tibetanos refugiados nossos vizinhos e amigos.

 

Em São Paulo, parei o carro em um estacionamento na Avenida Paulista numa chuvosa e cinza segunda-feira de manhã. Ao entregar a chave do carro para o manobrista, a Grazi cochichou no meu ouvido com o mesmo tom de voz que defendeu os peixes em Pokara: “Mãe, por que esse homem é tão triste?”. Tentei explicar para ela como é dura a vida de um trabalhador em uma cidade grande como São Paulo. Ela ouviu em silêncio e respondeu: “Você sabe mãe, eu me preocupo muito com a felicidade das pessoas e dos animais”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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