por Roberta Borges
Tpm #87

A fotógrafa Roberta Borges leva a prancha e a familia às ondas do Peru


A fotógrafa e surfista Roberta Borges juntou marido, filha e amigos e encarou a esquerda mais longa do mundo, em Chicama, no Peru


Desde que comecei a surfar ouvia falar de Chicama, na costa norte do Peru – a 560 quilômetros da capital, Lima –, onde quebra a esquerda mais longa do mundo. Para quem não sabe, o país tem as ondas mais constantes do planeta, pois sua costa recebe todos os tipos de ondulações em qualquer época do ano. Ficava imaginando como seria surfar uma onda longa como essa, ainda mais para mim, que sou goofy, ou seja, ponho o pé direito na frente da prancha e por isso deslizo virada para ondas que quebram de esquerda, a direção da onda de Chicama. O local também me intrigava: um deserto com paisagem peculiar, como aqueles que aparecem em filmes de caubói americano.

Foi numa conversa com minha filha que fiquei sabendo que alguns amigos nossos queriam ir a Chicama, porque lá, há menos de um ano, foi inaugurado um resort bem em frente às ondas. Fico muito feliz quando vou para o mar com a Stephanie, minha filha de 16 anos, e com o Micki, meu marido. Pesquisamos e vimos que o local seria perfeito, com toda a infraestrutura de que precisávamos: conforto, boa comida e apoio com bote para surfar.

Conseguimos reunir, além da família, bons amigos. Uma delas, a Tanira Damasceno, uma das pioneiras do surf feminino da década de 80, veio de Miami para não perder a viagem. Ela é como uma irmã. Juntas surfávamos pela Sundek, éramos parceiras de equipe nos anos 80 e revezávamos os títulos. Eu fui a primeira campeã brasileira; ela, a segunda. Fui para o mundial da Inglaterra, em 86; ela, para o de Porto Rico, em 88. Tem coisa melhor do que surfar com uma galera amiga?

Assim que chegamos, o sol estava se pondo no mar e enlouquecemos ao ver as linhas entrando na baía em Point – um dos picos onde quebra essa esquerda de Chicama. Foi aquela gritaria, mas a noite veio e só nos restava esperar ansiosamente pela manhã seguinte. Éramos quatro famílias, 12 pessoas, num lugar muito maneiro e ainda novo, o Chicama Surf Resort, com uma estrutura para o surf como nunca tínhamos visto, especialmente no Peru, onde o povo e o lugar são pobres. Antigamente, os fanáticos por ondas iam a Chicama e ficavam no El Hombre, o único hotel do pequeno povoado – e nada aconselhável.
Ficamos impressionados com a recepção. Uma equipe cuidava de nosso equipamento enquanto outras pessoas nos mostravam as instalações: academia, sala de jogos, sauna, massagem com hora marcada, piscina com vista para as ondas, bar e restaurante com chef e quartos com janela para o mar.

 

Logo pela manhã, nem acreditamos quando vimos nossas pranchas com as quilhas colocadas e as roupas penduradas numa sala especial para equipamento. Bem que tentamos passar parafina nas pranchas, mas nem isso eles nos deixaram fazer. Enquanto isso, o bote de apoio já estava entrando na água à nossa espera. Todo mundo se entreolhava e não acreditava. Tudo era novidade, inclusive o caminho de bote até o pico!

 

A Tanira era uma das mais agitadas, sempre querendo mais, assim como Micki. Com mais cautela vinham as garotas, Stephanie e Katrin (amiga dela), que aguardavam as ondas na segunda sessão. Foi incrível a vibe que se estabeleceu no grupo, indo e vindo naquele bote sob a orientação de Delmar, “el capitan”. Ele conhece como ninguém a forma de navegar em alto-mar e nos levou até as ondas todos os dias. O cara foi fora de série e vibrava a cada onda que pegávamos. Após quatro longas ondas ninguém mais conseguia subir no bote, faltava força, era inacreditável! A onda é tão longa que, se as pernas não estiverem bem resistentes, doem. Chega um momento em que você para e pensa o que pode inventar para fazer em cima dela.

Surf de remo
Fora toda a emoção de surfar a onda mais longa do mundo, descobri Jesus, o Zorro, o fotógrafo de Chicama que registrou, por uma semana, nossos momentos de aventura em águas geladas peruanas. Nativo da região, ele é o único fotógrafo local que vive de clicar surfistas de fora. Ofereci meu equipamento a ele, que ficou louco, disse que nunca tinha usado uma lente daquelas. E eu, assim, pude curtir o surf como há muito tempo não fazia, sem a dúvida que me persegue: surfar ou fotografar?
A condição de surf em Chicama exige que o mar esteja grande, por isso durante a baixa de ondas aproveitamos para conhecer Trujillo, a cidade mais importante no norte peruano – e a terceira maior do país –, aonde chegamos de avião vindo de Lima. Em outro dia visitamos Huanchaco, um balneário a 15 minutos de Trujillo. Ali as ondas ficam bem próximas à praia, mas a entrada por cima das pedras submersas demora e é impossível sem o uso de botas de neoprene.

É interessante estar fora do mar esperando pelas ondas e apreciar de perto a pesca solitária nos cavalinhos de totora, espécie de junco amarrado. Cada pescador larga sua linha ou minirrede com isca e aguarda para puxá-la de volta. Para sair do mar, eles surfam com seus cavalos e com a ajuda de um remo.

Ainda em Huanchaco, é legal sentar em um bar, comer um ceviche (prato típico, à base de peixe branco marinado em suco de limão, cebola, abacate, milho e/ou outros legumes) e tomar uma Crystal, cerveja peruana, gelada. Na mesma avenida, encontram-se lojinhas com artesanato peruano com bons preços.
Outro surf point bem conhecido, a 35 quilômetros de Chicama, é Pacasmayo.

Visitamos as ruínas de Huaca de La Luna e a cidade Moche. São ruínas impressionantes que foram descobertas há pouco tempo e que estão sendo escavadas aos poucos. Muitas surpresas aparecerão.
Essa trip também foi uma surpresa maravilhosa. Surfar num lugar como esse com minha filha era um desejo de uma época em que ela nem existia. Hoje o surf, para mim, é isto: estar no mar com pessoas de que gosto e curtir as ondas com alegria pela diversão e integração com a natureza. Simples assim.

* Roberta Borges, além de fotógrafa, produz o www.ehlas.com.br, revista de surf feminino.


DICAS

QUEM LEVA
A GOL opera voos para Lima partindo de Porto Alegre. Ida e volta de Porto Alegre a Lima, R$ 1.946. A taxa de R$ 65,35 é paga na volta. É cobrada uma tarifa de R$ 100 por prancha em cada trecho de viagem. LAN Airlines, ida e volta, de São Paulo a Trujillo, com conexão em Lima, R$ 1.290, com tarifas e 3% de desconto no www.lan.com. O voo de Lima para Trujillo sai por R$ 448,05 com tarifas. Não é cobrada taxa de prancha, mas peça isso por escrito para o seu operador, pois sempre há os desavisados. Eu fiz essa e me salvei da taxa.


ONDE FICAR
Chicama. Chicama Surf Resort. A Nivana Surf Trips (www.nivana.com.br) é a agência de turismo que tem exclusividade de venda do resort. Há dois pacotes distintos: para surfistas e não surfistas. Surfistas têm direito às saídas de barco, translado até Pacasmayo e as mordomias com o equipamento. O pacote de sete noites, com quarto triplo, em baixa temporada, sai, no mínimo, R$ 3.940. O pacote de 21 noites, em quarto individual, durante alta temporada R$ 12.181. Para quem não surfa, o pacote varia de R$ 3.554 a R$ 11.023. www.chicamasurfresort.com.

O Clickhotéis oferece opções de hospedagem em todos os lugares do mundo. Você encontra hotéis em 12 cidades do Peru, incluindo Trujillo e Lima. Em Trujillo, a dica é o Libertador Plaza Mayor Trujillo Hotel Rua Jr. Independencia, 485 – Plaza de Armas. Diária: R$ 342. Em Lima há 20 indicações, como o Miramar Hotel. Rua Jr. Bolognesi 181 – Miraflores. Diária: R$ 196. Reservas Clickhoteis: (11) 2196-2900, www.clickhoteis.com.br.


AONDE IR
Trujillo. A 15 minutos de Trujillo se encontram as ruínas de Chan Chan, considerado Patrimônio da Humanidade. Pacasmayo Projeto Arqueológico Huaca de La Luna. Visita às áreas de escavação e conservação. www.huacadelaluna.org.pe. Aberto todos os dias das 9h às 16h. Ingresso: US$ 3,50 (adulto), US$ 1,50 (estudante), com acompanhamento de guias em inglês ou francês.

ONDE COMER
Huanchaco. Lugares onde há frutos do mar – especialidade da região. Big Ben, www.bigbenhuanchaco.com. Lucho del Mar, av. Larco, 600.

ONDAS
Nas redondezas, as ondas grandes quebram de maio a junho; a melhor época de tubos é de novembro a janeiro; e, de janeiro a abril, as ondas são mais fortes. No www.windguru.com há a previsão das ondas e do tempo. De acordo com o site da Nivana, é aconselhável estar atento nos dias de crowd, porque muitos peruanos ficam na água e eles podem ser “bem chatos”.

O QUE LEVAR
É necessário apresentar o certificado internacional de vacina contra febre amarela com dez dias de antecedência. A moeda peruana se chama nuevo sol, mas o mais indicado é levar dólar americano.
Pranchas: no mínimo duas; uma para mar pequeno e outra para quando ele subir.
Roupas de neoprene: fundamental levar long john 3mm e botas. Se puder levar dois longs, melhor, pois você terá sempre um seco. Se ficar no Chicama Surf Resort, não vai ser preciso, pois a equipe do hotel, assim que você sai da água, leva sua roupa para uma centrífuga e logo ela está seca. A bota é importante, pois o fundo do mar é de pedra e, se você não tiver a sorte de ter o bote, terá que caminhar pelo menos 15 minutos pelas pedras. Silver tape sempre, em qualquer viagem com prancha é fundamental, pois não dá para saber como elas chegarão após os voos.

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