por Pedro Alexandre Sanches

Artista trans baiana que cantou com Emicida e Pabllo Vittar em “AmarElo” fala sobre autoaceitação, preconceito e a alegria em trocar de nome

“Se a gente não se vê, a gente não é”, filosofa a artista baiana Majur, que conquistou atenção e admiração no ano passado ao protagonizar com Emicida e Pabllo Vittar o videoclipe do rap “AmarElo”, um libelo contra a depressão e a falta de autoaceitação. O processo de se ver, e por isso ser, tornou-se mais completo em 30 de janeiro passado, quando Marilton dos Santos Conceição Jr. oficializou na Defensoria Pública da Bahia o nome de Majur. 

Autodeclarada como pessoa não-binária, Majur tem 24 anos e já desponta como uma das artistas mais autênticas da cena contemporânea baiana. Apadrinhada pelo cantor Caetano Veloso, tem o respaldo de uma história que começou na Favela do Uruguai, na Cidade Alta de Salvador, e passou pela igreja batista, pelo coral sinfônico, pelo colégio militar e pela faculdade de design antes do reencontro definitivo com a música. Neste primeiro semestre, deve sair seu primeiro álbum. Majur topou interromper um retiro espiritual para um papo sobre gênero, sexualidade, preconceito, axé music e Carnaval.

Trip. Como começou a sua história na música?

Majur. Eu nasci em Salvador e morei desde criança na Favela do Uruguai. Vim de família muito pobre. Minha mãe era mãe solteira, meu pai abandonou o lar quando eu tinha 2 anos. Eu ia ser Mateus, mas meu pai foi lá e colocou o nome dele, Marilton dos Santos Conceição. Nunca me reconheci nesse nome. É difícil chegar até entender e assumir o que você realmente é e quer ser. Mas passei a minha infância inteira morando na favela, participando de todos os projetos sociais, e foi assim que comecei na música. Com 3 anos eu estava cantando na igreja batista que minha mãe frequentava. Aos 5, entrei num coral de um projeto do governo com crianças carentes. Quando você é pobre as oportunidades são mínimas, mas minha mãe me criou com muita segurança e autoestima. Ela é sócio-educadora, trabalha com ressocialização de menores infratores, e sempre foi um espelho pra mim. Com 16 anos, entrei no Colégio da Polícia Militar.

Como foi essa experiência? Minha passagem não foi muito longa porque eu não conseguia me encaixar nos padrões de militarismo que eles tinham. Eu não me reconhecia ainda como pessoa trans, mas já tinha algumas questões. Infelizmente o colégio não deixava que eu fosse livre. Com o tempo eu consegui entrar no coral do colégio. Fiz diversas cerimônias da polícia aqui em Salvador, como passagem de general, capitão, coronel, mudança de governo. Saí do colégio expulsa por indisciplina porque eu não queria, por exemplo, cortar o cabelo. Os meninos tinham que carregar fuzil, desfilar no 7 de setembro, e tudo isso exigia uma masculinidade que eu não tinha, nunca tive. 

Foi uma experiência violenta? Nossa, sim. Se eu tivesse algum sonho, naquele momento, lá dentro, poderia ser ceifado. Graças a Deus eu tive muita autoestima. Imagina uma pessoa trans passar por um colégio militar. É meio doido. Saindo do colégio, continuei a estudar e escolhi o design, que me abriu outro olhar através de uma das matérias do curso, a semiótica. Passei a tentar me descrever como pessoa e percebi que não era design o que eu queria fazer, era música. 

Você ficou mais conhecida pelo Brasil pela música “AmarElo”, com Emicida, que tem uma mensagem muito forte. Como foi sua participação? Com a mudança de governo, estamos num processo de quebrar coisas que a gente conquistou e construiu. Tudo isso acaba com a sociedade e com os grupos LGBTQIA+, que são engolidos diariamente pelo tradicionalismo. São pessoas que estavam se matando muito. Antes do Emicida criar a música, um amigo dele tentou se matar porque é preto, pobre, mora na favela e não tinha mais oportunidade. Acabou que Emicida chamou eu e a Pabllo Vittar, que temos histórias muito parecidas. Nós somos três personalidades que temos essa força. Os três pobres, com vidas em que o pai não está presente e a mãe está, onde a educação e a cultura são as únicas ferramentas que mudaram nossas vidas. Quando a gente se encontra em “AmarElo”, é sobre isso que a gente fala: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, uma parte da música que é de Belchior. A música rodou tanto e continua rodando porque ela não é uma música, é uma tecnologia de amor, troca, cuidado, incentivo, motivação, etc. Neste momento bem complicado da nossa política, estar juntos é o que nos faz estar vivos. 

Como você vive o enfrentamento ao racismo, à transfobia e à homofobia? Na sociedade em que a gente vive não houve um reconhecimento do que era rico aqui no Brasil, e sim do que veio de fora. E nos foi ensinada essa cultura, de sempre adorar coisas de fora. Eles disseram como a gente deveria se portar, quem éramos nós. A história do Brasil é uma história de brasileiros que foram apagados pelos europeus. Basta ser negro pra ser chamado de pobre e ladrão. Mas hoje o movimento negro e o movimento LGBTQIA+ criaram forças, as pessoas foram se juntando. Quando a gente está junto a gente vence a guerra. O que está acontecendo agora é uma revolução. Reconhecendo que somos em número muito grande, a gente não aceita mais esse lugar de opressão, de medo. Eu estou muito feliz, porque essa é uma revolução matriarcal, que sai do patriarcal, onde o homem é o centro e manda em tudo. O governo e a religião católica – e depois a evangélica – inventaram o discurso de ódio contra pessoas LGBT, mas hoje a gente não aceita. Vemos o tempo inteiro casos de racismo e transfobia porque agora a gente está mostrando que existem e não queremos mais que aconteçam. 

É muito novo as pessoas trans poderem se expressar através da música popular. Como tem sido abrir esse caminho? Sempre foi difícil. Neste momento, parte das pessoas entendeu que é necessário abrir mão de seu privilégio pra dar chance de ocupar seu espaço às pessoas que nunca o tiveram. As pessoas trans são massacradas o tempo inteiro, são invisibilizadas. Não é à toa que a única profissão que uma pessoa trans conseguia ter era ser prostituta. Se a gente não se vê, a gente não é. As pessoas precisam se ver na TV, na novela, no jornal, na música, nos escritórios. É muito difícil você querer ser alguma coisa que não vê ninguém sendo. Que bom que o Brasil abraçou isso e está mudando, escolheu mudar. Mas a gente percebe em olhares quando a pessoa não gosta da nossa presença. Só que é aquilo: atura ou surta. E se surtar, gato, surta sozinho. O problema do preconceito é da pessoa que está sendo preconceituosa. Não é problema nosso. 

Como foi a experiência de mudar o nome no cartório? Nossa! É uma experiência muito boa. Não tenho palavras pra descrever o momento em que minha mãe bateu parabéns na Defensoria Pública e fez todo mundo bater parabéns porque eu estava nascendo de novo. Essa é uma história que a gente não vê todo dia. A maioria dos pais do público LGBT não aprova. Minha mãe, mesmo sendo evangélica, me respeita, sabe que tem uma filha e filho – porque sou não-binário. A decisão inclusive partiu dela, que disse: “Não consigo mais te chamar de Júnior”. Foi lindo demais. 

O que é ser não-binário? Estou tentando educar a mídia em relação a como falar comigo, por exemplo, em ela ou ele. Não-binário é quando você não se identifica com nenhum dos dois gêneros. É o surgimento de um terceiro gênero, que não é feminino nem masculino. Internamente eu aceito o masculino em muitas partes. Mas não me sinto completamente pertencente ao masculino, e isso também vale para o feminino. É muito complexo. A minha estética é feminina, me represento com uma imagem feminina, mas o feminino é muito diferente do ser mulher. Eu sou feminina, não sou mulher. Sexualmente falando, me relaciono com homens, porém também tenho algumas experiências não-sexuais com mulheres. Antes de me reconhecer como não-binárie, eu me reconhecia como gay. 

A origem na igreja e o Carnaval entram em conflito? Não. Eu segui a religião evangélica pela minha mãe, mas hoje sou do candomblé. Eu já reconhecia a matriz africana na minha família, que por parte de pai toda é do candomblé. Não sou cristã. 

Você nasceu no auge da axé music. É uma influência para você? Caramba, o axé nunca foi influência pra mim. Nunca me chamou muito a atenção, até porque era uma música de discurso, pra falar mal do sistema, do que acontece na cidade, nas ruas. Mas eu não tinha, naquele momento, na minha adolescência, a sensibilidade de enxergar o outro. Era mais a festa mesmo, vamos pular, vamos ser feliz. Eu gostava, mas nunca tive como referência. 

Como você define a sua música? Chamo de world music porque não consigo definir um tipo específico de estilo musical que eu cante. Acabo cantando todos, porém a minha base vem de música MPB, por causa dos corais. A gente estudou muita música brasileira, os autores e cantores como Caetano Veloso e Chico Buarque. Agora, quando eu cresço, existe uma cultura aqui na Bahia que é o som dos tambores, e sempre me identifiquei muito. Acabei levando Margareth Menezes como referência, como precursora do afropop, que é a mistura da música pop emergente, contagiante, com a batida de tambores, atabaques e instrumentos da cultura baiana. Mas se você mandar eu cantar um arrocha, eu canto.

Como vai ser o seu Carnaval? Nossa! Eu vou estar muito feliz. Este ano sou a rainha dos Mascarados, vou estar nesse bloco com a Margareth Menezes, vou sair no trio da Preta Gil. No dia 18 vou estar no Rio de Janeiro, no bloco Amigos da Onça. É muita coisa. Carnaval é muito doido, a gente começa e não sabe terminar.

Quando chega o primeiro disco da Majur? Está programado pra sair no primeiro semestre. Estou em processo de produção desde o ano passado. A gente está finalizando essa produção, com convites de outros artistas, está muito bonito. Não vou falar muito porque ainda não posso.

Créditos

Imagem principal: Vinicius Moreira / Divulgação

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