por Marina Demartini

A paulista Renata Brenha leva referências latinas para a semana de moda de Londres, enquanto se inspira na culinária e na gambiarra tipicamente brasileira

Apesar de embaralhar o inglês com o português, é possível ouvir um “meu” entre as palavras de Renata Brenha. A estilista, nascida no interior de São Paulo e criada na capital, já viveu na Argentina e nos Estados Unidos e há dez anos escolheu Londres, onde estudou moda feminina na Royal College of Art, para morar e trabalhar. Essa união do pessoal com o profissional segue no seu estúdio de criação, que também é sua casa e restaurante vegano em parceria com o marido, o chef de cozinha argentino Hernan De Majo.

O ateliê, no bairro de Hackney, faz jus a uma das regiões mais artísticas da capital britânica. Por fora, não há uma placa que sinalize um estúdio de moda, muito menos a de um restaurante. No interior, não havia sinais do clima de ansiedade que precede um desfile. Mas, na última sexta-feira, 15 de fevereiro, Renata apresentou sua coleção na semana de moda de Londres, no Discovery LAB (um espaço voltado para a inovação no evento), repleta de referências latinas.

Curiosa por antropologia, a paulista mergulhou nas experiências e rituais de povos das regiões de Chiapas e de Oaxaca, no México. Durante o mês que passou lá, em 2017, notou como a silhueta das roupas contavam histórias. “A postura dos zapatistas e a maneira fluida como as mulheres amarram [com tecidos] os filhos ao redor do corpo são incríveis. Você não sabe identificar o que é peito, o que é bebê”, brinca a estilista, que criou materiais e roupas para contar essas histórias. 

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Para transformar tecido em textura, plissou peças que tinham mais de 40 metros e que, por conta do achatamento, se transformaram em apenas quatro metros. Dessa técnica surgiu o vestido Oaxaca Negra, inspirado no quadril das mexicanas. “No México, há um tear com estrutura que possibilita se enrolar ao quadril da mulher. Assim, o tecido que sai dessa máquina é exatamente do tamanho do quadril da mulher que teceu a peça”, explica Renata.

Já para a saia Cacau Sagrado, o tecido é mergulhado em um caldo do fruto e depois prensado diversas vezes para fixar a cor. A estilista queria capturar o espírito da cerimônia do cacau no México. “Os guerreiros tomavam o cacau para abrir o coração e deixá-los prontos para a batalha. Achei isso tão forte que quis tentar passar essa sensação para a roupa.”

Essa não é a primeira vez que alimentos se misturam às criações da estilista: uma calça que se une a um casaco e uma espécie de coroa usam a pimenta seca como matéria-prima. Outra peça que segue essa proposta é um casaco de chef de cozinha manchado de sangue de animais, desenvolvido em parceria com o artista russo Pëtr Davichenko. Ele enviou os tecidos que usa para enrolar animais que encontra mortos na estrada para Renata criar a peça.

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Colaborações, aliás, são essenciais no trabalho da estilista. Para o desfile, ela contou com o jardineiro Luciano Velasco, que criou o cenário para a apresentação; o dançarino e estilista Saul Nash, que preparou a coreografia das modelos; e a compositora egípcia-iraniana La Fawndah, que mixou uma canção especialmente para a apresentação. Trabalhar com pessoas de várias áreas é o que Renata mais gosta da moda. “Quando poderia trabalhar com o meu amigo jardineiro? Acho que outros universos não deixam isso acontecer.”

Essa mistura de profissionais se une a um elemento essencial para a criação da estilista: a gambiarra. Para a paulista, ela é "revolucionária”. Em sua nova coleção, uma das peças que mostra esse lado inventivo é um top criado a partir de uma meia-calça, em que uma abertura é feita na parte do tecido que ficaria entre as pernas. “Minha mãe fazia isso para me esquentar quando era pequena, usava por baixo do uniforme”, relembra.

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Renata também recicla peças e tecidos, como na capa de chuva feita a partir de outros casacos. Cheia de zíperes, a peça tem um truque: se transforma em uma bolsa pequena. A roupa, conta, surgiu de uma vontade de unir os aprendizados no México, onde a escassez de produtos é constante, com o cotidiano chuvoso em Hackney. “Não faz sentido recriar uma realidade em que não vivo. A minha comunidade é em Londres”, explica. “Não gosto quando a sustentabilidade se torna uma desculpa para se cobrar mais pela roupa, uma tática para vender peças de luxo”, defende a estilista.

Depois do desfile em Londres, Renata mostra em um showroom, durante a semana de moda de Paris, sua coleção e essa bagagem que une referências latinas à gambiarra tipicamente brasileira.

Créditos

Imagem principal: Julia Pecegueiro/Divulgação

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