por Laís Bodanzky
Tpm #93

Laís Bodanzky pesquisou escolas particulares para seu novo filme e conta o que viu à Tpm

Quando mergulhei no tema da loucura para fazer o filme Bicho de Sete Cabeças (2001), meu maior aprendizado foi descobrir que para tratar do sofrimento mental não se deve isolar a pessoa, ao contrário, a sociedade deve saber receber aquele que tem dificuldade e medo de se relacionar. O isolamento é o caminho mais fácil para se chegar à loucura.

Engraçado é que me vejo de novo querendo derrubar muros, desta vez não dos manicômios, mas das escolas. Sendo mais específica, das escolas particulares. Fazendo uma grande pesquisa para o meu próximo filme (As Melhores Coisas do Mundo, lançamento em abril de 2010), notei como o jovem fica a maior parte do seu tempo dentro da escola. Eles ficam mais tempo em contato com os colegas da escola e professores do que com seus pais e familiares. A escola é a sua família.

Os pais vão trabalhar tranquilos porque sabem que seus filhos estão trancados em uma instituição que os protege. Por coincidência, a rotina da escola e sua arquitetura se assemelham à de um cárcere. Muros altos, vigias no portão, câmeras pelos quatro cantos, toque de recolher, momento de sol no pátio, corredores enormes, multidão indo para as suas “celas” de aula. É dessa forma que eles são protegidos do mundo cruel e violento da cidade. Isolar para educar. Isolar para educar?

Mundo de Truman
Dentro dessa bolha de proteção estão os alunos. E, muitas vezes, em um número bem grande. De tal forma que são conhecidos frequentemente não pelos nomes, mas pelos números. A vigilância é constante. Não só a instituição escola vigia seus alunos, como também os próprios alunos se vigiam o tempo todo. A vigilância do próprio aluno toma proporções cruéis quando alguém vira uma “ovelha negra” dentro do grupo. Para esse fenômeno os ingleses já deram um nome: bulling.

O bullying acontece sem que a escola perceba, ele é como um efeito mágico de Harry Potter, só os alunos enxergam. Na adolescência, todos querem ser únicos, não gostam de ser classificados como adolescentes, eles se consideram inclassificáveis, afinal, se sentem únicos. Mas quando alguém realmente diferente aparece, ou por comportamento ou por visual (muitas vezes esses dois itens estão relacionados), o grupo logo o identifica e classifica como alvo em potencial para piadas, risadas, maldades, isolamento. Com a internet e os celulares-câmera no nosso cotidiano, essa classificação extrapola a escola. O jovem vítima do bulling muitas vezes muda de escola, mas quando chega à outra é como um pesadelo, todos já o conhecem e o bullying continua.

Educar os pais
O bullying é camuflado por outro fenômeno da escola moderna, o medo da instituição escola de encarar os pais e educá-los. Pais que acham que pagar caro já é o suficiente para a escola não encher o saco deles, que trabalham tanto, coitados. “Eu pago para não ouvir alguém me criticar, ou criticar meu filho.” Os filhos são reflexo direto de seus pais, não fiz faculdade de psicologia para dizer isso, mas notei na minha pesquisa o quanto é explícito. Logo, para uma escola educar um aluno ela tem também que educar os pais do aluno.

Conheci uma educadora que não tem medo dos pais, Therezita Pagani. Ela tem o método Therezita de ensinar (ela chama de antimétodo). Para adaptar os alunos na sua escola, Te Arte, ela primeiro adapta os pais, fala duro com eles, aponta seus erros e fraquezas, te faz chorar ao colocar o espelho da verdade na sua cara. Nada de colo o tempo todo, nem para a criança muito menos para os pais. Escutei ela falando para um grupo de crianças o seguinte pensamento: “Se seus pais falarem para vocês cuidarem de seus irmãos mais novos porque, afinal, vocês já são grandes, respondam que não vão cuidar, que cuidem eles, eles que quiseram ter filhos. ‘O filho é teu, eu vou brincar!’.” Outra da Therezita: é proibido pedir desculpas na sua escola. A desculpa é o passaporte perfeito para se repetir o erro, porque depois é só falar “me desculpe”. Se errou, errou mesmo, leva o “limite” e vai pensar em um canto, não tem desculpa.

A escola deve preparar o aluno para se tornar um cidadão. Como explicar o que é cidadania se a escola esconde a cidade do aluno? É baseado nessa reflexão que o MEC criou uma secretaria especial, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, para poder aplicar o conceito da “escola estendida” nas escolas públicas de todo o país. Em São Paulo esse pensamento já foi colocado em prática com o Bairro-Escola da Vila Madalena. A escola abre suas portas e os alunos se relacionam com a comunidade do bairro com o apoio de um educador comunitário. O coordenador desse projeto é o educador e jornalista Gilberto Dimenstein, que não por acaso é coautor da série de livros “Mano”, que inspirou o roteirista Luiz Bolognesi a escrever o roteiro do meu próximo filme, As Melhores Coisas do Mundo.

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