Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Nunca houve bons ou maus tempos. Todos os tempos são iguais. Únicos se fazem apenas para nós porque assim os pintamos. Eu ia dizer que ultimamente, na prisão, há muitos presos que nada têm a ver com o submundo do crime. Mas estes sempre existiram. Só que agora parece que a porcentagem destes infelizes aumentou consideravelmente. Digo infelizes pelo fato de que estar preso para qualquer pessoa é uma infelicidade inenarrável.
São pessoas que, muita das vezes, trabalharam a vida toda. Contribuíram com INPS; ICM; IR; IPTU e outras mazelas, por anos a fio. De repente, pendurados pelas dívidas, prestações, desemprego, ou premidos pela impossibilidade de sustentarem suas famílias, transigiram com o ato criminoso. Vêem outros que cederam se dando bem e julgam que também conseguirão. Tomam todo o céu que lhes falta para iniciar suas rudes experiências.
E dá certo. Pior é que dá certo mesmo. Pelo menos nas primeiras vezes. Particularmente quando o tráfico de drogas é o meio. Ganham muito dinheiro, já que não são conhecidos da polícia. E, como todos os espertos, aproveitam as marés montantes.
Reinvestem querendo multiplicar o capital. Um gole bebido no escuro. No começo, a sorte e a lei das probabilidades os protegem, com seus olhos azuis. Quando me contam suas histórias, tudo me soa como um romance aberto que deixou pelo meio de ser escrito. Cometem erros primários. Exatamente por serem primários. E são presos, como só é de acontecer. Na maioria das vezes saem logo. Mais uma vez, por serem primários
Alemão era um desses. Rapagão bem apessoado, chegou assustado. Proveniente da classe média, casado, com um filhinho pequeno. Temia que os companheiros de sofrimento abusassem de sua inexperiência. Fala-se tanto sobre cadeia…
No começo era muito triste. Dessas tristezas amorais que provocam dolorosos poemas e profundas imagens. Havia sido preso vendendo meio quilo de cocaína a um policial disfarçado. Já fazia alguns meses que empatara todo seu capital na droga. Estava bem de vida, mas irreversivelmente preso. Em outras palavras: fodido.
Ficava meio que escondido. Se é que dá para se esconder em uma prisão. Mas, como o presidiário é um ser humano como outro qualquer, aos poucos foi aparecendo. Sempre generoso e tendo dinheiro para mandar trazer o que se precisava, fez amizades, relacionou-se e tomou segurança. Quando sentiu o chão firme embaixo de seus pés, decidiu participar. Pessoas simples e extrovertidas, como ele, se dão bem em qualquer lugar do mundo. A rapaziada do movimento foi percebendo que o Alemão era boa-praça, ‘sangue bom’.
Ingenuidade genuína não tem cura. E Alemão era mesmo daquele tamanho. Inocente de fazer dó. Enquanto a vida rolava segredos de parábolas, o danado fazia amizade com todo mundo.
Gente morrendo ao seu redor, gritando como porcos, e ele parece que não percebia onde estava. E o interessante é que ninguém se aproveitava de sua confiança irrestrita. Parecia coisa de criança. Tão contrastante com o meio, que suscitava admiração e respeito. Os companheiros o olhavam surpresos de ainda existir gente assim, confiantes e bobos. Riam dele, e ele ria em retorno, aí os companheiros ficavam até sem jeito.
Domingo era dia de visita. De repente adentra ao pátio uma mulher que, de tão bela, podia bem candidatar-se a miss qualquer coisa. Cabelos prateados, longos e esvoaçantes. Olhos que pareciam de gato, de tão verdes e vivos. Pele acesa, quase fosforescente. Dessas de deixar a boca da gente aberta. Um rosto que, de tão bonito e delicado, não encontro expressão que lhe faça justiça. Trajava um desses vestidinhos básicos, sem enfeite algum. Preto, de alcinhas. Seu corpo dourado o enfeitava. Escultural dos pezinhos ao pescoço longo. Não havia quem não quebrasse o pescoço para olhar. Acho que foi para mulheres assim que se inventou a expressão: ‘de fechar o comércio’. Um avião.
As outras mulheres estavam incomodadas com tamanha formosura. Era injustiça. Simplesmente não dava para competir. Sugava a atenção de todos os presentes, como um enorme aspirador de olhares. Era um sonho de luas enormes. Era até azul, de estrelinhas circundando-a, misteriosamente. A mulher causava inquietude a todos. Era um monumento eletrificado.
E, era a esposa do Alemão. Ele deu um beijinho, conversou um pouco e deixou-a ali para ser devorada por centenas de olhos. O marido parecia nem aí com ela. Conversava com uma velhinha que ninguém vira entrar, sua mãe. Parecia nem ligar para aquele escândalo de mulher.
E ela parecia acostumada àquela admiração geral. Não ligava nem um pouco. Sequer percebia o tumulto que causava. Era outro ‘alemão’ de saias. Sentou-se à vontade. O vestido subiu, eram muitas curvas, a calcinha aparecia e desaparecia, preta, para torturar os olhos do povo. Em seus olhos verdes, pareciam brincar pequenas gotas de orvalho.
Todos se esforçavam para não olhar. Visita na cadeia é sagrada. O simples olhar podia causar morte justificada. Mas era impossível. O instinto era mais forte. E a ‘pobre’ sorria como uma rainha. Conversava com todos na maior naturalidade. Devia ser linda desde que nasceu, assim era qual fosse uma segunda natureza. Seus dentes faiscavam ao sol, de tão brancos. Em sua voz quente, um rumor rouco que varava ao fundo de todos os ouvidos. Além de tudo, a danada era muito simpática. Simples, doce e extremamente agradável.
Não havia como alertar o Alemão. Era preciso que sua mulher se recompusesse. Não podia ficar com aquelas pernas maravilhosas à vista, assim. As outras mulheres estavam ficando nervosas. Não queriam compreender. Julgavam que a coitada estivesse se exibindo para seus ‘grandes’ maridos presos. Mas também ninguém queria ofendê-los. A inocência, quando excessiva, constrange. O pavilhão todo parecia incomodado com aquelas coxas rosadas e aquele fundo de calcinhas preto.
Então alguém teve uma idéia. Ainda existem pessoas geniais. Entregaram uma toalha dessas muito bonitas, estampadas, ao Alemão dizendo que oferecesse à esposa. Talvez ela estivesse com frio. Era dezembro, sol a pino, mas estava soprando um ventinho do sul…
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