por Redação

Pesquisadores afirmam que há cerca de 144 milhões de maconheiros no mundo todo

No filme Tropa de elite, há uma acusação pesada e, na minha opinião, indevida em cima dos usuários das chamadas “drogas leves”, como a maconha. Segundo o filme, é o usuário quem financia o tráfico. Por conseqüência também a violência, as crianças criminalizadas e toda gama de deselegâncias que envolvem o tráfico. Ninguém pode dizer nada contra tais acusações. Em alguma parte, é mesmo procedente. Mas, com certeza, essa é a parte mínima, em termos de responsabilidades e culpas. Em nenhum momento do filme se falou daqueles outros que tiram lucro com esses estranhos hábitos humanos.

Os números globais do tráfico são da ordem de US$ 600 a US$ 800 bilhões a cada ano. Não há como movimentar tais quantias sem passar pelo sistema financeiro, pelo mercado de capitais e pelas grandes operações de lavagem de dinheiro. Pelo mesmo motivo que não se produz açúcar refinado em pequenas quantidades, não se produz um pouco de cocaína. É inviável economicamente.

Processam-se colheitas inteiras para produzir algumas toneladas de pasta. E isso só é possível mediante vasto financiamento. Há um tempo de compra de sementes, preparo da terra, plantio, crescimento e colheita. Para tanto é necessário capital de giro para sustentar o povoado camponês durante todo o tempo do contrato. Claro, também o pagamento pela produção no ato da entrega da matéria-prima. A produção agrícola passa pelo primeiro tratamento químico para virar pasta. Depois, entram na conta, os elementos químicos e a mão-de-obra especializada para o refino da pasta e o transporte. Mesmo essas grandes facções que ouvimos falar nos noticiários sensacionalistas são café pequeno no mundo das drogas. Segundo o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, o PCC faturou R$ 63 milhões. Comandam o varejo, nem sequer desconfiam quem são os verdadeiros patrões.

Importantes investigadores do crime organizado em nível internacional afirmam que o dinheiro ilegal em circulação no planeta é da ordem de US$ 1,5 trilhão. Não existe, no dizer do repórter Carlos Amorim, essa quantia de dólares impressos. É virtual, só pode existir em registros de contas. O dinheiro do crime é aceito nos negócios realizados em todo o mundo. Os investigadores afirmam que mais de US$ 200 bilhões são lavados, com sucesso, a cada ano.

Pesquisadores afirmam que há cerca de 144 milhões de maconheiros no mundo todo. Tenho certeza de que deve ser mais. Muita gente enrustida. Mas, de fato, seriam eles, isolados, os únicos responsáveis pelo crescimento escandaloso dos números do consumo e tráfico das drogas? Ou esse povo ambicioso e voraz que lida no mundo dos capitais e do poder, onde vale tudo? O que fariam os verdadeiros donos da droga, se o dinheiro que eles amealhassem não valesse nada? Se nenhum banco, nenhuma bolsa de valor ou nenhum mercado financeiro aceitasse? E se todo o dinheiro fosse obrigado a declarar origem, nacionalidade e não fosse possível lavagem em paraísos fiscais?

O consumo da cocaína cresceu 30% entre 2002 e 2007, segundo o UNODC, órgão de investigação pertencente à ONU. Em 80% das nações detectou-se uso e tráfico. Calcula-se que são cheiradas mais de 600 toneladas de cocaína no mundo, por ano. O custo é estimado em mais de US$ 100 bilhões. No Brasil a estimativa de circulação da mercadoria é de 80 toneladas ao ano, movimentando cerca de US$ 6 bilhões.

Em 2006, Evo Morales suspendeu restrições ao cultivo de cocaína na Bolívia. Em resposta, o Brasil e a Argentina desenvolveram rigorosa campanha para controlar elementos químicos necessários no refino da pasta da cocaína. A produção ficou complicada. Não tendo os materiais necessários, a solução encontrada pelos narcotraficantes foi produzir droga de baixa qualidade. O que, mais uma vez, prejudicará o usuário e aumentará o consumo (diminui a qualidade, aumenta a quantidade para compensar). O dinheiro vai fluir do mesmo jeito (agora até mais) e o sistema financeiro continuará a lavar, como sempre.

Desculpem-me os que pensam em contrário, mas para mim é injusto. Quem fuma seu baseadinho no fim do dia para relaxar, descansar, curtir um som, amar ou porque pode ser gostoso mesmo não pode ser responsabilizado por isso tudo. Parece que se aproveitaram do momento. Aquelas falas não encaixaram bem no enredo, parecem plantadas. A mim soaram mais como técnica de contra-informação, busca de bode expiatório e, principalmente, tentativa de desviar atenções.

*Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, esperou 30 anos atrás das grades até que pudesse contemplar as árvores em liberdade.Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
fechar