por Josélia Aguiar
Trip #238

Nos tornamos portadores supremos da verdade. A seguir, Trip apurou os ouvidos para entender quando foi que a intolerância e a raiva (e a vaidade e o narcisismo) tomaram à frente e paramos de nos escutar

Dono de um dos muitos blogs que suscitam acirrado debate político na internet brasileira, o cientista político Leonardo Sakamoto desenvolveu uma técnica para tentar conter o ódio na caixa de comentários dos posts. Para responder a uma mensagem furiosa, envia declarações de amor e coraçõezinhos. É uma busca de antídoto contra a virulência – embora a manobra, ela também, possa acabar enfurecendo o interlocutor e apimentando ainda mais os ânimos. 

Haja ofensas na web. Não foi só o anônimo raivoso padrão quem se exaltou nas eleições. Quase todo mundo parece ter perdido um pouco a medida enquanto digitava. No saldo geral, houve amores, amizades e parcerias profissionais rompidas, como notou o professor de filosofia da USP Renato Janine Ribeiro, cujos posts são frequentes no Facebook e o colocaram também no olho do furacão dos desentendimentos. Suas análises muitas vezes encontravam, do outro lado, dificuldades desconcertantes de interpretação de texto. E nos leva a uma hipótese: briga-se muito sem entender bem os argumentos do interlocutor.

Num estado de aparente surdez generalizada, todos gritam. Noemi Jaffe, escritora e crítica literária, já abordou o fenômeno em seu blog mais de uma vez. “O que tenho sentido é uma exacerbação da dificuldade de escutar, de reconhecer o outro, de se abrir de forma tolerante para as diferenças. É estranho porque, ao mesmo tempo em que estão ocorrendo muitas aberturas morais, está havendo um fechamento do discurso, tanto na fala como na escuta.” 

O que as redes sociais parecem fazer é potencializar esse tipo de impasse. “Na internet, a pessoa tende a pensar que suas ideias são hegemônicas”, pondera a escritora. “Isso acirra a vaidade, a falta de contraposição, e deixa todo mundo com muitas certezas. As certezas são o oposto da escuta e do diálogo.”

Quase vítima real da truculência que assolou o país nas eleições após declarar voto na candidata Dilma Roussef – foi ameaçado num restaurante do Rio –, Gregorio Duvivier, do Porta dos Fundos, diz que as redes sociais tiraram as pessoas do armário. “Aquela ideia que você tinha, mas não contava pra ninguém, hoje em dia você publica. Isso é lindo, mas é muito perigoso. Antigamente a gente estava mais protegido da gente mesmo. Os filtros que se impunham à publicação de uma ideia faziam com que você ponderasse um pouco mais.”

SOFRENDO NO DESERTO

Se está mais visível na internet, a falta de escuta do outro, somada à resistência em aceitar quem pensa de modo diferente ao nosso, se apresenta por toda parte, diz gente de vários campos do conhecimento procurada pela Trip. E dentro dos discursos mais razoáveis e ancorados no “bom senso” — o bom senso, que Descartes dizia ser a coisa mais bem distribuída do mundo, porque todos pensamos ter — parece figurar sempre uma irracionalidade pronta a atacar. 

A questão transcende o mundo digital. “Isso se aplica também ao espaço privado das relações amorosas ou amistosas, passando pelas relações laborais e institucionalizadas”, diz o psicanalista Christian Dunker, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. 

"Não fomos acostumados à discussão de ideias, dada a nossa pouca experiência democrática"

Entre falar e ouvir, os desacertos se acumulam. Dunker caracteriza três fenômenos, que se dariam ao mesmo tempo. Um é o que chamou de aceleração relacionada à performance. “Vivemos hoje com um acervo de instrumentos e meios que excedem o limite de nossas faculdades mentais ‘em estado natural’. Isso nos afeta brutalmente.” Outro é a cultura do connect e cut, caracterizada pela facilidade de acesso e desligamento no contato com o outro. “Isso gera um estado de falas interrompidas, demandas cruzadas, palavras sem destinatário, entonações indeterminadas.” Em terceiro lugar, a ansiedade se amplifica com certos esquemas ou “protocolos” de ação. “É preciso saber, e de preferência de modo não ambíguo e rápido, o que o outro quer de nós. É uma espécie de vida em formato de demanda.” Dunker diz que somos compelidos ao que psicanalistas chamam de “monólogos de gozo”. “O sujeito está falando sozinho, sem se dar conta.” 

Não raro os ataques de ódio se devem à sensação de não ser ouvido. Como explica Dunker, “são pessoas xingando operadoras de telefonia, atendentes de telemarketing, vendedoras morosas ou caixas de banco indefesos, vociferando contra carros que andam devagar. É um ódio que, em vez de marcar um afastamento e garantir que queremos mesmo ‘nos livrar’, funciona como um apelo: ‘Pelo amor de Deus, alguém note que eu estou aqui, sofrendo no deserto!’”.

Não foi só o anônimo raivoso padrão quem se exaltou nas eleições. Quase todo mundo parece ter perdido a medida enquanto digitava

A esse pandemônio, parece se somar aquilo que decorre do que perdura do passado brasileiro. No fundo, “não fomos acostumados à discussão de ideias”, lembra Renato Janine Ribeiro, “dada a nossa pouca experiência democrática”. Política, como repete, não é vencer, mas convencer. 

Exemplos do pouco estímulo ao debate não faltam. Basta observar o funcionamento dos tribunais do júri brasileiros, prossegue o professor da USP. Nos Estados Unidos, 12 jurados se reúnem para discutir as sentenças; ao fim, chega-se à produção coletiva de uma decisão. No Brasil, os jurados não podem conversar entre si, há cédulas de sim ou não, a sentença se dá por convicção íntima, acontece sem conversa. E então chegamos à internet. Ao mesmo tempo em que não possui essa prática de debate, o internauta se vê incentivado a opinar, diz Janine Ribeiro. “Até um tempo atrás, quem escrevia e publicava era minoria. Era preciso tempo para refletir. Agora qualquer pessoa é autora. Há velocidade e nenhum custo.” É o tal “sair do armário” a que se refere Duvivier. 

O individualismo imediatista, a competitividade, certa falta de senso ético e sensibilidade humana são pontos observados pela escritora Maria Valéria Rezende, que tem a experiência da militância política nos anos de chumbo e da vida religiosa (fez parte da ordem das Cônegas de Santo Agostinho). “A violência tem sido o método mais prestigiado para a solução de conflitos ou até simplesmente para afirmar-se individual, coletiva ou institucionalmente como potência.” Como diz, “vamos perdendo o controle sobre o que aceitamos e queremos, o que vai compor nossa mentalidade e resultar na resposta mais ‘rápida’ e, portanto,  mais violenta a qualquer estímulo”. 

 

Se está mais visível na internet, a falta de escuta do outro, somada à resistência em aceitar quem pensa de modo diferente, se apresenta por toda parte

 

A vida das cidades também parece estar deixando as pessoas sem conseguir ouvir o outro, muito menos dialogar. “Asurdez aparece de duas formas”, afirma a arquiteta e urbanista Paula Santoro, professora da USP. “A primeira tem relação direta com a forma como se organiza a cidade. Vemos a construção da cidade dos muros, onde a gente não se encontra na rua: vou da minha casa privada para um shopping center privado no meu carro privado. Perdemos lugares dos encontros, das surpresas, das manifestações.” Como diz, essa forma de olhar a cidade segrega, afasta os diferentes, promove a intolerância.

O planejamento urbano tenta o contrário disso: construir cidade para todos, onde o espaço seja público. Daí vem a segunda forma de surdez do ponto de vista da vida urbana. “É na hora de discutir a cidade”, acrescenta Santoro. “Temos uma Constituição democrática, mas ainda não construímos esses processos democráticos nem estamos abertos a eles. Quem propõe participação popular encontra muita dificuldade. Isso se expressa em São Paulo na guerra dos abaixo-assinados; são formas de expressão que destroem, não constroem.” 

 

"A violência tem sido o método mais prestigiado para a solução de conflitos ou até simplesmente para afirmar-se individual"

 

O que parece faltar é espaço para mediações de conflito. “Não é só abrir microfone, mas pensar na metodologia. Devemos sentar juntos. Não é só destruir propostas alheias, e sim articular coisas, lidar com recusas e receios. Pode não existir consenso, mas pactos. A cidade está acima dos interesses individuais.” 

DESACELERAR

Quase sempre fora da agenda, a questão ambiental também deve ser lembrada quando se trata de nossa dificuldade de escuta e convívio, sugere o documentarista Carlos Nader, autor do premiado Homem comum. Nessa soma se devem incluir desde a seca e as temperaturas elevadas até o lixo eletrônico e a burocracia. E também o que está no nosso organismo. “Grande parte da nossa ansiedade se deve à quantidade de bactérias de nossa microbiologia”, diz. “São bactérias que nos chegam via conservantes, poluição, antibióticos, alimentação em geral, que mudou mais nos últimos 40 anos do que nos 10 mil anos anteriores.” 

As soluções para o estado de surdez parecem passar sempre pelo estímulo ao diálogo. A existência de pautas coletivas – ciclovias e corredores de ônibus, por exemplo, no caso da mobilidade urbana – é motivo de otimismo para Santoro. Nader ressalta que precisamos superar dois pecados originais fundadores da civilização brasileira: a escravidão e a devastação da cultura indígena.

 

“Não se constrói uma relação saudável sem ouvir. Por vezes, é melhor ter um bom convívio do que vencer o embate"

 

Uma educação para a tolerância deve começar nas escolas já com as crianças, e a imprensa deve contribuir para “fomentar uma discussão pública de alto nível para a construção do bem comum, e não semear ódios”, defende Sakamoto, o dos corações como resposta no site. Os movimentos “slow” e, sobretudo, a arte são defesas de Jaffe. “Gosto e acredito tanto nas palavras, na escrita, na demora. A escrita exige muito tempo, muita paciência, releitura, revisão, mudança. E o aluno precisa se habituar a errar, a ouvir os outros criticarem-no, a saber que um livro demora anos para ser escrito e apreciado, tudo demora. A arte é um ótimo caminho para a demora necessária.”

Duvivier lembra o teatro como ótimo lugar para se aprender a ouvir. “Uma peça é, essencialmente, um conflito de ideias, e os bons atores são, em geral, grandes debatedores. Um dos aprendizados do teatro é este: ouvir. Não se atua sem, antes, ouvir o outro. Não adianta decorar a fala e o jeito de falá-la. Só existe teatro quando aquilo que você fala é uma resposta àquilo que você ouviu.”

A meditação ajuda, recomenda Arthur Shaker, professor de religiões orientais e cosmologias comparadas, fundador, conselheiro e instrutor na Casa de Dharma, em São Paulo.“A tendência da mente é disparar padrões reativos, tão inconscientes que a gente não percebe, devido a uma série de condicionamentos não muito saudáveis, relacionados a formações mentais construídas em função de seus apegos, preferências ou aversões”, explica Shaker. “A meditação, assim, evita o automatismo.” Ele frisa a diferença entre escutar e ouvir. O primeiro está relacionado a impulsos sonoros. O segundo significa que se estabelece a compreensão, procurando não julgar ou fazer comentários. “Isso é um cultivo que se tem de desenvolver. Não se constrói uma relação saudável sem ouvir. Por vezes, é melhor ter bom convívio que vencer o embate. A gente absolutiza verdades. Esquece que ponto de vista é uma vista de um ponto.”

Um retorno à valorização do que se diz é o que, por fim, indica Dunker. “Nos anos 1960, Lacan definiu a importância da palavra plena em nossas vidas como caminho para reconhecermos nosso desejo e fazermos esse desejo ser reconhecido pelos outros (o que não é o mesmo que termos nosso eu reconhecido, como narcisos). É justamente por ter se tornado uma raridade que a palavra bem- -posta, em seu tempo de palavra falada e empenhada, com sinceridade e intimidade, tornou-se também um bem precioso e cobiçado.”

No pós-eleições, a balbúrdia permanecia, com impropérios gritados na web e nas ruas. É certo que também não faltaram pedidos de reconciliação – alguns repercutiam os acenos de paz presentes nos discursos da vencedora e do derrotado assim que saiu o resultado do pleito. De alguma forma, o que o último mês parece ter nos mostrado é que nossas certezas talvez devam ser constantemente colocadas em xeque – e que esse é um exercício diário, mutável e contínuo. Ao diálogo, pois. 

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