por Alê Youssef

Hermano Vianna explica como o tamborzão pegou a Dutra e criou um subgênero mais engajado

Em texto publicado hoje (26/11) Na Folha de São Paulo, o antropólogo Hermano Vianna, explica o fenômeno do novo estilo de funk criado em São Paulo.
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Quando as pessoas falam em globalização geralmente pensam num mundo todo igual. Sempre encarei a história do hip hop no Brasil como bom exemplo para contestar, ou pelo menos complexificar, a tese da inevitável homogeneização planetária. O som de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash chegou por aqui nos anos 80 e desenvolveu, em cidades separadas por apenas 1 hora de vôo, dois estilos musicais supreendentemente diversos: o funk carioca e o rap paulistano. Suas histórias são ricas, plurais e já modificaram tanto a autoconsciência quanto a imagem externa da cultura brasileira.

É sempre necessário enfatizar também a extrema geolocalização urbana da cultura dita global. Em música isso é mais que evidente. Todo novo estilo é profundamente conectado com uma cidade. House com Chicago, techno com Detroit, trip hop com Bristol, kuduro com Luanda. O hip hop teve origem no Bronx, em NY, e se espalhou por outras cidades criando estilos locais. Em Miami virou Miami Bass que por sua vez chegou no Rio e deu no funk carioca.

Agora é a hora do funk carioca plantar raízes em outros centros urbanos. O tamborzão pegou a Via Dutra e já está criando um funk carioca paulistano, conectado com a história recente do rap na cidade. Uma diferença importante das histórias do hip hop em São Paulo e no Rio foi o diálogo com o poder público. José Marcelo Zacchi, fundador do Sou da Paz, e Alexandre Youssef, hoje no Studio SP, me chamaram a atenção para o seguinte dado crucial: a difusão do rap paulistano aconteceu numa prefeitura de Luiza Erundina, com Marilena Chauí na secretaria de cultura colocando os rappers para fazer oficinas nas escolas. No Rio o poder público ignorou a nova música, tratando-a como inimiga da cidade e da educação.

Dá para sentir algo parecido acontecendo com o nascimento do funk carioca paulistano. A aproximação da subprefeitura da Cidade Tiradentes com o pancadão já gerou frutos como o sucesso (83 mil views no YouTube) do MC Dede, dizendo para a meninada “respeitar a mãe, jogar bola e estudar!”

É possível ouvir também – por exemplo: na base de “Está na Mira Safado”, do MC Jé Bolado – uma variação (concretista?) do tamborzão, batida que provou que o funk não veio para acabar com o samba, mas sim é seu herdeiro eletrônico. São Paulo é terra de samba, de um samba vitoriosamente moderno, popular e criativo: como a cidade poderia não produzir seu próprio e autêntico estilo de funk carioca?

Hermano Vianna é antropólogo, roteirista de TV e Coordenador do site Overmundo

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Na foto MC Dedê, 19 anos, autor do hit “Respeitar a mãe, jogar bola e estudar” . É o Funk Mensagem.

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