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SOU UM GRANDE FILHO-DA-PUTA

Alimentar as crianças do Zimbabwe ou vestir um terno de veludo cotelê? O terno, sem dúvida

em 21 de setembro de 2005

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Estima-se que os 11 homens mais endinheirados do planeta possuam a fortuna de US$ 217.2 bilhões, quantia superior ao Produto Interno Bruto dos 50 países mais pobres do mundo, avaliada em US$ 194.6 bilhões.

Em média, eu tiro por mês um ordenado de US$ 3 500. Para os padrões euro-peus, não sou nem um pouco rico, sou classe média. Eu estava precisando dar uma garibada no meu guarda-roupa. Semana passada fui à Reiss, uma loja bacana em Covent Garden, em Londres, onde estavam lançando a coleção outono-inverno. Comprei um terno lindo, cinza, de veludo cotelê, e paguei US$ 415.  A renda anual per capita em Bangladesh é US$ 360.

Vestindo o meu terno novo, levei a patroa no Cinnamon Club, um restaurante que serve nouvelle couisine indiana. Incluindo o couvert, vinho e gorjeta, o jantar saiu US$ 170.  A renda média anual de um etíope é US$ 100.  Comi uma espécie de risoto com curry e lulas.  O rango estava excelente, valeu a pena.  Recomendo o Cinnamon Club para os 120 mil turistas brasileiros que vêm a Londres todos os anos e gastam em sua estadia uma média de US$ 800, quantia maior do que a renda per capita anual de 40% da humanidade.


Um criminoso
Eu gosto de pensar que sou uma pessoa boa, caridosa. Me preocupo com o bem-estar alheio e me revolto com as injustiças do mundo. Gosto de pensar que sou mais generoso do que os 11 homens mais ricos do mundo, e, provavelmente, sou. Mas, quando me olho no espelho com o meu terno novo, percebo o quão limitado é o meu interesse pelos pobres e como minha bondade não vai longe. Eu poderia, por exemplo, ter doado o que gastei com o meu terno cinza de veludo cotelê para um orfanato de Zimbabwe, onde 38% das crianças são malnutridas. Não doei porque não quis. Quando comprei o terno, fiz uma escolha clara: optei pela minha vaidade e perpetuei a má nutrição de muitas crianças. Sou um criminoso.  E assumir a culpa em público não me redime. E o que é pior:  impunemente, vou continuar a apontar as injustiças do mundo enquanto faço um pé-de-meia porque quero trocar o meu carro, um Honda Civic, por um Mini Morris,  veículo fabricado pela BMW, cujo modelo básico sai por US$ 16 mil.


***


Bagel é uma espécie de pãozinho fofo, uma rosca que os imigrantes judeus do leste europeu levaram para os Estados Unidos no século passado. Principalmente na costa leste, esse pãozinho ficou muito popular – talvez tanto quanto croissant e baguete – e é consumido com um queijo cremoso, cream cheese.

Pois bem, os tais bagels atravessaram o Atlântico e, já há alguns anos, aqui em Londres, existe uma promissora rede de lanchonetes que vende bagels com vários recheios, a Bagel & Company.

Outro dia entrei na fila para comprar um bagel na filial da Bagel & Company da Euston Station. Mesmo de longe, desconfiei que a vendedora tinha um ar de brasileira. Vivo fora do Brasil há 21 anos e desenvolvi um sexto sentido para identificar à distância brasileiros no exterior. O meu radar detector de brasileiros quase nunca falha. E, estranhamente, só falha com colombiano. Chegando mais perto, vi que a moça tinha um crachá com o seu nome, Gislene. Era com certeza brasileira. Só brasileira se chama Gislene. Nem perguntei de onde ela era e já pedi o meu bagel em português, direto.

A Gislene tem 23 anos e é do Mato Grosso do Sul. Está em Londres há um ano aprendendo inglês e juntando uma grana. Ela trampa duro, ralando ilegalmente das 6 da manhã até as 5 da tarde. Sempre com medo de ser flagrada pelos agentes da imigração e ser deportada. Ela é morena, cabelos ondulados, olhos castanhos e feições delicadas. Não deu para checar direito a bunda, pois ela estava por trás do balcão e vestia o uniforme ridículo da Bagel & Company. Mas eu tenho um sexto sentido para bundas também. Já pela cara eu sei dizer se é boa ou não. Eu garanto que a da Gislene é um espetáculo. Ela sonha em voltar para o Brasil e abrir uma filial da Bagel & Company num shopping center de São Paulo. Boa sorte, Gislene.


*Henrique Goldman, 40, é um cineasta que mora em Londres e quer trocar de carro. Seu e-mail é henrigold@yahoo.com

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