Sobreviver ou Morrer?
Sobreviver ou morrer de uma vez?
Questiono se sobreviver em determinadas circunstância, é mais importante que morrer. Sou a favor da Eutanásia por conta dessa pergunta. Mesmo sabendo que aquela pode ser oportunidade impar para ressarcimentos. Eu, agora, ser humano, tenho certeza absoluta de que devo ser contra a dor e o sofrimento. Não importam as circunstâncias. Uma dor de dente: tratar, cuidar deve ser o procedimento correto. Mas se não for possível; ficar sofrendo por que motivo? Arranca logo, neutralizando o danado do dente e a questão.
Lembro da quantidade exagerada de iniquidades e misérias que fui obrigado a encarar para sobreviver. Torturas de todas as espécies. Pau de arara; pau de afogamento; choque de parede e de dínamo; pau de esculacho; e muitas vezes, não há como lembrar quantas. Depois celas-fortíssimas; espancamentos dos guardas das prisões de cano de ferro; do choque da PM com seus cassetetes enormes, seus coturnos, suas balas de borracha e de chumbo. Pressões colossais, riscos de morte constante e guerrilhas com valentões que resultavam em mortes. Fora as guerras interiores que foram muito mais bárbaras e cruéis ainda. Foram mais de 30 anos disso. Hoje questiono se devia mesmo viver a qualquer custo, ou morrer de uma vez logo no começo.
Por vezes penso que talvez morrer fosse melhor. Lutei tanto, me submeti tanto, exigi tanto de mim, matei partes exuberantes de mim e sobrevivi imerso na ilusão de que um dia, depois de tudo, eu seria livre, feliz. Liberdade era sinônimo de felicidade. Mas, chega aqui fora e liberdade significa responsabilidades; continua a luta ferrada, preocupações enormes que nem imaginava possíveis; conheci novas formas de sofrimento e dor, a judiação dos outros que me causa dor e aquelas mais interiores; continua a solidão, mesmo com os outros; e a angústia que hoje nem sei bem porque (antes era a prisão). Em suma, liberdade provou-se ilusão porque não sou feliz.
Mas, puxa, entre ser infeliz aqui onde tudo pode acontecer e infeliz na prisão onde não há esperanças, essa infelicidade é muito melhor e, mais confortável. Pensando por esse lado, posso até dizer que há um pouco de felicidade só em poder dizer. E que a culpa deve ser minha. A partir de mim, dá sempre para melhorar e talvez ainda viver imensos momentos felizes, como tenho vivido. Não posso é me acomodar, fechar os olhos e achar que esta tudo bem, porque não esta. Depois de tudo o que vivi, é preciso continuar investindo no mesmo sentido de sempre, é tarde para mudar.
***
Luiz Mendes
05/02/2010.
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