Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Após o atentado de 11 de setembro, com o advento de outras guerras, guerrilha interna e por fim a Sars, o turismo no Nepal sofreu uma redução violenta, chegando a quase 50% do número usual de visitantes nos últimos três anos. Isso não significa que o número de alpinistas diminuiu, muito pelo contrário: este ano, quando se comemora o cinqüentenário da conquista da maior montanha do mundo, foi recorde nos números, mostrando que esse clã segue destemido frente às dificuldades e ameaças do mundo.
O acampamento base do Everest, a 5 300 metros de altitude, virou uma ?cidade?, com 33 expedições e mais de 500 hóspedes, entre alpinistas, carregadores, cozinheiros, repórteres, caminhantes etc. Tem até um cyber-café improvisado em uma pequena barraca! O clima é de euforia, mas também de apreensão, pois há gente em excesso e qualquer queda de blocos de gelo na cascata do Khumbu, uma avalanche ou uma mudança rápida no clima pode causar uma tragédia. Apenas em 1996, ano que ficou famoso pelo desastre que aconteceu com as expedições de Scott Fischer e de Rob Hall, com a morte de inúmeros alpinistas, havia tanta gente tentando escalar a montanha.
Pico cheio
Fatos recentes mostram o clima de agitação: uma equipe de chineses transmitiu ao vivo do cume, um japonês de 70 anos escalou a montanha acompanhado de seu filho de 33 e foi feita uma ascensão em 10h53min pelo sherpa Gelu Lakpa Sherpa. Vários recordes foram estabelecidos. A mídia acompanhou tudo de perto, como nunca. Cheguei aos pés do Everest e não pude ir além, pois não tinha US$ 70 mil no bolso, a grana alta que estão cobrando por uma expedição guiada. Tenho agora uma nova sensação: a de urgência. Estão falando em restringir ainda mais o acesso à montanha.
Estive lá flertando com ela. Se fosse longínqua e desconhecida, o fascínio seria o mesmo, talvez até maior. A montanha é imponente e bela. Pretendo vê-la sob mim, explorar suas entranhas, dominá-la. Mesmo que o esforço seja enorme e o momento, vão. Depois volto para minha esposa e para o meu filho. O alpinismo é um adultério permitido.
Vai encarar?
O Nepal não é só o Everest. Quem vai precisa visitar o Pashupatinath, a maior stupa budista do mundo, e o bairro de Patan, predominantemente hinduísta, em Katmandu. A uma hora de vôo de lá chegamos a Lukla, nos pés do Himalaia, a 2 800 m. A pista de pouso é tão pequena, que precisou ser feita inclinada. A sensação é de, literalmente, trombar com o chão. A decolagem assemelha-se com a da asa-delta: depois que se começa a descer a ladeira, não pára mais.
Após uma bênção budista no monastério de Tengboche, vá para Dingboche, Lobuje e Gorak Shep, a 5 100 m, último vilarejo antes do acampamento base do Everest, a aproximadamente 8 dias de caminhada a partir de Lukla. Subir o Kala Patar, uma montanha de 5 450 m, é um passeio incrível e, do seu cume, tem-se a melhor vista do Everest. (texto e foto Rodrigo Raineri*)
*Rodrigo Raineri, 32, é um dos alpinistas mais experientes do Brasil e planeja, com seu parceiro Vitor Negrete, a primeira expedição brasileira a conquistar o Everest sem o uso de cilindros e máscaras de oxigênio, em 2004.
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