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Semelhanças

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Às vezes fico olhando meus passos e me perguntando se sou eu quem piso ou é o chão que atinge meus pés, me levando pelos seus caminhos.


O sofrimento é sempre comovente, é o que me une às pessoas. Vivemos a dar voltas em torno de nós mesmos. A tormenta vive a nos cercar por dentro. Lutamos para sobreviver a nós mesmos, insanos, sem saber ao certo para que. Vivemos a nos unir para vencer a dor e acabamos por nos causar mais dor ainda. Talvez porque não saibamos existir sem a dor, vivemos alavancados pelos traumas.


Hoje recebi um e-mail que me deixou pensativo sobre essas coisas. A pessoa havia lido meu texto chamado ‘Imensidão Azul’, publicado na Trip 126, em que falo do meu encontro com o mar trinta e um anos depois. Suas emoções diante de meu texto deixaram meu exército de palavras desmantelado. A fúria fria, com que as coisas existem nesse nosso mundo tão caótico, sempre me desconsertou.


Eu relatava o momento em que minha vida explodia em súbita alegria, ao entrar com meus pés no mar, celebrando a liberdade com toda gravidade que ela continha. Parece que havia sobrevivido aquele tanto somente para viver aquela lucidez, contra a luz crua do sol. Eu lavava em sal dores antigas. Da noite funda abriam-se os dias de meu futuro incerto mas intacto. Tudo me parecia macio, redondo e eu estava em paz captando a silenciosa poesia da vida que me cercava.


Estive mais duas vezes nos mesmos lugares. Nada mais foi como antes. Tudo agora tem um ar de já visto, assimilado. Parece que a beleza nasce antes dos olhos, como aquelas procissões com seus archotes vermelhos a compor as noites de fé.


É um rapaz, tem 22 anos e começou a viver agora. Aos 15 anos descobriu que estava com leucemia mielóide aguda. Foram anos de luta para chegar até aqui. Anos de muita dor e muito sofrimento. Sua adolescência foi em hospitais, convivendo com doentes terminais, amando-os e vendo-os morrer quais moscas depois de imenso esforço pela vida.


Seu e-mail era enorme, contava que meu texto o remetia a emoções vividas idênticas às minhas. Após nove meses de tratamento de quimioterapia de altíssima dosagem (sendo submetido à mais alta dosagem que um ser humano pode suportar e continuar vivo), assim que teve forças, saiu a passear sozinho pela praia de Porto Seguro, BA.


Caminhava no limite entre o mar e a areia molhada, quando sentiu a água quebrando-se em cacos de cenas vividas no hospital naquele tempo imenso. Uma delas, era ele nu diante do espelho. Não tinha nenhum pêlo no corpo, a boca era uma ferida só, e estava pesando 40 quilos, parecia fulminado. E mesmo assim, seu pau estava duro e ele excitado. Sentia-se morto e vivo ao mesmo tempo, contrastando-se dialeticamente.


De repente, o mar produziu o choque por dentro de seus olhos, toda a dor sofrida detonada em um cataclismo. As ondas batiam em suas pernas surdamente cravadas na areia. Coisas duras, escuras e secas rangiam enquanto um frescor largo de vento marítimo o envolvia. O rugido do mar era grande demais, o ar tremia na imensidão das coisas e as vidas aconteciam depressa demais para que ele pudesse acompanhar.


Tudo o que via, não valia a pena, parecia uma mentira querendo se desmentir. De repente, o que se fizera inóspito, áspero e o maltratara, foi se esgotando. O estoque das horas que carregava em seu sangue distribui-se por todo seu coração. Mãos inatingíveis e breves pareceriam secar o ar que ele aspirava. Como um animal ferido, arquejava varando o espaço, fatiado pelos ventos. Sentia que sua jornada não acabara, mas que o corpo o traíra.


Ele não celebrava a liberdade de reencontrar o mar. Parecia que tudo havia parado e as pessoas diluíam-se sem rostos, enquanto quedava-se a sentir. Era enorme o silêncio, as palavras pulsavam presas à sua garganta, um vazio abriu-se na boca de seu estômago, uma dorzinha fina apalpava seus nervos. O sol de tão forte abrangia a vastidão do olhar e ele comemorava seu batismo, o início de seu ato de viver. E já não importava por quanto tempo e sim como. Estava convencido de que o importante não era vencer e sim haver feito o melhor do que podia.


O meu texto o remetera àquele contexto e, ao ler, decodificou sua significação. Agradeci-lhe a honra.





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